06 Mai 2026
A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que uma série de eventos, embora possam parecer improváveis, podem levar a uma “pandemia digital”. “É algo que provavelmente acontecerá, e nenhum ator ou país sozinho poderá enfrentá-la”, destacou Doreen Bogdan-Martin, secretária-geral da União Internacional de Telecomunicações (UIT), ao apresentar em Genebra as conclusões de um estudo sobre essas ameaças.
A reportagem é publicada por Naiz, 05-05-2026. A tradução é do Cepat.
As guerras e as mudanças climáticas contribuem para aumentar a probabilidade de tais eventos, por isso a secretária-geral da UIT defendeu que se integre “a resiliência no DNA das tecnologias das quais dependemos”.
Os especialistas analisaram a fragilidade dos sistemas digitais interconectados em terra, mar e espaço, e propuseram uma estratégia para fortalecer a preparação global, embora as ameaças consideradas não incluam ataques e quedas intencionais dos sistemas digitais.
Medidas a serem implementadas
A estratégia que propõem inclui medidas como aprimorar o conhecimento sobre as vulnerabilidades existentes, modernizar a gestão de riscos, fortalecer os sistemas de backup e aumentar a coordenação internacional em relação aos riscos críticos.
Além disso, apontam uma vulnerabilidade adicional: a perda de capacidades analógicas. “Muitas sociedades substituíram processos tradicionais por digitais sem manter alternativas offline, o que limita a capacidade de resposta a falhas sistêmicas”, alerta o estudo.
O relatório ressalta que a dependência de tecnologias digitais criou vulnerabilidades pouco visíveis e analisa cenários que permanecem “ocultos”.
“Uma forte tempestade solar pode inutilizar satélites, afetar sistemas de navegação e desestabilizar redes elétricas, com tempos de recuperação de meses”, afirmam os especialistas.
Em outra suposição, caso haja temperaturas extremas, data centers podem entrar em colapso, provocando interrupções em serviços móveis, de saúde e financeiros.
A isso se somam os riscos físicos, como terremotos ou outros desastres naturais, que podem danificar cabos submarinos e deixar países inteiros sem conectividade por semanas, afetando gravemente a atividade econômica.
Fortalecer a resiliência digital
Para evitar que qualquer uma dessas situações se materialize, pede-se a governos, empresas e sociedade civil que ajam com senso de urgência, fortaleçam de forma coordenada a resiliência digital e protejam serviços essenciais como saúde, finanças e resposta a emergências.
Isso permitiria prever “riscos que podem se espalhar rapidamente por meio de infraestruturas altamente interdependentes”, explica o estudo preparado pela UIT, em colaboração com o Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres e a universidade francesa Sciences Po, com a participação de especialistas de doze países.
O representante da ONU para a redução do risco de desastres, Kamal Kishore, destacou que a questão não é se uma ou mais das situações descritas ocorrerão, mas quando acontecerão.
Bogdan-Martin se referiu a uma situação ocorrida há um século e meio (em 1859), quando uma tempestade interrompeu o serviço telegráfico, “que naquela época era como a internet de agora”.
Leia mais
- Parasita digital (IA): a pirataria dos saberes que destrói recursos naturais alimentada por grandes data centers. Entrevista especial com Miguel Nicolelis
- Cientistas alertam para o impacto hídrico dos data centers
- O frágil equilíbrio de nosso planeta e o imperativo de uma conexão entre tecnologia e ética. Entrevista especial com Jelson Oliveira
- A natureza "péssima" da internet: o que podemos fazer para evitar navegar em um lixão?
- Um confronto entre o Pentágono e a Anthropic e os perigos da guerra com IA. Artigo de Kevin Clarke
- Teólogos morais católicos e especialistas em ética apoiam a abordagem antropogênica no embate governamental sobre IA
- IA: “Não é nem inteligente nem artificial”, afirma Miguel Nicolelis