"A morte de Lázaro é, portanto, interpretada não como uma doença fatal definitiva, mas como uma ocasião para a manifestação da glória do Pai e um prenúncio da ressurreição do próprio Jesus".
O artigo é de Roberto Mela, teólogo e professor da Faculdade Teológica da Sicília, publicado por Settimana News, 12-07-2026.
Franco Manzi, professor titular de Novo Testamento e Hebraico Bíblico na Seção Paralela da Faculdade de Teologia do Norte da Itália, no Seminário de Milão, e também professor em Lugano, investiga a profunda mensagem do capítulo 11 do Evangelho de João em um nível bíblico e teológico.
A ressurreição de Lázaro — que estava morto havia quatro dias — é um sinal significativo para as testemunhas oculares, os leitores e o próprio Jesus. Pessoalmente, prefiro o termo "revivificação" aos termos aceitáveis do autor, como "ressurreição", "reanimação" e "retorno à vida".
Livro "Lazzaro, esci! L'amore è più forte della morte", de Franco Manzi (Ancora, 2026).
Manzi enfatiza a maturação "dramática" de Jesus. Baseando-se nos estudos de Hans Urs von Balthasar, ele observa que toda a sua jornada de crescimento humano (cf. Lucas 2,40, 52) "não se desenrolou de forma linear e progressiva; não se desenrolou ao longo da geometria abstrata de uma linha reta que leva do nada à plenitude, uma ascensão indolor rumo à perfeição. Na realidade — observa o autor — assim como acontece com todo ser humano, o crescimento humano do Nazareno também ocorreu por meio de um encontro íntimo com o tempo e o entrelaçamento histórico das várias liberdades envolvidas em sua existência concreta: em primeiro lugar, sua própria liberdade singularmente filial; mas também a liberdade incondicionalmente amorosa do Pai, que interagiu com ele por meio do Espírito; e, finalmente, a liberdade — crente ou não crente — daqueles que cruzaram seu caminho terreno" (p. 19).
Começando por analisar o cristão, Manzi examina o testemunho fiel do evangelista e a tradição que o sustenta. Seu olhar sobre Cristo, por outro lado, atesta a autoconsciência de Jesus, conforme testemunhada e registrada por escrito.
A ressurreição de Lázaro é um sinal tanto para crentes quanto para não crentes. É um sinal para as testemunhas oculares presentes no evento e um sinal para os leitores cristãos de hoje, que leem este testemunho, o qual ressoa vividamente na leitura pessoal e ainda mais na leitura litúrgica prescrita no Rito Ambrosiano para o Quarto Domingo da Quaresma.
O sétimo sinal realizado por Jesus e atestado no Evangelho de João tende a inspirar no leitor uma conversão da morte infligida pelo pecado para a nova vida filial encorajada pelo rito sacramental que renova o evento do batismo.
João 11 é um sinal para as testemunhas oculares, tanto para as que creem como Marta e Maria, quanto para as que negam as evidências como os fariseus e escribas.
A novidade trazida por Jesus é a ressurreição/revigoramento que é possível agora, e não apenas no fim do mundo, como acreditava o judaísmo na época. Aqueles que creem em Jesus, mesmo que morram, viverão e não permanecerão nas trevas. Aqueles que não creem têm sua cegueira voluntária, um autoencanecimento, confirmada.
Trata-se de escolher entre a "resistência" incrédula (Widergebung) e a "rendição" convicta (Ergebung). Quem crê, vê; quem não crê, não vê.
João 11 é também um sinal para os leitores cristãos, chamados à conversão, à passagem da morte para a vida, especialmente nas celebrações litúrgicas e sacramentais. Aqueles que creem têm vida em nome de Jesus. O leitor do Evangelho de João pode, portanto, compreender melhor o significado salvífico universal da ressurreição de Jesus (cf. João 20,9).
A doença fatal de Lázaro não o levará à morte, pois sua ressurreição manifestará a glória de Jesus e do Pai e ajudará a inspirar a fé daqueles que, presentes e futuros, lerem o testemunho atestado no Evangelho.
A ressurreição de Lázaro não é apenas um sinal antropológico, mas também cristológico, o que – segundo Manzi – é pouco enfatizado. Muitos sinais terminológicos conectam João 11 aos capítulos 13, 17 e 19 do Evangelho.
A ressurreição de Lázaro também é um sinal para Jesus.
A morte de Lázaro é um sinal da morte de Jesus.
Jesus enfrenta o apedrejamento na Judeia para realizar o sétimo sinal de sua vida dramática. Muitas pistas literárias destacam a consciência que Jesus tinha da profunda conexão entre a morte de seu amigo e a sua própria. A profunda angústia que Jesus sentiu em Betânia diante do túmulo, suas lágrimas, seu choro e os panos mortuários são todos lembretes que conectam as duas mortes.
A morte de Lázaro é um prenúncio da morte de Jesus, mas sua revivificação/ " ressurreição " é um sinal da ressurreição que é Jesus.
O Pai, de fato, concedeu ao Filho ter vida em si mesmo, para que ele a desse aos que creem nele.
A "hora" que aguarda Jesus é a hora da glorificação do Filho e também do Pai. A "ressurreição" de Lázaro (para usar a terminologia de Manzi) é um prenúncio da ressurreição de Jesus. Evidentemente, esta última não será um retorno temporário à vida como para seu amigo Lázaro, mas uma entrada definitiva na vida como o Filho ressuscitado de Deus, entrando na glória do Pai.
No episódio de Lázaro e ao longo do Evangelho de João, Jesus demonstra uma particular consciência filial e uma receptividade ativa especialmente sensível.
Isso é demonstrado pela oração de resposta oferecida por Jesus. O fato de ele erguer os olhos para o céu conecta o sinal que está prestes a realizar em João 11 ao da multiplicação dos pães em João 6.
Jesus sabe que o Pai colocou tudo em suas mãos e, por isso, vive em constante gratidão, mesmo na expectativa do atendimento de suas orações.
Ele tem consciência de que está cumprindo a vontade salvífica universal do Pai por meio de sua vida, paixão, morte e ressurreição. Ao longo de sua vida, Jesus se colocou completamente à disposição do Pai para tudo o que Ele deseja realizar por meio dele.
A consciência filial muito particular e singular de Jesus se manifesta claramente em sua ação de graças antecipada ao Pai, mesmo antes do evento da ressurreição de Lázaro.
A consciência filial de Jesus é o alicerce sólido sobre o qual se fundamenta seu discernimento espiritual a respeito do caminho a seguir, do sofrimento a aceitar, da morte a suportar para alcançar a vida definitiva para si mesmo e para aqueles que creem nele.
Jesus não quer que sua morte seja uma "morte-separação", mas sim uma "morte-comunhão".
A razão da intervenção de Deus Pai que o ressuscitou dos mortos reside na intenção salvífica universal de Jesus, claramente expressa em sua oração ao Pai no Cenáculo (Jo 17), bem como em Jo 11.
Na grande oração de João 17, Jesus expressa sua certeza de que todas as coisas pertencem ao Pai e as coisas do Pai pertencem a Ele. E Ele deseja passar por uma morte vitoriosa para poder conceder o mesmo aos seus discípulos.
Jesus possui, portanto, uma consciência filial muito particular e única, que é o alicerce sólido de seu discernimento espiritual.
A morte de Lázaro é, portanto, interpretada não como uma doença fatal definitiva, mas como uma ocasião para a manifestação da glória do Pai e um prenúncio da ressurreição do próprio Jesus.
Em João 20, na cruz, Jesus sabia que tudo estava consumado para o cumprimento das Escrituras.
A Carta aos Hebreus testemunha que "através de seu completo abandono" (CEI 2008) ao Pai – Manzi traduz "através de sua boa aceitação" (apo tēs eulabeias, de lambanō = tomar) – Jesus se torna o sacerdote perfeito, com a plena realização de sua humanidade e assim tudo se realiza.
Citando também reflexões filosóficas de Charles Péguy, Manzi afirma que «pode-se razoavelmente supor que até mesmo Jesus Cristo, o Logos encarnado (João 1,14), teve uma experiência completa da morte apenas no momento em que morreu (cf. Hebreus 2,9)" (p. 166).
Manzi conclui sua obra recordando que o Evangelho de João revela uma "lógica" da revelação por meio de sinais, diante da qual a liberdade humana se depara com a escolha entre aceitação e rejeição. Essa é a lógica relembrada e atestada em toda a estrutura evangélica desenvolvida por João.
O volume conclui com uma rica bibliografia selecionada (pp. 181-203).
O texto do teólogo e biblista milanês apresenta um raciocínio teológico e bíblico coerente, que interliga os textos de forma eficaz, destacando tanto a narrativa refinada quanto a estrutura teológica do Quarto Evangelho, bem como a estreita conexão entre o sinal da morte e ressurreição de Lázaro e a morte e ressurreição de Jesus. Um sinal para as testemunhas oculares, para os leitores de todos os tempos e para o próprio Jesus.
A linguagem é acessível, clara, coerente e rica em conteúdo didático. O aspecto cristológico de João 11, particularmente destacado pelo autor, parece-me ser a contribuição mais significativa em comparação com a de outros estudiosos.