"Como contrapoder e construtores de novas racionalidades, os pobres e os migrantes são os sujeitos socioculturais apontados por Milton Santos (2017) como atores importantes na subversão das lógicas perversas presentes nos objetos técnicos, nas normas corporativas e também estatais. Estes sujeitos demonstram a capacidade de inventividade, de novos usos territoriais, de regeneração e desaceleração material, de uma nova construção que se dá no presente e aponta para outro futuro, com relações renovadas entre a sociedade e seu meio".
O artigo é de Guilherme Tenher Rodrigues, mestre pelo Programa de Pós-graduação em Geografia (POSGEA), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na área de Análise Territorial. Graduado em Ciências Econômicas na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Integra a equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Não há disseminação bem-sucedida de novas formas de organização da produção, distribuição, comercialização e consumo de produtos e serviços sem o invisível, não obstante implacável trabalho de modulação das energias sociais, afetos, hábitos e crenças das populações.
Por isso a técnica nunca deixou de ser cultural, visto que ela não apenas representa os modos de existência e reprodução socioeconômica da sociedade dando-lhe historicidade, como é capaz de encabeçar novos projetos, sejam eles imbuídos de práticas exploratórias, sejam eles tomados pela necessidade de uma reorganização social frente ao colapso dos sistemas que regem o mundo contemporâneo.
A tecnosfera e a psicosfera são categorias analíticas miltonianas que buscam compreender as dinâmicas das complexidades material e imaterial intrínsecas ao esforço de construção social e econômica por meio do acionamento de novas normas, ações e objetos, principalmente aqueles projetados com a intencionalidade mercantil hegemônica (SANTOS, 2017; SOUZA, 2022).
A tecnosfera e a psicosfera podem ser descritas como mecanismos que trabalham para alcançar a docilidade das populações frente às mudanças tecnológicas, sociais e econômicas. Conforme Santos (2017), cada objeto só passa a existir de fato se for animado pela energia social. Assim, é necessário um programa que prepare a matriz axiológica dos consumidores e trabalhadores para o novo arranjo de objetos que se quer implantar na sociedade, submetendo-os aos modos de vida da nova narrativa que estes objetos carregam. Em linhas gerais, pode-se dizer que há redutibilidade entre estas esferas.
Tecnosfera e psicosfera são redutíveis uma à outra. O meio geográfico atual, graças ao seu conteúdo em técnica e ciência, condiciona os novos comportamentos humanos, e estes, por sua vez, aceleram a necessidade da utilização de recursos técnicos, que constituem a base operacional de novos automatismos sociais. Tecnosfera e psicosfera são os dois pilares com os quais o meio técnico-científico-informacional introduz a racionalidade, a irracionalidade e a contrarracionalidade, no próprio conteúdo do território (SANTOS, 2017, p. 256).
Para Kahil (2010), os objetos, muito ligados à tecnosfera, possuem existência própria. Todavia, a psicosfera, concernente às ações, dá sentido para os usos destes objetos. Para esta autora, o uso corporativo desenfreado é a principal adjetivação destas esferas na contemporaneidade. Vale a citação:
Indissociavelmente, sistemas de objetos naturais ou artificiais e sistemas de ações são perversamente usados e dispostos a serviço da manutenção e atualização do poder econômico e político das poucas e grandes corporações e instituições mundiais. [...] São forças centrífugas que retiram do lugar, das populações locais, dos governos locais, qualquer escala o tomemos (federal, estadual ou municipal) as possibilidades de presença pública autônoma, retiram do lugar as possibilidades de invenção política, de realização do espaço público (KAHIL, 2010, p. 482).
Santos (2017) de fato assevera que a tecnosfera pertence à esfera dos objetos, da materialidade, da produção e do intercâmbio. Esta dimensão qualifica os lugares por meio da técnica, da racionalidade e de interesses mojoritariamente alheios aos locais. Por este motivo, a tecnosfera se torna paradoxalmente um dado local-global, conectando diferentes pontos do globo (multiescalaridade), sendo facilitadora das condições operacionais da verticalidade, disseminando as necessidades de consumo e de produção em diferentes territórios. É também a tecnosfera que permite a existência de densidades técnicas e informacionais nas localidades.
Por outro lado, a psicosfera, pertencente ao reino das ideias, dos valores e das crenças, participa ativamente na criação de um sentido para os lugares. Ela é naturalmente polivalente, pois auxilia na configuração das mentes e na adaptação dos corações para o uso e interação com os objetos técnicos, sendo em certos casos uma tarefa estratégica imprescindível para a expansão do meio técnico-científico-informacional (o marketing e as demais ações publicitárias, por exemplo), antecedendo-o para adequar os comportamentos às novas interações adjacentes ao progresso técnico (SANTOS, 2017).
Ela, a psicosfera, dissemina os valores modernos e agiliza a ação mercantil nos territórios. O controle institucional, o desenvolvimento cada vez mais agressivo e sutil de estratégias mercadológicas e a constituição de avançados sistemas midiáticos operam com tamanha intensidade e celeridade graças a esta esfera. (SANTOS, 2017).
Essas categorias ou mecanismos de funcionamento do conteúdo espacial são uma chave prolífica para pensarmos os impactos das grandes companhias de tecnologia e de demais setores oligopolizados no cotidiano das populações e de suas interfaces com a cultura e com os territórios. O que os projetos corporativos de grande escala querem de nós e dos nossos lugares? O reino superposto psicotecnoesférico indica o sentido dos usos do território, aponta para o campo de ação de agentes hegemônicos e carrega uma série de possibilidades de manobra para outras racionalidades ou visões de sociedade e de meio ambiente.
Neste sentido possibilista, a tecnosfera e a psicosfera a serviço dos processos hegemônicos globalizantes e racionalizantes são reavaliadas constantemente pelas populações vulnerabilizadas ou marginalizadas. Estas contrarracionalidades, conforme citadas anteriormente no trecho do texto do professor Milton Santos, carregam os poderes comunicacional e afetivo das relações interpessoais, reformulando os usos destas duas esferas para fins reais, concretos, locais, solidários e não predatórios (SANTOS, 2017).
Como contrapoder e construtores de novas racionalidades, os pobres e os migrantes são os sujeitos socioculturais apontados por Milton Santos (2017) como atores importantes na subversão das lógicas perversas presentes nos objetos técnicos, nas normas corporativas e também estatais. Estes sujeitos demonstram a capacidade de inventividade, de novos usos territoriais, de regeneração e desaceleração material, de uma nova construção que se dá no presente e aponta para outro futuro, com relações renovadas entre a sociedade e seu meio.
KAHIL, Samira Peduti. Psicoesfera: uso corporativo da esfera técnica do território e o novo espírito do capitalismo. Sociedade & Natureza [online]. 2010, v. 22, n. 3, p. 475-485. Epub 04 Abr 2011. DOI: https://doi.org/10.1590/S1982-45132010000300005
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP, 2017.
SOUZA, Maria Adélia de. Milton Santos, trajetória e obra. Um intelectual atento ao espaço e ao tempo do mundo. Instituto Humanitas Unisinos - IHU, 2022. Disponível aqui.