O desenvolvimento recente da agricultura brasileira. Artigo de José Giacomo Baccarin

Foto: Elaine Casap/Unsplash

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12 Mai 2026

Uma primeira e mais geral questão é se a capacidade, que permitiu alta competitividade internacional em diversas cadeias agroindustriais, não corre o risco de ser perdida perante as novidades tecnológicas e geopolíticas.

O artigo é de José Giacomo Baccarin, publicado por A Terra é Redonda,  10-05-2026.

José Giacomo Baccarin é professor de Desenvolvimento agroindustrial e política agrícola na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Eis o artigo.

Buscar a verdade em meio à polêmica, desenterrá-la do passado, sem tomar partido, arrancando das versões mais diferentes todos os véus da fantasia capazes de encobrir, mesmo em parte, a nudez da verdade

(Jorge Amado, Os velhos marinheiros)

1.

O mês de junho de 2026 se aproxima e projetam-se as centenas de bilhões de reais com que a agricultura brasileira será contemplada no Plano Safra 2026/27 para a execução da política de crédito rural. Ao mesmo tempo, há uma forte apreensão quanto ao custo de produção na próxima safra, sob a pressão dos preços dos combustíveis e dos fertilizantes.

Neste caso específico, à possibilidade de se enfrentar preços bem acima dos verificados nos últimos anos, soma-se o risco da ocorrência da falta de produto. A causa imediata é a dificuldades de escoamento de fertilizantes pelo estreito de Ormuz, decorrente da agressão bélica dos EUA e de Israel ao Irã. Mas, não se pode desconsiderar que, desde os anos 1990, o Brasil vem aumentando sua dependência à importação de fertilizantes químicos, que hoje se encontra na casa dos 90%.

O sucesso exportador do agronegócio brasileiro, evidenciado a partir dos anos 1990 e acentuado no presente século, de certa forma, impediu que se procurassem explicações mais de fundo das suas causas, bem como que se levasse em devida conta as suas debilidades. Quanto às causas, não faltou uma interpretação simplificada atribuindo ao empreendedorismo (para os mais afoitos, ao heroísmo) dos empresários do agronegócio a elevação da participação brasileira de 2,3% nas exportações mundiais agrícolas, em 1990, para próximo a 10%, em 2023.

Essa visão não é expressa apenas pelas lideranças empresariais, mas também se manifesta em textos de economistas agrícolas. Nesse caso, é comum se associar a adoção de políticas neoliberais, de liberação comercial e menor gasto e intervenção governamental nos mercados agrícolas, à estabilidade da moeda brasileira, pós Plano Real, que criaram um ambiente favorável ao negócio agrícola.

Tal explicação, em nosso entendimento, apresenta duas debilidades. Primeira e mais evidente, não explica por que outros setores da economia brasileira não se beneficiaram do neoliberalismo e da estabilização monetária. Pelo contrário, o desempenho industrial brasileiro tem sido pequeno, com o Brasil passando a importar vários produtos da indústria de transformação, como o têxtil e o calçadista, só para citar dois que usam matérias primas agrícolas.

2.

A segunda debilidade explicativa está associada ao desprezo pelo passado ou de questões estruturais. A competividade externa do agronegócio brasileiro não foi obtida nos anos 1990, ela se explicitou a partir daí. Há décadas, com maior intensidade desde os anos 1970, conseguiu se conjuminar esforços públicos e privados, em grande parte sob a coordenação governamental, que elevaram o nível de produtividade sistêmica da agricultura brasileira e de ramos industriais a ela ligados, a montante e a jusante.

Essa desconsideração atinge, também, algumas avaliações do campo progressista, que desprezam o passado recente e veem o desenvolvimento atual como uma repetição do passado mais remoto, em que a dotação de recursos naturais, terra e clima, explicava a posição brasileira na divisão internacional do trabalho, como exportador de produtos agrícolas tropicais, a exemplo do café.

É comum conceber que a soja cumpre, na atualidade, o antigo papel do café, até por que aquela leguminosa saiu de uma área próxima a 200 mil hectares, em 1970, para mais de 45.000 mil hectares, na atualidade, expansão bem mais acentuada que a do café, entre o fim do Império e da República Velha.

Contudo, uma análise mais cuidadosa leva a perceber que a soja deixou de ser uma cultura restrita ao Rio Grande do Sul, onde os dias são longos no verão, e avançou em direção à linha do Equador, no Maranhão e no Pará, em que a duração do dia, praticamente, não varia ao longo do ano, a partir da disponibilidade de novas variedades.

Apenas a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) desenvolveu mais de 300 variedades de soja, desde 1972, permitindo o caminhar meridional setentrional da cultura. Junte-se ao aprimoramento genético, outras duas importantes tecnologias, a inoculação da semente de soja com bactérias que fixam nitrogênio do ar, eliminando a necessidade de adubação química desse nutriente, e a prática do plantio direto, que se baseia no menor revolvimento do solo antes do plantio, prática necessária em regiões com inverno rigoroso, mas dispensável no clima brasileiro.

Outros dois exemplos de mudanças tecnológicas podem ser elencados, um na pecuária, outro na silvicultura. A exportação de carne bovina pelo Brasil só se evidenciou nesse século XXI, mesmo com a diminuição da área de pastagens, resultado do aprimoramento genético de 60-70 anos dos zebuínos, de origem na Índia.

O eucalipto, trazido da Austrália, para ser usado como dormente de estradas de ferro, foi geneticamente melhorado, passando a se constituir na principal matéria prima para a produção de celulose, cuja exportação cresceu muito a partir de 1990, de forma a substituir a madeira, fruto do extrativismo, como principal item de exportação brasileira dos produtos florestais.

3.

Além do conhecimento científico e tecnológico, obtido ao longo de décadas, a exportação brasileira do agronegócio foi favorecida pelo aumento de 75% nos preços internacionais agrícolas no primeiro quarto do século XXI. A enxurrada de divisas foi grande, a ponto de contribuir para a valorização da moeda nacional e adiar, se não a reflexão, pelo menos a ação em relação a problemas que se acumulavam. Talvez, aqui valha uma máxima futebolística: “em time que está ganhando não se mexe”.

Quem sabe agora, em um novo campeonato com regras internacionais pouco claras ou inexistentes, possam se apontar algumas deficiências, na expectativa que sejam tomadas ações nacionais mais estruturantes. A primeira deficiência diz respeito ao aumento da dependência da importação de insumos químicos fundamentais para manutenção do dinamismo produtivo da agricultura brasileira, os agrotóxicos e os fertilizantes. Ao mesmo temo, nas máquinas agrícolas, o Brasil apresenta, na atualidade, um saldo comercial positivo, associado ao tratamento diferenciado que a indústria automobilística brasileira teve frente à abertura comercial dos anos 1990.

Como isso não se verificou nos insumos químicos, a dependência nacional só fez aumentar, sob os ventos neoliberais. Tomemos o acontecido com os fertilizantes, cuja produção nacional foi incentivada tanto no Plano de Metas de JK quanto no II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) de Ernesto Geisel. No começo dos anos 1990, o Brasil produzia quase 60% dos fertilizantes que consumia, percentual que foi caindo ao longo do tempo, associada a uma estagnação da produção nacional em trono de 7,4 milhões de toneladas há trinta anos. Como a agricultura continuou se expandindo, hoje é necessário, como já afirmado, que se importe 90% dos fertilizantes usados pela agricultura brasileira.

Da agricultura para frente, pode-se observar que, desde os anos 1990, na maioria das cadeias ou se manteve a grande participação de produtos básicos ou semimanufaturados na exportação, como é o caso do café, ou ela aumentou, como o ocorrido na soja e na bovinocultura de corte. Na primeira, a participação do farelo e do óleo de soja perdeu espaço relativo para a soja em grãos. Na segunda, ao mesmo tempo que o Brasil virou exportador de carne, caiu a exportação de calçado e outros derivados do couro bovino.

A cadeia do algodão, talvez, seja uma boa síntese do acontecido sob os ventos do neoliberalismo. No início dos anos 1990, a tarifa de importação de 50% de todos os produtos da cadeia foi zerada, em um prazo de três anos. Em poucos anos, o Brasil virou um grande importador do algodão beneficiado, de tecido e roupa de algodão. Com o tempo, a produção agrícola se recuperou, excluindo pequenos agricultores, mecanizando todas as fases da cultura, inclusive a colheita, e se deslocando do Nordeste e Sudeste para as grandes áreas do Centro-Oeste. Na atualidade, o Brasil é o maior exportador de algodão beneficiado do mudo. Contudo, nos produtos têxteis, a dependência da importação, especialmente da indústria asiática, continua em patamar bastante elevado.

4.

Há fatos externos a considerar para entender esses acontecimentos. É comum que práticas tarifárias, como a escalada tarifária, sejam impostas ao Brasil dificultando a exportação nacional de produtos mais processados. Chega a ser tragicômico o fato do Brasil ser o maior exportador de café beneficiado do mundo e a Alemanha (isso mesmo) a maior exportadora de café moído e torrado. Ademais, como outros países ocidentais, o Brasil foi impactado pelo deslocamento recente da indústria para a Ásia, que não à toa é a nossa maior compradora de soja e algodão e grande provedora de nossas roupas.

Contudo, não faria mal nenhum um olhar mais atento para o umbilicus Brasiliae. Na exportação agrícola, além da adesão entusiasmada ao neoliberalismo, a aprovação da Lei Kandir, em 1996, deliberou que os produtos básicos e semimanufaturados (como o minério de ferro da Vale do Rio Doce ou a soja em grãos) deixassem de recolher ICMS (Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços) ao serem exportados, o que até então era reservado apenas aos produtos manufaturados (como aço e farelo de soja).

A visão estratégica da nação passou a ser considerada uma manifestação de infantilidade ou de ociosidade acadêmica. No caso agrícola, o sucesso comercial ajudou a constranger formulações de longo prazo. Mas, sempre é tempo de insistir. Uma primeira e mais geral questão é se a capacidade, historicamente, construída pelo Brasil, que permitiu alta competitividade internacional em diversas cadeias agroindustriais, não corre o risco de ser perdida perante as novidades tecnológicas e geopolíticas?

Outros dois questionamentos são mais específicos. Um deles diz respeito ao que fazer para diminuir a dependência excessiva da importação de fertilizantes, o que leva a reflexão das possibilidades reais de aumento da produção nacional, mas também da racionalização do seu uso e da incorporação da tecnologia alternativa de bioinsumos, como, aliás, há décadas se pratica no cultivo nacional de soja.

Outra reflexão diz respeito à conveniência de adotar novas atitudes públicas, inclusive tributárias, na exportação de origem agrícola, almejando maior processamento interno antes da venda externa. Nesse sentido, de quebra, pode-se pensar em ações tempestivas que consigam proteger o consumidor interno de movimentos especulativos e altistas de preços no mercado agrícola internacional.

Não se deve deixar de lado que, desde 2007, os alimentos no Brasil têm encarecido em relação aos demais grupos de produtos que compõem o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Difícil evitar um chiste, como um país que se dispõem a ser celeiro do mundo, não oferta comida barata ao seu povo?

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