Sobre o Forum Mundial de Teologia e Libertação no Forum Social Mundial: o que queremos e o que podemos? Artigo de Luiz Carlos Susin

Foto: Karl Raymund Catabas/Unsplash

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11 Agosto 2026

De 03 a 08 de agosto está acontecendo o 17º Fórum Social Mundial na cidade de Cotonou, capital do Benin, na África ocidental. E desde 31 de julho, no mesmo lugar, acontece o 12º Fórum Mundial de Teologia e Libertação - FMTL, que acompanha o Fórum Social Mundial. Sob novas tensões e ameaças, mas sob o lema “Outro mundo é possível”. 

O artigo a seguir contém a reflexão apresentada no 12º FMTL por Luiz Carlos Susin, teólogo, professor na PUCRS.

Eis o artigo. 

Estamos a 25 anos do primeiro Forum Social Mundial (FSM) e 20 anos do Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL). Por um lado, estamos em um momento histórico mais complexo e mais difícil do que quando começamos, com a ordem institucional internacional perdendo autoridade, o extremismo autoritário e nacionalista de caráter fascista crescendo em todo o mundo, as democracias colocadas cada vez mais à prova, a desigualdade em novo crescimento, enfim o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos mais longe de sua realização. E, por outro lado, esta fase avançada da tecnologia parece neutralizar a capacidade de movimentos sociais, este precioso sujeito histórico. Alguns estudos de movimentos sociais nos avisam que um movimento social tem um dinamismo determinado num tempo histórico finito. Tem um começo, um clímax e um final. No começo, capta as energias que normalmente vem de baixo do conjunto da sociedade, e se levanta como uma onda do mar cada vez mais poderosa. Tem seu clímax quando a onda gigante se joga para frente com todo o seu peso, se arremessando e rompendo, eventualmente destruindo, os obstáculos em seu caminho. A tomada da Bastilha, na revolução francesa, é um bom exemplo. E finalmente, a onda se espraia e acalma, voltando a se confundir com o mar de onde emergiu. Em outras palavras, as aspirações e as energias sociais concentradas em um movimento têm um tempo de clímax, de força e poder para atingir seu objetivo. Alcançado ou não alcançado o objetivo, o movimento tende depois ao esvaziamento de energia e deixa de ser movimento para se tornar instituição, uma burocracia, ainda que mantenha objetivos respeitáveis. Um movimento social teria até 20 anos de vitalidade, não teria mais que isso.

Mas seria sempre assim? Trago aqui dois sinais que não se alinham bem com esta análise. O primeiro é bastante evidente no Brasil, talvez pelo tamanho e vocação agrícola do país: o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra já passa de quarenta anos e continua a ser um dos maiores movimentos do sul global. Perguntando às suas lideranças sobre o segredo de sua vitalidade, a resposta é a mística do movimento, alimentada com frequência praticamente diária: é sagrado o direito dos seus filhos a terem pão e segurança alimentar, educação e casa para morar, relação intrínseca entre autonomia e compromisso coletivo. Essa mística sagrada é alimentada por símbolos, gestos e hinos, por debates e decisões coletivas, tudo com frequência. O segundo sinal é mais amplo: grandes movimentos sociais desde as últimas décadas do século XIX e por todo o século XX, portanto de um século e meio para cá, tomaram uma forma original. Comecemos lembrando os escritos e sobretudo as andanças de Liev Tolstói em meio à população russa, a sua influência sobre Mahatma Gandhi e o modo de descolonização da Índia, a influência de Gandhi sobre Martin Luther King e seus companheiros e companheiras no movimento para os direitos civis, a trajetória de Nelson Mandela e Desmond Tutu no desmonte do apartheid da África do Sul. Todos alimentavam com seus povos uma forte mística e uma resistência não violenta apesar da violência recebida. Ao contrário dos movimentos liberacionistas da Europa moderna, tiveram decisivo ingrediente religioso. E neste ponto precisamos falar de religião e de sua tremenda e fascinante ambivalência.

Mas primeiro seu lado problemático, que hoje se manifesta de forma clara: os sintomas de fascismo que surgem em diversas partes do planeta hoje, têm um ingrediente religioso bem mais explícito do que nos anos 20 e 30 do século passado. Se tomarmos o slogan “Deus, pátria e família”, que vem se tornando comum em alguns casos de extremismo atual, e que legitima nacionalismo e racismo, e compararmos com as palavras de ordem dos nazifascismos do século passado, naquele tempo a pátria estaria em primeiro lugar. Hoje, para muitos extremistas, Deus é a primeira palavra de legitimação ou sacralização do autoritarismo e da violência. Talvez a explicação esteja no fato de que os diversos fascismos do século passado tiveram seu centro na Europa moderna, enquanto o atual epicentro extremista se dá nos Estados Unidos e seu fundamentalismo religioso originário. Esse fundamentalismo, com seu irmão gêmeo, o negacionismo, irradia-se e espalha-se pelo mundo, especialmente pelo sul global, e torna-se terreno fértil para o crescimento do autoritarismo e para a legitimação da violência. Aqui a espiritualidade e suas expressões religiosas, que declinaram em áreas secularizadas do planeta, retornam com força, incrementando energia e violência à onda perigosa do extremismo. O FMTL inserido no FSM é chamado em causa exatamente nessa emergência que se tornou mais aguda e perigosa em nosso tempo, vinte anos depois do primeiro FMTL junto ao FSM em Porto Alegre. No começo, o FSM pretendia ser uma alternativa de debates ao Fórum Econômico Mundial de Davos, acontecendo na mesma semana e confrontando as prioridades entre o econômico e o social. Hoje isso é apenas um aspecto. A teologia acorreu e continua acorrendo ao FSM pelas razões contextuais que direi em seguida.

É que a teologia cristã, em um esforço ecumênico, ao longo do século XX, se propôs a sair do armário dogmático ou biblicista em que estava encerrada, buscando superar tanto o dogmatismo como o fundamentalismo, e tomou duas direções. Uma delas foi o retorno às fontes (ressourcement), buscando beber nas águas sempre novas das origens narrativas e seus testemunhos. A outra foi o seu diálogo com os contextos contemporâneos, com as ciências, as culturas, os clamores sociais. A teologia cristã ganhou clareza então em três princípios epistemológicos fundantes: O princípio compaixão ou misericórdia, o princípio esperança e o princípio libertação.

A compaixão se aproxima da fragilidade, da pobreza e do sofrimento humano; a esperança mantém alto o horizonte do Reino de justiça e fraternidade universal que é próprio do Reino de Deus segundo as fontes cristãs. E o terceiro princípio é o encorajamento para a luta por liberdade para quem está rebaixado por condições indignas do ser humano. Os três princípios se implicam intrinsecamente. A compaixão e a esperança sem luta de libertação se tornam adorno de caridade e remédio calmante. É justamente o terceiro, o princípio libertação, que se tornou incômodo até para a CIA, a Agência Central de Inteligência americana, conforme um famoso relatório de Santa .

Naquele relatório, a Teologia da Libertação foi considerada marxismo transvestido de religião para cooptar o povo religioso, interpretação que mostrava ignorância e arrogância. O fato é que libertações históricas estavam em curso antes dessas teologias de libertação, nas lutas por descolonização política de países africanos e asiáticos, enquanto na América Latina se tratava eminentemente da condição de pobreza. Essas lutas não estão terminadas. Pelo contrário, acrescentaram-se lutas feministas, indígenas, de afrodescendentes na diáspora, e também dos territórios com todos os seus seres vivos, as lutas ecológicas. E teologias correspondentes. A vida no planeta também clama pelos três princípios epistêmicos da teologia.

Mas agora, já na terceira década do século XXI, acrescenta-se o mais complicado e desafiador para nós: a manipulação da boa-fé, da espiritualidade, das formas de práticas religiosas, para legitimar, tornando sagrado, o direito de dominação e de violência de uns sobre outros. E o direito de indiferença e de insensibilidade para a compaixão, de horizontes distorcidos para a esperança, de novas formas de repressão, inclusive digitais, com uso de IA, contra as lutas de libertação. A acumulação de poder e domínio não é apenas um fenômeno de super-ricos, afinal todos terminamos em um caixão. Mas é geradora de uma série de males potencialmente terríveis que se pode infligir a multidões inteiras quando tecnologia, riqueza e política assumem esta lógica em aliança, sacralizados pela religião. Neste ponto é necessário lembrar o holocausto e o potencial de holocaustos maiores. Então é necessária a libertação da própria religião, seu desmascaramento profético e seu retorno à compaixão, à esperança e à libertação. Foi o slogan mesmo do FSM que convocou a teologia a pensar “outro mundo possível”, não em outro planeta ou esferas celestes, mas como transformação deste mundo a partir de suas potencialidades. Sugiro que o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos seja a cartografia de outro mundo possível.

Para isso, em que agora somos chamados a contribuir como FMTL? De duas formas: a pars destruens e a pars construens. Em primeiro lugar, ajudar a compreender o que se passa, como acontece a sacralização legitimadora das diversas formas de violência através da manipulação religiosa, e assim despotencializar em seus bastidores o maquinário desta manipulação blasfema. Teologicamente, é a sua dimensão de crítica profética a respeito das novas formas de idolatria, inclusive dentro das tradições religiosas, segundo o ditado de que a corrupção do melhor engendra o pior (na tradução de Ivan Illich). Mas os instrumentos são também as ciências contemporâneas e o rico pluralismo cultural, e não apenas as narrativas das fontes e os gestos simbólicos, embora estes devam ser considerados justamente por sua potência crítica e profética, e por alcançar com sua linguagem a quem a linguagem das ciências aparece como hermética e é facilmente recusada. Em segundo lugar, construtivamente, ajudar a compreender que a espiritualidade e suas expressões religiosas ou laicas, com suas linguagens simbólicas, rituais, institucionais, morais, quando bem interpretadas e expressas segundo o que há de melhor nas suas fontes, é algo não só profundamente humano, mas irrenunciável e transformador, exatamente o que pretende o FSM. Um detalhe de alto significado na nossa luta, como intelectuais orgânicos, é o fortalecimento de Estados laicos para que possam gerir sociedades pluralistas do ponto de vista religioso sem sobreposições e repressões, em que o respeito seja o primeiro passo para a convivência pacífica e o mais feliz possível.

Uma última pergunta: por que viemos, então, como FMTL formar a constelação do FSM? Porque desde o começo vimos no FSM uma convergência rica de contextos, de movimentos e de vozes que nos ajudam no trabalho de círculo hermenêutico entre o que trazemos nas fontes e nas tradições e os sinais dos tempos de hoje e de amanhã, que nos obrigam a rever e considerar coisas novas e antigas. No FSM, antes de tomarmos a palavra, nosso propósito é termos ouvidos e olhos atentos à realidade plural que se apresenta e que converge no desejo de outro mundo possível.

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