04 Julho 2026
Agora que a ciência dispõe de mais ferramentas do que nunca para combater a malária, uma das doenças infecciosas mais mortais do mundo e responsável por 600 mil mortes anualmente, "este não é o momento de reduzir o apoio aos países", afirma o médico ruandês Daniel Ngamije, diretor dos programas de malária e doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ex-ministro da Saúde de Ruanda entre 2020 e 2022, Ngamije, que participou recentemente da Conferência Global de Saúde organizada pela Fundação Mundo Sano em Madri, alerta para os impactos dos cortes na ajuda oficial ao desenvolvimento, especialmente após o fechamento da USAID, a agência americana que durante décadas foi uma das principais financiadoras da saúde global. Esses cortes, lamenta ele, ocorrem em um momento particularmente crítico para uma doença que continua a afetar desproporcionalmente crianças menores de cinco anos e mulheres grávidas na África Subsaariana. "Se os países não conseguirem manter a cobertura de intervenções essenciais para prevenir, diagnosticar e tratar a malária, haverá mais casos e mais mortes", argumenta.
A entrevista é de Patrícia R. Blanco, publicada por El País, 02-07-2026.
Confira a entrevista
Os cortes na ajuda internacional estão afetando os programas de saúde em muitos países. Que impacto isso está tendo na luta contra a malária?
Estão afetando drasticamente nossa capacidade de apoiar os países e a capacidade dos próprios Estados de responderem adequadamente à malária. Mesmo antes dos cortes recentes, os programas já estavam subfinanciados.
De que magnitude estamos falando?
Nos últimos anos, menos de 50% das necessidades globais de combate à malária foram atendidas. Os países afetados necessitam de aproximadamente US$ 8,5 bilhões (€ 7,407 bilhões) anualmente, mas os recursos mobilizados atingiram apenas cerca de 40% desse valor. Além disso, dois terços do financiamento vieram de ajuda externa e um terço dos próprios países. Os Estados Unidos foram um contribuinte muito importante para esse financiamento internacional. Com as reposições do Fundo Global e da Gavi (Aliança de Vacinas) ficando aquém das expectativas, alguns países receberão entre 10% e 30% menos financiamento do que no ciclo anterior.
O que essa redução significa na prática?
A principal preocupação é que os países não consigam manter a cobertura das intervenções de prevenção, diagnóstico e tratamento. Se essa cobertura diminuir, os casos e as mortes aumentarão. Em 2024, registramos 282 milhões de casos e mais de 600 mil mortes, principalmente entre crianças menores de cinco anos e gestantes na África — um leve aumento em comparação com 2023. Dez países respondem por mais de 70% da carga global: Nigéria, República Democrática do Congo, Uganda, Etiópia, Moçambique, Tanzânia, Mali, Níger, Costa do Marfim e Burkina Faso.
Os dados de 2025 poderiam ser ainda piores?
Ainda não temos esses números, pois serão publicados ainda este ano, mas o crescimento populacional, os eventos climáticos extremos e o deslocamento causado pela insegurança significam que mais pessoas estão expostas a picadas de mosquito que transmitem a doença. Podemos observar números semelhantes ou até mesmo ligeiramente maiores.
O mundo corre o risco de perder parte do progresso alcançado nas últimas décadas?
Se os países não conseguirem manter a cobertura das intervenções essenciais para prevenir, diagnosticar e tratar a malária, haverá mais casos e mais mortes. Há motivos para preocupação. O maior progresso foi alcançado entre 2000 e 2015. No entanto, entre 2015 e 2024, observamos uma estagnação na redução de casos e mortes. Os motivos são múltiplos: ameaças biológicas, como a resistência a inseticidas e a alguns tratamentos antimaláricos, financiamento insuficiente, sistemas de saúde frágeis e mudanças climáticas. Apesar de tudo isso, há boas notícias.
Que boas notícias são essas?
Temos novas ferramentas à nossa disposição. Mosquiteiros tratados com inseticida de nova geração, incluindo modelos com dupla ação, estão sendo distribuídos. Também temos novos tratamentos para combater a resistência do parasita. Além disso, há medicamentos não derivados da artemisinina em desenvolvimento, ao contrário da artemisinina, que vem sendo utilizada há mais de 20 anos em alguns países. Isso significa que poderemos ter novas opções terapêuticas nos próximos anos. Também estamos vendo alguns países endêmicos aumentarem seus orçamentos nacionais para o combate à malária. Eles entendem que, se quiserem manter a cobertura atual, precisam aumentar suas contribuições.
As vacinas têm sido um dos mais recentes avanços importantes na luta contra a malária. Que resultados vocês estão observando?
A vacina demonstrou um impacto significativo. Atualmente, é utilizada em 25 países. Entre as crianças vacinadas, observou-se uma redução de 13% na mortalidade infantil em comparação com aquelas que receberam apenas as intervenções convencionais. Também foi registrada uma diminuição de até 22% nas internações hospitalares. Mas essa é apenas uma ferramenta dentro de um conjunto de intervenções que inclui mosquiteiros tratados com inseticida, quimioprevenção, diagnóstico e tratamento. Além disso, esperamos que os custos diminuam nos próximos anos, o que facilitará sua adoção por mais países. Portanto, se novas ferramentas não chegarem a quem precisa delas devido à falta de financiamento, também corremos o risco de desestimular a pesquisa. Esperamos mais de 50 anos por vacinas contra a malária e agora temos duas.
Em um momento de múltiplas crises, que mensagem você tem para governos e doadores para incentivá-los a continuar apoiando o combate à malária?
O impacto global da malária continua enorme. Tem consequências muito significativas em termos de mortalidade e morbidade, mas também em termos de produtividade. Considere uma família com cinco ou seis filhos, onde cada criança pode sofrer, em média, dois episódios de malária por ano: a família enfrentará custos diretos com saúde, o que, em muitos casos, leva ao empobrecimento. Além disso, as crianças são obrigadas a faltar à escola. Ademais, quando a malária não é controlada, os sistemas de saúde ficam sobrecarregados.
Por quê?
Porque em muitos países, entre 60% e 70% das consultas são para febre, um dos principais sintomas da malária. Se os profissionais de saúde dedicam a maior parte do seu tempo ao tratamento desses casos, têm menos capacidade para tratar outras doenças. Portanto, continuar investindo na malária também fortalece os sistemas de saúde, mas o retorno vai muito além disso: tem efeitos na educação, na produtividade e no desenvolvimento econômico. Este não é o momento de reduzir o apoio aos países.
Você também chefia o programa de doenças tropicais negligenciadas. Apesar dos progressos, ele ainda faz jus ao seu nome?
Fizemos progressos significativos. Cada vez mais países estão priorizando essas doenças e aumentando seus investimentos. Também temos um roteiro muito claro e um crescente comprometimento político. Mas ainda existe uma lacuna significativa de financiamento. Não vamos mudar o nome delas. Elas continuarão sendo chamadas de doenças tropicais negligenciadas até vencermos essa batalha.
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