02 Junho 2026
Apesar das ações do governo, flexibilização da legislação ambiental promovida pelo Congresso Nacional pode prejudicar a contenção dos danos.
A informação é publicada por ClimaInfo, 01-06-2026.
O governo federal montou um grupo para monitorar eventos climáticos extremos e acompanhar semanalmente os impactos do El Niño. Segundo as últimas previsões, o fenômeno climático poderá surgir já neste mês e se intensificar no próximo semestre.
O grupo é composto por representantes do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os especialistas se reuniam a cada 45 dias, mas a frequência dos encontros foi intensificada diante da previsão de agravamento dos impactos climáticos nos próximos meses, informa o g1.
O grupo auxiliará o planejamento de ações federais em articulação com Estados, municípios, universidades e organizações da sociedade civil. Segundo o governo, desde o início do ano vêm sendo estruturadas medidas integradas para reduzir os efeitos de eventos extremos associados ao El Niño.
O governo também retomou a Sala de Situação sobre Incêndios Florestais, grupo composto por 13 ministérios e nove autarquias federais que monitoram cenários e definem respostas emergenciais, segundo o Canal Energia.
Apesar das ações, a flexibilização da legislação ambiental promovida pelo Congresso Nacional pode prejudicar a contenção dos danos do El Niño. Um levantamento feito pelo Observatório do Clima a pedido d’O Globo aponta cinco medidas convertidas em lei, além de outras 47 propostas que tiveram a tramitação acelerada.
Entre elas estão: a Lei da Devastação – a Lei Geral do Licenciamento Ambiental -, que reduziu a capacidade preventiva do Estado em obras e empreendimentos que deveriam incorporar critérios de risco climático, segurança hídrica e resiliência; o marco regulatório das eólicas offshore, que incorporou “jabutis” que expandem subsídios e incentivos a combustíveis fósseis; e o PL nº 2.564/2025, que restringe o uso de embargos remotos pelo Ibama.
Os impactos do El Niño já estão sendo contabilizados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), apesar da bancada ruralista ser a principal responsável pelo retrocesso ambiental, prejudicando o próprio setor. O fenômeno pode atrasar o plantio da soja e encurtar a janela para o plantio do milho de segunda safra, detalham Estadão e Valor.
O El Niño deve aumentar as chuvas na Região Sul e reduzi-las no Norte e no Nordeste, onde as temperaturas tendem a ser mais altas que a média. Mas Enner Alcântara, professor do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais (UNESP/Cemaden), lembra no EcoDebate e no Jornal da Unesp que a maior ameaça para o país não é o fenômeno em si, mas nossas velhas vulnerabilidades como a contínua falta de prevenção e de adaptação climática.
“Desastres raramente são produzidos exclusivamente pela chuva, pela seca ou pelo calor. Eles dependem muito das condições sociais e territoriais. Uma mesma quantidade de chuva produz impactos completamente diferentes em cidades com infraestrutura adequada e em áreas marcadas por ocupação irregular, drenagem insuficiente e forte vulnerabilidade social”, afirma.
Em tempo
Por conta do temor dos impactos do El Niño na África Ocidental, o cacau registrou alta de 10% em maio. A região é a maior produtora mundial do fruto, com cerca de 70% de toda a produção. Na 6ª feira (29/5), a amêndoa foi negociada a US$ 3.923 por tonelada, segundo a CNN Brasil. Na safra 2023/24, última vez em que o El Niño impactou a produção do oeste africano, o mundo teve um déficit de quase 500 mil toneladas de cacau, lembra o Valor.
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