Nakba: memória como morada palestina

"Sliman Mansour, Mãe e filho" [2009] | Imagem reproduzida no portal Fashion.Beauty.Love

19 Mai 2026

Há 78 anos, Israel expulsou um povo e apagou aldeias inteiras do mapa. Entre testemunhos pessoais e reflexões poéticas, obra lançada pela Cosac percorre arquivos da invasão para reconstruir o que a história oficial insiste em soterrar.

A reportagem é de Raíssa Araújo Pacheco, publicada por Outras Palavras, 15-05-2026.

O dia 15 de maio pode ser apenas mais uma data em nosso calendário. Porém, para o povo palestino, ela representa literalmente o dia da “catástrofe”. Neste ano, completam-se 78 anos de Nakba – termo árabe que significa “catástrofe” ou “desastre”.

O episódio remete à expulsão em massa e à fuga forçada de mais de 700 mil palestinos de suas terras entre 1947 e 1949, durante a criação do Estado de Israel. Aldeias inteiras foram despovoadas, casas destruídas ou ocupadas, e um povo viu desintegrar-se, em poucos meses, o mundo tal como o conhecia.

Mesmo com todo horror que reside nessa memória, ela segue sendo transmitida por gerações que até hoje carregam chaves de casas às quais jamais puderam voltar.

Impelida pela necessidade de costurar “uma literatura que vá além do livro”, a artista plástica Lena Bergstein empreendeu anos de rigorosa pesquisa e investigação sensível acerca da Nakba e dos acontecimentos que a precederam. O esforço desaguou na obra Um diário em aberto: Palestina, recém-publicada pela Cosac Edições.

Livro "Um diário em aberto: Palestina", de Lena Bergstein

A narrativa histórica entrelaça testemunhos pessoais e reflexões poéticas. Tais pinceladas pintam uma elegia sobre a partida forçada, a procura por um chão e um teto, e a impossibilidade do retorno.

Ao lançar-se ao estudo dos arquivos e das múltiplas camadas da história palestina, a autora logo percebeu que as leituras de Edward Said, da poesia de Mahmoud Darwish e da prosa de Emile Habiby – por mais luminosas que fossem – não bastariam para dar conta do que encontrava. “Quando fui mergulhando nas múltiplas interrogações da história, as narrativas começaram a causar dor, culpa, e me chocaram além de toda e qualquer proporção”.

O pescador falava com os peixes quando um menino judeu se aproximou e lhe perguntou em que língua conversavam. O pescador respondeu que era em árabe. E o menino perguntou se os peixes entendiam árabe. E o pescador respondeu que sim, os peixes grandes, velhos, que estão aqui há muito tempo, entendem árabe. Então o menino perguntou dos peixinhos, se por acaso entendiam hebraico. E o homem respondeu que tanto árabe quanto hebraico, porque o mar não tem fronteiras.”

O livro vem para não deixarmos esquecer que há feridas que o calendário não fecha. Diante de uma história que insiste em doer no presente, sua escrita se faz testemunho, abrigo e, sobretudo, recusa do esquecimento. Porque, enquanto houver quem lembre, as chaves continuarão esperando.

Em parceria com a Cosac Edições, Outras Palavras irá sortear dois exemplares de Um diário em aberto: Palestina, de Lena Bergstein, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 25/5, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!

Leia mais