Falo da dolorosa necessidade das armas: a paz é o objetivo, mas nem sempre o meio

Foto: Força Aérea de Israel/ Flickr

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05 Agosto 2026

"Afinal, a paz nem sempre é alcançada por meios pacíficos; e o sentar-se à mesa de negociações a partir de uma posição de igualdade de forças é muito diferente de fazê-lo a partir de uma posição de impotência".

A carta é de teólogo e intelectual católico, Vito Mancuso, e da filósofa italiana e professora da Universidade San Raffaele, de MilãoRoberta De Monticelli, publicado por il Manifesto.

Eis a carta.

Cara Roberta, também respondo "em amizade e em paz", como você escreve, mas, antes de entrar in medias res com uma pergunta específica, permita-me esclarecer alguns pontos sobre o seu artigo:

1) não existe em mim nenhuma "satisfação ostensiva" ao atacar as "belas almas" que acreditam na paz, até porque sou uma delas: também acredito que a paz é o único objetivo pelo qual vale a pena lutar, e empenho-me ao máximo para alcançá-la (em teologia, por exemplo, defendo a ideia de que não existe nenhuma religião superior, atribuindo a todas o mesmo valor soteriológico);

2) não tive a intenção de dar lições ao Papa, como o Avvenire já havia escrito, e como você também escreve, mas apenas afirmei que sua ideia de uma "paz desarmada" é, a meu ver, praticamente insustentável;

3) você escreve que sou a favor do rearmamento, quando, na realidade, oponho-me ao desarmamento unilateral; quanto a devermos ou não nos rearmar, cabe àqueles que conhecem a situação decidir; limito-me a afirmar que é dever do Estado estar em condições de defender seus cidadãos;

4) você me acusa de "simplificação"; espero, no entanto, ter proposto uma abordagem esquemática não simplista;

5) você fala de uma "quietude cardinalícia": não tenho certeza do que quer dizer; tento apenas pensar à maneira de Tácito, “sine ira et studio” (sem ira ou parcialidade), para poder husserlianamente ir “zu den Sachen selbst” (direto ao ponto).

Passo agora à questão em pauta, com a pergunta que mencionei acima. Li um relatório da Anistia Internacional afirmando que a Índia (a Índia! a pátria de Gandhi), realizou recentemente 2.596 remessas de armas para Israel. A pergunta é: se dependesse de você, faria com que a mesma quantidade de armas fosse entregue aos palestinos em Gaza e na Cisjordânia? Ou você os deixaria como estão hoje, à mercê das Idf e dos colonos? Você poderia argumentar que concordar com o fornecimento dessas armas, na verdade, pioraria a situação, uma vez que as Idf continuam sendo mais fortes.

Então, pergunto a você: se dependesse de você estabelecer uma paridade de poderio militar entre Israel e a Palestina, você o faria? Ou recusaria, deixando as coisas como estão, com os palestinos prestes a serem completamente despojados de suas terras? Eu forneceria armas aos palestinos, tanto para se defenderem no imediato quanto para alcançar o verdadeiro objetivo da política: a paz.

Afinal, a paz nem sempre é alcançada por meios pacíficos; e o sentar-se à mesa de negociações a partir de uma posição de igualdade de forças é muito diferente de fazê-lo a partir de uma posição de impotência. A paz é o objetivo, mas nem sempre pode ser também o meio. A diferença entre o pacifismo (a opção 2 do meu esquema) e a minha própria visão (a opção 3) reside em não insistir que a paz deva ser sempre o meio utilizado para alcançar a paz. Embora isso seja altamente desejável, infelizmente, nem sempre corresponde à realidade. É por isso que critiquei a ideia do Papa de uma "paz desarmada".

Você conclui invocando o Livro do Apocalipse; eu deixaria de lado esse texto tão violento e vingativo (é inacreditável que o Novo Testamento termine com um livro assim!), e, em vez disso, citaria o Bhagavad Gita, o texto mais sagrado do hinduísmo e uma das obras favoritas de Gandhi que a conhecia de cor e que ensina bem a dolorosa necessidade das armas, por vezes, um meio necessário para o único objetivo verdadeiro de nossas vidas que é a paz. A paz que é tanto exterior quanto interior. A primeira escapa, em grande medida, ao nosso controle, ao passo que a segunda não; podemos alcançá-la aqui e agora, inclusive debatendo entre nós.

Vito Mancuso

Concordo com você que é vital para a paz também o debate racional e civilizado, e é por isso que estou aqui. Um esclarecimento importante: não foi a você, caro Vito, que atribuí a "satisfação ostensiva" dirigida às "belas almas"! Essa atribuição, acompanhada por citações, referia-se a recentes intervenções de alguns intelectuais famosos - a escolha editorial de omitir seus nomes, considerando que a resposta era endereçada a você, neste caso não favoreceu um maior esclarecimento.

Por que, então, os mencionei? Precisamente para ilustrar a "quietude cardinalícia" que atribuo a você! A ofensiva de "pena em punho" lançada por tantos "realistas" na grande mídia faz parte - uma pequena parte, certamente - da destruição em curso da ordem internacional e, sobretudo, de seu núcleo ideal (que jamais foi plenamente implementado): o direito internacional vigente. Vigente em vão, infelizmente, embora, em parte, por nossa culpa. Culpa de cidadãos dos Estados representados na ONU, para não mencionar a União Europeia.

Esse era o sentido da citação final de Camus, que a paz que desejamos não deve ser mais apenas uma prece, mas "uma ordem que deve subir dos povos para seus governantes, a ordem de escolher, de uma vez por todas, entre o inferno e a razão". Somos todos excessivamente tranquilos, como se não compreendêssemos que a maquinaria do mal já opera a todo vapor, exigindo apenas mais combustível, mais armas, para derramar mais sangue. É isso: a sua serenidade ontológica, diríamos espinosiana, não parece levar em conta as enormes mudanças que levaram Bobbio a declarar a doutrina da "guerra justa", inclusive a guerra de defesa, totalmente inválida.

Foi um dos maiores e mais subestimados estadistas do século passado, Gorbachev, cuja iniciativa preliminar de desarmamento unilateral abriu caminho para importantes tratados de desarmamento nuclear de 1987, tratados que estão sendo atualmente desmantelados.

E, finalmente, chego à sua pergunta, pois minha resposta é única e inequívoca: NÃO. Eu não forneceria armas aos palestinos, nem poucas nem muitas, embora o direito internacional considere legítima a resistência armada contra uma ocupação ilegal, desde que a violência não seja dirigida a civis. Não, porque a maquinaria do mal já opera a todo vapor; porque o único caminho para a paz é um processo de cura lento, muito lento, de justiça restaurativa, porque a única urgência absoluta é que seja desarmado o governo dos ocupantes israelenses, inclusive mediante a interrupção do fornecimento por nossa parte (seus aliados); e a única solução sustentável, a meu ver, é que direitos iguais e proteção igual, (realmente iguais) prevaleçam "do rio ao mar" para todos, palestinos sob ocupação, palestinos israelenses e judeus israelenses, independentemente da estrutura estatal (federal ou outra) que possa tornar isso possível. E obrigada por concordar com esta troca de ideias, "em amizade e em paz".

Roberta De Monticelli.

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