"A misericórdia é critério de autenticidade cristã. No cotidiano, ela se manifesta na paciência e compaixão com quem erra, na disposição para dialogar, na generosidade ao servir. O chamado de Mateus mostra que ninguém está excluído da possibilidade de recomeço — e que somos instrumentos desse recomeço na vida uns dos outros.
A comunidade cristã, inspirada por este Evangelho, é convidada a ser sinal da misericórdia de Deus em todas as situações: no trânsito, ao lidar com diferenças, ao perdoar falhas, ao acolher quem pensa diferente. Pequenos gestos diários de compaixão transformam o mundo ao nosso redor."
A reflexão é de Marlise Ritter – cristã leiga, casada há 21 anos, mãe de um filho de 18 anos. Ela possui formação em Ciências Religiosas na PUC/RS, em história pela FAPA/RS e pós graduação em Administração pela UNINTER. Atualmente atua no Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB, colabora em diversas pastorais e participa do grupo “Famílias dos Carismas da CRB”, grupo este voltado para a partilha de carismas da VRC com leigas e leigos.
1ª leitura: Os 6,3-6
Salmo responsorial: Sl 49(50),1.8.12-13.14-15 (R. 23b)
2ª leitura: Rm 4,18-25
Evangelho: Mt 9,9-13
O enfoque especial do 10º Domingo do Tempo Comum, nos inspira a cultivar a misericórdia em cada gesto e decisão do cotidiano, aprofundando o sentido da fé e renovando o compromisso com Deus e com o próximo.
No Evangelho de Mt 9,9-13, Jesus, ao chamar Mateus, um cobrador de impostos, rompe barreiras sociais e religiosas, ensinando que ninguém está fora do alcance da misericórdia divina. Sua atitude de sentar-se à mesa com publicanos e pecadores nos inspira a abrir espaço, em nossa rotina, para acolher quem sofre exclusão ou preconceito. Em vez de julgarmos ou nos afastarmos das fragilidades alheias, a proposta evangélica nos convida a aproximação, escuta e empatia.
A resposta de Jesus — “Misericórdia quero, não sacrifício” — é um convite para que, no dia a dia, priorizemos gestos de compaixão em casa, no trabalho, na comunidade. Quantas vezes preferimos formalidades e aparências, esquecendo-nos de compreender e perdoar? O evangelho mostra que a misericórdia quebra o ciclo da indiferença e gera reconciliação verdadeira.
O olhar de Jesus sobre Mateus é um olhar que enxerga potencial de transformação onde muitos só veem passado ou erro. No cotidiano, isso nos motiva a enxergar o bem e a possibilidade de mudança em quem nos cerca, em vez de rotular ou condenar. A misericórdia, vivida concretamente, se realiza em atitudes como perdoar uma ofensa, acolher alguém rejeitado, reerguer quem está prostrado, ou simplesmente escutar quem precisa ser ouvido.
O gesto de Jesus de sentar-se à mesa é convite para fazermos de nossos espaços de convivência — família, trabalho, grupos sociais — lugares de inclusão e partilha. Viver a misericórdia é transformar ambientes marcados por competição, julgamento ou indiferença em espaços de acolhimento e solidariedade.
O Evangelho desafia também as nossas comunidades eclesiais a serem mais abertas, evitando exclusões por diferenças de história, condição social ou opinião. No exercício da misericórdia cotidiana, somos chamados a construir pontes, superar preconceitos e promover reconciliação onde houver divisão.
A postura dos fariseus denuncia o risco de julgar e excluir, mesmo em nome da “justiça”. Jesus propõe a conversão do coração, que se traduz em gestos concretos: oferecer tempo a quem sofre, ajudar quem passa necessidade, ouvir sem condenar, amar sem exigir perfeição. Isso transforma as relações e torna visível o Reino de Deus no presente.
A misericórdia é critério de autenticidade cristã. No cotidiano, ela se manifesta na paciência e compaixão com quem erra, na disposição para dialogar, na generosidade ao servir. O chamado de Mateus mostra que ninguém está excluído da possibilidade de recomeço — e que somos instrumentos desse recomeço na vida uns dos outros.
A comunidade cristã, inspirada por este Evangelho, é convidada a ser sinal da misericórdia de Deus em todas as situações: no trânsito, ao lidar com diferenças, ao perdoar falhas, ao acolher quem pensa diferente. Pequenos gestos diários de compaixão transformam o mundo ao nosso redor.
A relação entre misericórdia e sacrifício aponta para o essencial da fé: Deus deseja corações abertos, compassivos e solidários, não apenas rituais. Viver a misericórdia é praticar a solidariedade, a compreensão e o perdão — atitudes que dão sentido à fé e renovam o compromisso com o Evangelho.
Em resumo, o Evangelho de Mt 9,9-13 desafia os cristãos a cultivar a misericórdia no cotidiano e na vida comunitária, reconhecendo que todos somos necessitados do perdão e convidados à mesa do Senhor e que a vivência cristã não acontece apenas dentro da Igreja, mas principalmente nas relações diárias, no trabalho, na família, na comunidade e no compromisso com os mais necessitados.
Este trecho do Evangelho de Mateus faz relação com a 1ª leitura de Os 6,3-6: O profeta Oseias denuncia um culto vazio e proclama: “Quero misericórdia, não sacrifício”. Assim como em Mt 9,9-13, somos chamados, nas situações concretas, a viver a compaixão: ajudar quem precisa, perdoar desentendimentos, agir com justiça nas pequenas escolhas diárias. Deus deseja uma relação sincera, marcada por gestos de cuidado e proximidade.
Já em relação a 2ª leitura de Rm 4,18-25: Paulo destaca a fé de Abraão, que acreditou “contra toda esperança”. No cotidiano, essa confiança se expressa em atitudes de misericórdia: acreditar na possibilidade de mudança, apoiar quem está fragilizado, ser sinal de esperança. A salvação é dom gratuito, vivido na confiança e na prática do amor.
No Salmo - Sl 49(50),1.8.12-13.14-15 (R. 23b): o salmista convida à gratidão e à confiança, mais que ao sacrifício material. O tom orante nos motiva a transformar cada gesto cotidiano em celebração e louvor, reconhecendo que Deus escuta e salva quem vive o compromisso da misericórdia.
A misericórdia, portanto, ultrapassa ações individuais e se manifesta no compromisso com uma sociedade mais humana, justa, solidária e fraterna.
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