A ideia de América Latina

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29 Mai 2026

“A ‘América’ nunca foi um continente a ser descoberto, mas uma invenção forjada durante o processo da história colonial europeia e a consolidação e expansão das ideias e instituições ocidentais”, escreve Walter Mignolo, semiólogo argentino e professor de literatura na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, em excerto da obra La idea de América Latina, publicado por Ethic, 28-05-2026.

Eis o artigo.

Antes de 1492, a América não aparecia em nenhum mapa, nem sequer no dos povos que viviam no Vale de Anáhuac (território asteca) e Tawantinsuyu (território inca). Os espanhóis e os portugueses, únicos ocupantes europeus durante o século XVI, batizaram o continente cujo controle e posse estavam em suas mãos. Hoje em dia, é difícil pensar que incas e astecas não viviam na América e, mais ainda, que não viviam na América Latina.

Até o início do século XVI, o continente não aparecia nos mapas porque a palavra não havia sido inventada, nem a ideia de um quarto continente havia surgido. O território existia e os habitantes também, é claro, mas eles davam seu próprio nome ao lugar onde viviam: Tawantinsuyu à região andina, Anáhuac ao que atualmente é o Vale do México e Abya Yala à região que hoje ocupa o Panamá.

Os povos originários não conheciam a extensão do que depois passou a ser chamado de “América”. Na Europa, na Ásia e na África, ninguém sabia da existência do território que viria a ser chamado de Índias Ocidentais e, mais tarde, América, nem dos povos que o habitavam, que depois seriam conhecidos como índios.

A América caiu do céu - literalmente falando - que Américo Vespúcio estava observando quando descobriu que as estrelas que via do sul do Brasil de hoje não eram as mesmas que costumava ver do Mediterrâneo. O intrigante da questão é que, uma vez que o continente recebeu o nome de América, no século XVI, e que a América Latina foi assim denominada, no século XIX, foi como se esses nomes sempre tivessem existido.

A “América” nunca foi um continente a ser descoberto, mas uma invenção forjada durante o processo da história colonial europeia e a consolidação e expansão das ideias e instituições ocidentais. Os relatos que falam de “descobrimento” não pertenciam aos habitantes de Anáhuac, nem de Tawantinsuyu, mas aos europeus.

Foi preciso que transcorressem 450 anos para que ocorresse uma transformação na geografia do conhecimento e, assim, aquilo que a Europa via como um “descobrimento” passou a ser considerado uma “invenção”. O marco conceitual que permitiu essa guinada surgiu da consciência “criolla” do mundo de língua espanhola e portuguesa.

Cabe destacar que, até então, as formas de pensamento aborígine e africano da América do Sul ainda não tinham entrado no debate público, olhando para o continente a partir de sua própria história fragmentada. “América”, e depois “América Latina” e “América Saxônica” são conceitos criados por europeus e “criollos” de ascendência europeia. Os indígenas e os “criollos” descendentes de africanos não foram convidados para o diálogo.

Os afro-caribenhos tinham participado de uma transformação semelhante e complementar na geografia do conhecimento, mas no mundo de língua inglesa e francesa. Os “criollos” de ascendência africana não se interessavam pela chegada dos europeus à região hoje conhecida como ilhas do Caribe: o transporte de pessoas escravizadas para o continente que já se chamava América começou várias décadas após o descobrimento ou invenção do continente. O fato de que a América fosse um continente descoberto ou uma entidade inexistente não era um tema relevante na genealogia do pensamento indígena.

Há alguns anos, o historiador e filósofo mexicano Edmundo O’Gorman apresentou um argumento sólido e convincente: a invenção da América implicou a apropriação do continente e sua integração no imaginário eurocristão.

Os espanhóis e os portugueses, como os únicos intrusos europeus do século XVI, reivindicaram o continente para si e o rebatizaram, ao mesmo tempo que iniciaram uma organização territorial semelhante à da Espanha e de Portugal.

Vespúcio pôde descer a América do céu quando, navegando pelas costas do atual Brasil, percebeu que estava em um “Novo Mundo” (novo, é claro, para os europeus) e não na “Índia”, como Colombo havia acreditado, dez anos antes.

É bem conhecida a história de que, desde que Vespúcio “descobriu” a América no plano conceitual (no sentido de “dar-se conta” ou “tomar consciência”), os europeus se depararam com um Novo Mundo, continente que recebeu o nome de “América” em homenagem a Américo Vespúcio, com uma leve mudança na terminação da palavra para que fosse análoga à dos continentes não europeus existentes: África e Ásia.

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