23 Julho 2026
"O fato de essas afirmações de fé não serem universalmente compartilhadas levanta dúvidas sobre se podem ser efetivamente chamadas de dogmas. Além disso, impor um princípio específico de uma denominação como elemento essencial de toda a fé cristã representa um sério obstáculo ao caminho ecumênico e à unidade da Igreja", escreve Luca Baratto, pastor valdense, em artigo publicado por Riforma, 24-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Caros e caras ouvintes, há perguntas e curiosidades sobre o protestantismo que periodicamente reaparecem nas conversas, nos e-mails recebidos pela nossa redação e nos telefonemas. Uma dessas perguntas recorrentes é: "Caro Pastor, também os protestantes têm dogmas, reconhecem os dogmas?"
Tenho certeza de que muitas pessoas responderiam "não": os protestantes não têm dogmas. Isso provavelmente se deve ao fato de ainda existir o preconceito— infelizmente alimentado por alguns protestantes — de que o protestantismo é uma religião individualista, onde qualquer pessoa pode questionar qualquer coisa e interpretar a fé arbitrariamente. Não é assim. Os protestantes possuem e reconhecem dogmas.
No entanto, devemos primeiro chegar a um acordo sobre o que se entende por "dogma". Dogmas são todas aquelas verdades de fé que representam a essência do cristianismo e constituem patrimônio comum de todos os cristãos. A Trindade — no ano passado, comemoramos o 1.700º aniversário do Concílio de Niceia, que se pronunciou sobre a Trindade —, mas também a Encarnação, a obra de Cristo, o Deus Criador, a salvação da humanidade e o Juízo, são artigos de fé comuns a todas as igrejas cristãs. Não pertencem ao protestantismo, ao catolicismo ou à ortodoxia: pertencem ao cristianismo. Quando se fala que o que une os cristãos é maior do que os divide, é uma verdade. O nosso patrimônio comum, definido durante os primeiros séculos do cristianismo, é imenso e nos permite recitar o Credo juntos com absoluta sinceridade. Os Reformadores do século XVI tinham plena consciência disso. Quando os protestantes alemães apresentaram a sua confissão de fé — a Confissão de Augsburgo — ao Imperador Carlos V, em 1530, submeteram um texto que começava por enumerar todas as verdades cristãs fundamentais; somente na segunda parte passava a explicar os princípios específicos do protestantismo.
Dito isso, pode-se acrescentar que os protestantes não possuem dogmas próprios. Essa não é uma afirmação trivial, pois outras igrejas, ao longo da história, optaram por proclamar dogmas que não são reconhecidos por todos os cristãos. A Igreja Católica, por exemplo, fez isso durante o pontificado de Pio IX com a definição da infalibilidade papal e da Imaculada Conceição de Maria.
Trata-se de duas afirmações de fé que, embora coerentes com a doutrina católica, são indigestas — aliás, inaceitáveis — para o restante do cristianismo, ou pelo menos para uma parcela substancial e significativa dele.
O fato de essas afirmações de fé não serem universalmente compartilhadas levanta dúvidas sobre se podem ser efetivamente chamadas de dogmas. Além disso, impor um princípio específico de uma denominação como elemento essencial de toda a fé cristã representa um sério obstáculo ao caminho ecumênico e à unidade da Igreja.
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