Big Oil conhecia impactos climáticos do gás fóssil, mas o promoveu como “limpo”

Foto: Cylonphoto/ iStock

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21 Julho 2026

Relatório revela que a indústria petrolífera já sabia desde meados da década de 1960 que o gás fóssil alimentava as mudanças climáticas.

A informação é publicada por ClimaInfo, 20-07-2026.

Nos últimos 50 anos, os estadunidenses foram levados a acreditar que o metano de origem fóssil era “limpo”, uma opção energética amigável ao clima para aquecer casas e cozinhar. O gás fóssil chegou a ser defendido como combustível de transição, uma espécie de “ponte” que levaria a energia do planeta do carvão e do petróleo para as fontes renováveis.

No entanto, destaca o DeSmog, as principais empresas de petróleo e gás que promoveram essa mensagem sabiam há tempos que o gás fóssil era uma das principais fontes de poluição atmosférica e que o combustível contribuía para as mudanças climáticas. É o que revela um relatório do Center for Climate Integrity (CCI) divulgado na 2ª feira (20/7).

O relatório “The fraud of ‘clean’ natural gas: how Big Oil and Gas created the myth that natural gas is a climate solution” mostra uma campanha de relações públicas de décadas, conduzida por petrolíferas, para reformular a imagem do gás fóssil como “energia limpa”. No entanto, desde a década de 1960, essas empresas sabiam que as emissões de metano do gás traziam riscos climáticos.

O relatório inclui evidências de que a indústria do gás foi alertada sobre problemas de poluição por metano já em 1968, muito antes do que se relatava, destaca o CCI. Por meio de uma revisão encomendada pelo Instituto Americano de Petróleo (API, sigla em Inglês), Shell e outras petrolíferas foram informadas de que o metano na atmosfera estava relacionado a “campos de petróleo” e “vazamentos no sistema de distribuição de gás”, e que os sumidouros ambientais naturais poderiam ser “sobrecarregados por emissões excessivas”, relata o CCI.

Temendo perder clientes em um período de crescente conscientização ambiental, a indústria do gás adotou, em 1971, uma campanha de relações públicas intitulada “Gás, energia limpa para hoje e amanhã”, mostra o CCI. Para reforçar a ideia de gás “limpo”, veículos de comunicação da indústria deturparam e minimizaram os riscos do metano.

Foi só o início da propaganda massiva promovida pelo Big Oil, que escondia os impactos climáticos do gás fóssil. A Associação Americana de Gás (AGA, sigla em Inglês) apresentou informações distorcidas sobre os perigos do metano ao público e minimizou o papel da indústria no problema por meio de uma série de comunicados de imprensa, discursos e artigos recentemente descobertos, citando seletivamente cientistas em um artigo de 1990 que declarava: “Estudos sugerem que o metano não é um importante gás de efeito estufa”.

Em 1996, a indústria do gás cofinanciou e influenciou os resultados de um estudo sem precedentes sobre metano, realizado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, sigla em Inglês). O estudo foi utilizado pela indústria do gás para mitigar as preocupações com as emissões de metano.

Na época, funcionários da EPA escreveram que “simplesmente não temos a expertise” para revisar os dados de forma independente e que era “improvável encontrarmos problemas, mesmo que existissem”. “[M]etano: sem desvantagens”, afirmou uma revista do setor, publicada pelo Gas Research Institute em 1996, ao promover o mesmo estudo, declarando que o aumento do uso de gás poderia, na verdade, reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

“Esta investigação retrocede em décadas o cronograma do que a indústria sabia”, disse Rebecca Leber, coautora do relatório. Para ela, o levantamento preenche lacunas sobre como a indústria “distorceu os riscos e os impactos do metano proveniente de suas operações ao longo de anos”.

As artimanhas da indústria para esconder os danos climáticos e ambientais causados pelos combustíveis fósseis são amplas. Em maio de 2024, um relatório de parlamentares do Partido Democrata no Congresso dos EUA revelou que as principais empresas de combustíveis fósseis do país reconheceram, de forma privada, que sabiam dos perigos decorrentes do consumo de seus produtos para o clima da Terra.

ExxonMobil, Shell, BP e Chevron repassaram aos congressistas documentos e comunicações internas que cobriram um período de mais de 50 anos, entre o final da década de 1960 e 2020. Os documentos mostram como essas empresas tinham conhecimento da relação entre a queima de combustíveis fósseis e alterações nos padrões climáticos globais desde muito antes do tema virar uma preocupação pública.

Recentemente, uma investigação da ProPublica e Drilled revelou que empresas de combustíveis fósseis financiam pesquisas climáticas em universidades de prestígio dos EUA há mais de 30 anos em defesa de tecnologias de captura e estocagem de carbono (CCS), uma aposta da indústria para continuar queimando petróleo e gás.

A bp, por exemplo, patrocinou um centro de pesquisa de elite na Universidade de Princeton, selecionando a dedo cientistas alinhados aos seus interesses que, há 22 anos, publicaram um artigo sobre o clima, conhecido como “Wedges”. Esses cientistas coordenaram-se com executivos da petrolífera e mostraram-lhes várias versões do documento. E descreveram o CCS como comprovado e em uso em escala industrial – uma caracterização que distorceu os fatos.

Em tempo

A Comissão Europeia instruiu os governos da UE a suspenderem por três anos as penalidades para empresas de petróleo e gás que violarem a lei de emissões de metano após pressão do governo dos EUA para revogar as regras, informam Reuters, Euractiv, Bloomberg e Investing.com. EUA, Catar, grupos da indústria de petróleo e gás e a maioria dos Estados-membros do bloco exigiram alterações na lei nos últimos meses, alertando que ela poderia prejudicar a capacidade da Europa de garantir o abastecimento de combustível, uma vez que, a partir de janeiro de 2027, o gás importado teria de cumprir normas de monitorização de emissões equivalentes às da Europa. A lei foi concebida de forma que as empresas que não a cumprissem pudessem enfrentar multas de até 20% do seu faturamento anual.

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