A ferida aberta na TI Cerrito, dos Guarani Nhandeva: um grito por justiça e preservação

Foto: Agência Câmara dos Deputados

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29 Julho 2026

Quase uma década depois do rompimento de uma barragem no Mato Grosso do Sul, a luta por justiça e reparação ambiental segue em aberto. O artigo é do Conselho Indigenista Missionário, 29-07-2026.

Eis o artigo.

Este artigo é um convite à reflexão sobre os impactos de um desastre ambiental que assola a Terra Indígena Cerrito, em Eldorado, Mato Grosso do Sul. Por meio de relatos de seus moradores e de pesquisas, revelam-se as cicatrizes deixadas pela expansão agrícola descontrolada e pela negligência industrial em um território tradicional do povo Guarani Nhandeva. A história da TI Cerrito reflete as lutas enfrentadas por comunidades tradicionais no Brasil, onde interesses econômicos se sobrepõem à vida, à cultura e ao meio ambiente.

O ponto central da tragédia remonta ao final de 2016, quando uma barragem da Usina Rio Paraná se rompeu, liberando uma torrente de destruição sobre o córrego Duarte-Kuê, veia vital da TI Cerrito. A estrutura, com aproximadamente 80 metros de extensão, estava localizada na nascente do curso d’água, em área da Fazenda Santa Odila, sob responsabilidade da usina.

Moradores como Valmir Diquelme Martins, Adonir Lopes e Elmo Benites descrevem com dor a metamorfose de um paraíso. Onde antes havia rios repletos de peixes e matas exuberantes, fontes de alimento e vida, hoje se estendem vastas monoculturas de cana-de-açúcar e soja. O rompimento provocou processos erosivos gigantescos, assoreamento do leito do córrego, destruição da vegetação ciliar e mortandade massiva de peixes. A água, antes cristalina e abundante, tornou-se imprópria para consumo e pesca, comprometendo a segurança alimentar e as tradições da comunidade.

Apesar de a usina possuir licença ambiental para construção do canteiro de obras da destilaria, deixou de adotar medidas de conservação do solo nas áreas de cultivo de cana-de-açúcar, o que contribuiu para o rompimento e para a formação dos processos erosivos.

A contaminação por agrotóxicos

A ferida da TI Cerrito não se limita ao rompimento da barragem. A comunidade enfrenta uma batalha diária contra a poluição crônica provocada pelo uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras que cercam o território. Essas substâncias contaminam nascentes e rios, especialmente durante as chuvas, impedindo o uso da água e perpetuando a destruição da vida aquática.

A região de Mato Grosso do Sul enfrenta forte pressão da monocultura da soja e da cana-de-açúcar, atividades que utilizam agrotóxicos em larga escala e prejudicam as terras tradicionalmente ocupadas pelos Guarani.

Diante da devastação, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) encaminhou denúncia ao Ministério Público Federal (MPF). Técnicos do Ibama e do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) realizaram vistorias em janeiro de 2017 e confirmaram os danos ambientais.

A resposta veio com uma autuação do Ibama à Usina Rio Paraná, no valor de R$ 22.555, com base na Instrução Normativa nº 10/2012, considerando a gravidade do dano ambiental. A empresa foi notificada a reparar os danos nas propriedades rurais impactadas e na TI Cerrito.

O processo judicial contra a usina, em trâmite no MPF, tem sido marcado por tentativas de conciliação extrajudicial que não avançaram. Após reuniões com a comunidade para levantar suas necessidades, o MPF informou que será agendada uma audiência judicial. A expectativa é que, com a presença de um juiz, a empresa seja compelida a assumir sua responsabilidade e firmar um acordo que traga reparação à comunidade.

O território e o povo Guarani Nhandeva

A TI Cerrito, com 1.964 hectares, é habitada pelo povo Guarani Nhandeva, também conhecido como Guarani Ñandeva. A área está regularizada: foi declarada em 1991 e homologada em 1992. Segundo dados de 2014, cerca de 586 pessoas vivem no território.

A luta dos Guarani por seus territórios em Mato Grosso do Sul é histórica. Os territórios foram esbulhados ao longo do tempo, e a pressão do agronegócio persiste, com ataques a indígenas na região registrados há mais de uma década.

As lideranças da comunidade, como Elmo Benites, clamam pela preservação do que resta, reconhecendo a natureza como pilar de sua saúde, medicina tradicional e artesanato, legado vital para as futuras gerações. Embora o desfecho do processo judicial e a recuperação ambiental da Terra Indígena Cerrito ainda sejam incertos, a urgência da responsabilidade corporativa e da proteção dos direitos indígenas é inegável.

Este caso não trata apenas de uma multa ou um acordo, mas da dignidade de um povo, da saúde de um ecossistema e do futuro de um planeta que clama por respeito. Acompanhar a situação da TI Cerrito, compartilhar esta história e apoiar iniciativas que buscam justiça e preservação são atitudes necessárias. A indiferença é a maior aliada da destruição. Que a história da TI Cerrito seja um catalisador para a mudança.

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