A ascensão da extrema-direita na América Latina e o fim da nova Onda Rosa. Como a Colômbia pode apontar caminhos para o continente? Argentina, Equador, Peru: a promessa de ordem, segurança e liberdade econômica conecta a ideologia liberal.
Haiti e Venezuela: duas crises humanitárias que parecem sem saída. O Brasil e a luta pela soberania nacional frente aos Estados Unidos. Como a defesa dos territórios pode mobilizar o enfrentamento à extrema-direita latinoamericana?
Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.
No início dos anos 2000, a América Latina passou por um fenômeno sociopolítico que ficou conhecido como “Onda Rosa”. O termo surgiu durante a eleição de Tabaré Vásquez no Uruguai, para indicar a ascensão dos ideais social-democratas nos países da região. Quase 10 anos atrás, uma nova “Onda Rosa” surgiu no continente latino-americano, quando grande parte das nações tiveram uma guinada à esquerda: México, Argentina, Bolívia, Peru, Honduras, Chile e Colômbia.
A Colômbia se encontra a poucos dias de decidir quem vai vencer o segundo turno e se eleger presidente. A disputa ficou entre o candidato da esquerda, Ivan Cepeda, que busca dar continuidade ao legado de Gustavo Petro, e o candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella.
Petro foi o primeiro presidente de esquerda em décadas na Colômbia, surgindo com a promessa de representar o povo contra a oligarquia. As avaliações indicavam o prosseguimento do seu projeto, mas a realidade foi outra: Abelardo de la Espriella venceu o primeiro turno com 43,7% dos votos, enquanto Cepeda ficou a menos de três pontos percentuais atrás, com 40,9%.
E outra onda varre a América Latina. Da Argentina ao Peru, do Equador à Venezuela ocupada, governos de extrema direita redesenham o continente, com promessas de ordem, segurança e liberdade econômica. O que está sendo entregue no entanto, é outra coisa.
No Peru, com 99,3% das urnas apuradas, Keiko Fujimori lidera a corrida presidencial com 50,1% dos votos. Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou com anticomunismo feroz, ações antiterroristas violentas e desrespeito sistemático às instituições. Keiko carrega um sobrenome que o Peru nunca conseguiu enterrar.
Na Argentina, o caminho já foi escolhido. Javier Milei governa há dois anos e meio, e o salário mínimo perdeu 38% do poder de compra nesse período. Um estudo da Universidade de Buenos Aires mostra que o valor de referência equivale hoje a menos de um quarto da cesta básica para uma família. Em 15 anos, o salário mínimo argentino perdeu dois terços do seu valor real.
No Equador, o experimento é outro, mas a lógica é a mesma. O presidente Daniel Noboa importou o modelo de segurança de Nayib Bukele, de El Salvador: militares nas ruas, prisões de segurança máxima com presos ajoelhados e cabeças raspadas, estado de conflito armado interno decretado pela primeira vez na história do país. O resultado? O Equador registrou 9.268 homicídios no ano passado — o maior número de sua história. A violência não foi contida. Ela aumentou.
Na terça-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, visitou o Haiti e foi direto: disse que o mundo não tem o direito de desviar o olhar da crise humanitária no país caribenho. Ele classificou a crise haitiana como a mais grave em curso no Hemisfério Ocidental e a que piora mais rapidamente.
Desde o início de 2026, a violência de gangues fez mais de 2,3 mil mortos e 1,1 mil feridos no país. As gangues controlam bairros inteiros da capital Porto Príncipe, dominam cadeiras de suprimentos, extorquem rotas comerciais e de transporte humanitário, e são mais bem armadas que as próprias forças de segurança do Estado.
As interferências de Trump também causam preocupações no cenário eleitoral brasileiro. No final de maio, os Estados Unidos anunciaram a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida, anunciada um dia depois de Flávio Bolsonaro se reunir com o secretário de Estado Marco Rubio em Washington, gerou reações imediatas no Brasil.
Para o especialista em segurança Robert Muggah, o impacto mais direto pode não ser sobre as facções, mas sobre a economia brasileira. Empresas brasileiras podem virar dano colateral de uma estratégia que tem muito mais a ver com disputa eleitoral do que com segurança pública.
“Para a direita brasileira isso é visto como uma vitória política, pelo menos por enquanto. Isso permite dizer que os Estados Unidos estão sendo mais duros contra o PCC e o Comando Vermelho do que o governo Lula.", avalia Muggah.
A ascensão da extrema direita na América Latina pode ser vista como uma tentativa de manter o poder na mão de poucos: bilionários, oligarcas, tech bros, fascistas e outros “produtos” do capitalismo tardio.
Essa grande máquina opera de todas as formas e por todos os lados, nos forçando a acreditar que apenas um único caminho é possível. Enquanto vemos guerras sem sentido, políticas arbitrárias e o crescimento dos mais ricos, a população cresce apática, incrédula de mudanças.
O acadêmico e dirigente do Partido dos Trabalhadores, Valter Pomar, acredita que a esquerda precisa voltar a ter contato com as bases, se radicalizar, para que seja possível sair dessa onda da extrema-direita.
“O crescimento da extrema-direita decorre, em primeiro, segundo e terceiro lugar, do esforço que os capitalistas fazem para manter o poder em uma situação de crise. Em quarto lugar, o crescimento da extrema-direita decorre da acomodação de uma parte da esquerda, aquela que não percebe que, em tempos de crise e guerra, é preciso mudar a chave, é preciso radicalizar. Onde a esquerda não faz isso, a extrema-direita tem mais facilidade para conquistar o apoio de setores populares”.
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