04 Agosto 2026
Organizações do tráfico e milícias procuram, a cada eleição, ampliar sua influência na política e no Estado, representando um perigo tanto para a população quanto para a ação do poder público.
A reportagem é de Priscila Lobregatte, publicada por Extra Classe, 03-08-2026.
A atuação do crime organizado deixou, há muito tempo, de estar circunscrita a alguns territórios e tipos de negócio. Seus tentáculos se espraiam cada vez mais por todo o Brasil, em diferentes segmentos do setor privado e das instituições públicas, engolindo parte do Estado e da política.
Nesse cenário, as eleições se tornaram momento privilegiado para que tais grupos ampliem ainda mais sua zona de influência e seu poder, pondo em risco a democracia. E é precisamente esse um dos principais desafios colocados para o pleito de 2026.
“Tem sido cada vez mais comum a presença do crime organizado influenciando eleições. Isso é muito grave porque, como essas facções, muitas vezes, dominam um território, elas podem se beneficiar do voto de cabresto, ou seja, podem obrigar as pessoas a votarem em quem elas quiserem”, explica Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.
Outro ponto preocupante está no fato de que o recurso vindo do crime organizado também serve para financiar essas campanhas, o que gera um desequilíbrio entre os concorrentes. Esses são dois exemplos, diz Carolina, “de como o envolvimento do crime organizado com as eleições viola a democracia”.
A avaliação parte de um cenário que se tornou ainda mais complexo nos últimos anos. Isso porque, para além da venda de drogas, do domínio de comunidades e da exploração de serviços, organizações do tráfico e milícias passaram a ampliar, diversificar e, por vezes, sofisticar sua atuação.
A presença mais intensa desses grupos no dia a dia dos brasileiros foi mostrada em pesquisa feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Datafolha, segundo a qual 41% reconhecem a existência, em seu bairro, de grupos organizados ligados ao tráfico ou a milícias, o que significa quase 70 milhões de pessoas.
Empresas do crime
Exemplo emblemático da transformação desses grupos nos últimos anos foi a forma como o PCC (Primeiro Comando da Capital), principal organização criminosa do país, passou de uma facção nascida no sistema prisional paulista para uma verdadeira empresa a operar à margem da lei dentro e fora do território nacional.
Ao perceber o quão vantajoso e menos perigoso era agir no submundo de diferentes ramos econômicos, como o de transportes e de combustíveis, além do mercado financeiro, entre outros, o PCC reduziu suas ações violentas e passou também a buscar maior apoio na política.
Nas eleições municipais de 2024, órgãos de inteligência informaram ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) que ao menos 12 pessoas ligadas ao crime organizado foram eleitas no estado (dez vereadores e dois prefeitos), de um total de 70 candidatos envolvidos que concorreram. No mesmo ano, uma operação bloqueou mais de R$ 8 bilhões em bens e mostrou que o PCC planejava se infiltrar no mesmo pleito.
Especialista no tema, Gabriel Feltran, diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e professor do SciencesPo, disse à BBC Brasil que a entrada do PCC na política se dá como a de qualquer outro segmento de negócios: “Não é que os caras são criminosos e estão se infiltrando na política; é porque eles são empresários e estão fazendo o que todo empresário faz, que é influenciar o sistema político, a tomada de decisão política”.
Menos organizado como empresa, mas poderoso e influente, o Comando Vermelho também ampliou fortemente sua influência política. Para ficar apenas em alguns dos casos mais recentes e chocantes, o grupo pode ter chegado à segunda posição da ordem sucessória do estado do Rio de Janeiro: a presidência da Assembleia Legislativa.
O deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil-RJ), ex-presidente da Casa e que esteve prestes a assumir o Palácio da Guanabara após a saída de Cláudio Castro (PL-RJ), está preso e é alvo de investigações.
Segundo relatório da Polícia Federal (PF) entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), Bacellar exerce “a liderança do núcleo político” do CV, fornecendo “a interlocução política necessária à blindagem das ações da horda”.
Bacellar era, inclusive, parceiro de outro deputado estadual do Rio, TH Jóias, expulso no MDB. Ecumênico, TH foi investigado, em 2017, por atuar junto ao CV, Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA), lavando dinheiro e controlando parte da contabilidade criminosa.
Já as milícias, as quais nasceram parasitando o Estado com as bênçãos e a participação direta de policiais, ex-policiais e saudosos da ditadura, têm relações políticas mais antigas, consolidadas e até naturalizadas. A CPI das Milícias na Alerj, de 2008, escancarou essa relação ao grande público.
Entre os casos mais recentes e emblemáticos da atuação de milícias na política, está o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e de seu motorista, Anderson Gomes, em 2018. Os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, respectivamente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do RJ e deputado federal, foram condenados neste ano como mandantes dos crimes. Ambos são apontados também por ligação com as milícias.
Reação do Estado
A maior ramificação e influência desses e de outros grupos na política tornam cada vez mais complexo o combate dessa infiltração no seu nascedouro. No caso das eleições, as instituições buscam, a cada pleito, fechar mais o cerco, enquanto os criminosos vão sofisticando e variando sua ação.
Esse cenário exige ainda mais de órgãos como a Justiça Eleitoral, os Ministérios Públicos e a Polícia Federal na fiscalização das candidaturas.
“Como em geral a Justiça precisa ser demandada, acho que há um grande desafio nestas eleições, de todos esses órgãos, de pensar num mecanismo mais proativo de fiscalização. Porque se os casos não são denunciados, esses órgãos não agem”, diz Carolina Ricardo.
Conforme noticiado recentemente, o MP prepara estratégias para atuar nesse sentido. Uma delas é aperfeiçoar a ferramenta já utilizada nas eleições de 2024, integrando bancos de dados e cruzando informações, de maneira a monitorar candidaturas ligadas a esses grupos e impedir que os mesmos financiem políticos ou lancem seus próprios nomes.
O TSE, por sua vez, apontou que pretende usar precedentes da Corte para coibir esse tipo de infiltração. Isso porque as leis que regem o tema, como as da Ficha Limpa e da Inelegibilidade, têm como princípio a presunção de inocência, de modo que não impedem a candidatura de réus ou acusados, apenas de condenados.
Um desses precedentes tem origem no julgamento e indeferimento da candidatura de Luiz Eduardo Santos de Araújo (PL) ao cargo de vereador em Belford Roxo (RJ) nas eleições de 2024, por envolvimento com a milícia.
No caso da PF, o diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor), Dennis Call, explicou, conforme assessoria do órgão, que a corporação “já realiza o monitoramento de facções criminosas com potencial de interferência no processo eleitoral, por intermédio da utilização de dados de inteligência e de informações colhidas em pleitos anteriores”.
Ainda não é possível aferir se a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, pelos Estados Unidos, afetará de alguma forma a maneira como ambas atuam no campo político.
O que é possível dizer é que a criação de instrumentos e estratégias cada vez mais robustas para lidar com a infiltração do crime organizado na política é fundamental. Afinal, conclui Carolina Ricardo, “ter um Estado dominado pelo crime organizado – que se alimenta do aparato público para gerar mais influência e se fortalecer na dominação de territórios – é um perigo para democracia”.
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