América Latina em disputa: a nova onda da extrema-direita e os desafios da soberania. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 20 Junho 2026

A ascensão da extrema-direita na América Latina e o fim da nova Onda Rosa. Como a Colômbia pode apontar caminhos para o continente? Argentina, Equador, Peru: a promessa de ordem, segurança e liberdade econômica conecta a ideologia liberal. 

Haiti e Venezuela: duas crises humanitárias que parecem sem saída. O Brasil e a luta pela soberania nacional frente aos Estados Unidos. Como a defesa dos territórios pode mobilizar o enfrentamento à extrema-direita latinoamericana?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Eleições na Colômbia e o fim da nova Onda Rosa

No início dos anos 2000, a América Latina passou por um fenômeno sociopolítico que ficou conhecido como “Onda Rosa”. O termo surgiu durante a eleição de Tabaré Vásquez no Uruguai, para indicar a ascensão dos ideais social-democratas nos países da região. Quase 10 anos atrás, uma nova “Onda Rosa” surgiu no continente latino-americano, quando grande parte das nações tiveram uma guinada à esquerda: México, Argentina, Bolívia, Peru, Honduras, Chile e Colômbia.

A Colômbia se encontra a poucos dias de decidir quem vai vencer o segundo turno e se eleger presidente. A disputa ficou entre o candidato da esquerda, Ivan Cepeda, que busca dar continuidade ao legado de Gustavo Petro, e o candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella.

Petro foi o primeiro presidente de esquerda em décadas na Colômbia, surgindo com a promessa de representar o povo contra a oligarquia. As avaliações indicavam o prosseguimento do seu projeto, mas a realidade foi outra: Abelardo de la Espriella venceu o primeiro turno com 43,7% dos votos, enquanto Cepeda ficou a menos de três pontos percentuais atrás, com 40,9%.

Venezuela, Peru e Argentina

E outra onda varre a América Latina. Da Argentina ao Peru, do Equador à Venezuela ocupada, governos de extrema direita redesenham o continente, com promessas de ordem, segurança e liberdade econômica. O que está sendo entregue no entanto, é outra coisa.

No Peru, com 99,3% das urnas apuradas, Keiko Fujimori lidera a corrida presidencial com 50,1% dos votos. Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou com anticomunismo feroz, ações antiterroristas violentas e desrespeito sistemático às instituições. Keiko carrega um sobrenome que o Peru nunca conseguiu enterrar.

Na Argentina, o caminho já foi escolhido. Javier Milei governa há dois anos e meio, e o salário mínimo perdeu 38% do poder de compra nesse período. Um estudo da Universidade de Buenos Aires mostra que o valor de referência equivale hoje a menos de um quarto da cesta básica para uma família. Em 15 anos, o salário mínimo argentino perdeu dois terços do seu valor real.

No Equador, o experimento é outro, mas a lógica é a mesma. O presidente Daniel Noboa importou o modelo de segurança de Nayib Bukele, de El Salvador: militares nas ruas, prisões de segurança máxima com presos ajoelhados e cabeças raspadas, estado de conflito armado interno decretado pela primeira vez na história do país. O resultado? O Equador registrou 9.268 homicídios no ano passado — o maior número de sua história. A violência não foi contida. Ela aumentou.

Crises humanitárias: o caso emblemático do Haiti

Na terça-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, visitou o Haiti e foi direto: disse que o mundo não tem o direito de desviar o olhar da crise humanitária no país caribenho. Ele classificou a crise haitiana como a mais grave em curso no Hemisfério Ocidental e a que piora mais rapidamente.

Desde o início de 2026, a violência de gangues fez mais de 2,3 mil mortos e 1,1 mil feridos no país. As gangues controlam bairros inteiros da capital Porto Príncipe, dominam cadeiras de suprimentos, extorquem rotas comerciais e de transporte humanitário, e são mais bem armadas que as próprias forças de segurança do Estado.

As eleições brasileiras e a interferência dos EUA

As interferências de Trump também causam preocupações no cenário eleitoral brasileiro. No final de maio, os Estados Unidos anunciaram a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida, anunciada um dia depois de Flávio Bolsonaro se reunir com o secretário de Estado Marco Rubio em Washington, gerou reações imediatas no Brasil.

Para o especialista em segurança Robert Muggah, o impacto mais direto pode não ser sobre as facções, mas sobre a economia brasileira. Empresas brasileiras podem virar dano colateral de uma estratégia que tem muito mais a ver com disputa eleitoral do que com segurança pública.

“Para a direita brasileira isso é visto como uma vitória política, pelo menos por enquanto. Isso permite dizer que os Estados Unidos estão sendo mais duros contra o PCC e o Comando Vermelho do que o governo Lula.", avalia Muggah.

Chaves de enfrentamento para sair do imperialismo

A ascensão da extrema direita na América Latina pode ser vista como uma tentativa de manter o poder na mão de poucos: bilionários, oligarcas, tech bros, fascistas e outros “produtos” do capitalismo tardio.

 Essa grande máquina opera de todas as formas e por todos os lados, nos forçando a acreditar que apenas um único caminho é possível. Enquanto vemos guerras sem sentido, políticas arbitrárias e o crescimento dos mais ricos, a população cresce apática, incrédula de mudanças.

O acadêmico e dirigente do Partido dos Trabalhadores, Valter Pomar, acredita que a esquerda precisa voltar a ter contato com as bases, se radicalizar, para que seja possível sair dessa onda da extrema-direita.

“O crescimento da extrema-direita decorre, em primeiro, segundo e terceiro lugar, do esforço que os capitalistas fazem para manter o poder em uma situação de crise. Em quarto lugar, o crescimento da extrema-direita decorre da acomodação de uma parte da esquerda, aquela que não percebe que, em tempos de crise e guerra, é preciso mudar a chave, é preciso radicalizar. Onde a esquerda não faz isso, a extrema-direita tem mais facilidade para conquistar o apoio de setores populares”.

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