Papa Leão e os abusos da Igreja espanhola, a raiva das vítimas

Foto: Liana S/Unplash

Mais Lidos

  • “A Igreja não precisa ser maioria para ser o sal da terra”. Entrevista com Margot Käßmann

    LER MAIS
  • IHUCast – El Niño 2026. O Rio Grande do Sul está preparado?

    LER MAIS
  • A Copa do Mundo sequestrada por Donald Trump. Destaques da Semana no IHUCast

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

15 Junho 2026

A tragédia dos migrantes foi o tema abordado pelo Papa Leão nas duas últimas etapas de sua viagem apostólica à Espanha, Las Palmas de Gran Canaria e Tenerife, que terminou na sexta-feira (com o acréscimo de um problema técnico que obrigou o pontífice a desembarcar após subir no avião que o levaria de volta a Roma). Mas não há dúvida de que um dos momentos mais delicados de sua visita ocorreu em Montserrat, o mosteiro beneditino da Catalunha, epicentro dos abusos que abalaram a região e todo o país.

A reportagem é de Marco Grieco, publicada por Domani, 13-06-2026. A Tradução é de Luisa Rabolini.

O efeito dominó, repetidamente documentado pelo El País em uma investigação iniciada em 2019 sobre os acobertamentos perpetrados pelos três abades que antecederam o atual, mudou a opinião pública sobre o tema. Mas hoje, a tolerância zero em relação aos agressores e as regulamentações para conter um sistema de gestão que promove o acobertamento conivente, tenazmente defendidas pelo Papa Francisco, parecem desaparecer com o pontificado de Leão XIV, cuja gestão ainda se mostra incerta. "No seu discurso aos abades de Montserrat, o Papa nunca mencionou explicitamente os abusos", relata ao Domani Miguel Hurtado, o primeiro a denunciar as violências sexuais perpetradas no santuário.

Ele tinha 16 anos quando sofreu abusos do monge Andreu Sole. Hoje, é porta-voz da Reparación Integral Ya (RIYA) e procura trazer à luz uma das páginas mais vergonhosas da Igreja catalã.

Segundo dados recolhidos pelo El País, a Catalunha é a região com o maior número de casos denunciados na Espanha: "Desde 2019, ou seja, desde que explodiu o escândalo de Montserrat, passaram-se sete anos até que a Igreja fizesse a escolha certa. O Papa tem razão quando fala de uma ferida que ainda está aberta, mas temos de admitir que os responsáveis por esses abusos em Montserrat se recusaram a curá-la."

Catalunha, epicentro dos abusos

O primeiro caso a surgir nos últimos anos aconteceu na escola Sants-Les Corts, gerida pelos Irmãos Maristas de Barcelona. No entanto, Leão XIV evitou falar a respeito, apesar do próprio Rei Felipe ter mencionado o tema no seu discurso de boas-vindas, falando da "dor causada pelos casos de abusos".

O pontífice, pelo contrário, priorizou a paz social e a fraternidade, mencionando-os brevemente em seu discurso à Conferência Episcopal Espanhola em 8 de junho: “Nosso caminho é feito de encontros: neles não faltarão aqueles que vivem momentos de escuridão e nos pedem que sejamos samaritanos para eles. Um dos mais dolorosos é o daqueles que foram feridos justamente por quem deveria ter cuidado deles, também por membros do clero. Diante desse flagelo, a comunidade eclesial é chamada a responder com escuta, verdade, justiça, reparação e um empenho cada vez mais determinado com a prevenção e a cultura do cuidado”.

Para Hurtado, trata-se de palavras que refletem a hipocrisia da hierarquia: “O Papa até pode falar de direitos humanos, dignidade humana e proteção dos vulneráveis. Mas quando se exclui um ressarcimento e um caminho para a cura, como no meu caso, suas ações vão na direção oposta. E o mesmo acontece com os bispos: falam em proteger os vulneráveis, mas em suas ações prejudicam as crianças e traumatizam novamente aqueles que sobreviveram."

Vítimas cuidadosamente selecionadas

Quando Hurtado soube que Montserrat seria uma etapa em sua viagem apostólica, primeiro enviou uma carta à Secretaria de Estado do Vaticano e depois à Nunciatura Apostólica. Em vão. "Fui pessoalmente à Nunciatura Apostólica, mas bateram a porta na minha cara e chamaram a polícia quando viram que eu tinha um cartaz pedindo reparação. Foi chocante ver a rapidez com que chamaram a polícia, enquanto que, durante os anos em que lhes falei sobre os abusos, nunca fizeram isso".

Em nome de todas as vítimas, Hurtado pede um ressarcimento simbólico por um dano não quantificável: "O problema em Montserrat, mas também noutras instituições católicas, é a falta de transparência: não dizem que sabem quantos são os abusadores, quantas são as vítimas, quanto pagaram em ressarcimento, que tipo de reparações simbólicas foram feitas." Vive-se de segredos, e isso é um problema porque sabemos que os abusos de menores prosperam no segredo."

Hurtado gostaria de ter se encontrado com o Papa em vez de permanecer à porta da igreja, como tem acontecido desde que decidiu tornar sua história pública. "É inacreditável que o Papa vá ao local do crime e se recuse a se encontrar com as vítimas", diz ele. Em Madri, de qualquer forma, o Papa Leão se encontrou com seis vítimas de abusos à margem do evento no Estádio Santiago Bernabéu: um encontro discreto e a portas fechadas, refletindo a postura adotada pelos sobreviventes, que sempre mantiveram um perfil público discreto. Para Hurtado, isso é inaceitável: "O Vaticano selecionou cuidadosamente as vítimas, ignorando nossos pedidos. Disseram-nos que o Papa tinha uma agenda lotada para marcar um encontro, mas evidentemente havia espaço para se encontrar com o cantor Bad Bunny! Isso aumenta nossa dor e aprofunda a ferida."

Leia mais