23 Abril 2026
O Brasil, segundo maior detentor de reservas mundiais, assina acordos estratégicos sobre minerais críticos com a Índia, a Coreia do Sul e a Espanha durante a fase geopolítica mais agressiva do governo dos EUA.
A reportagem é de Bernardo Gutiérrez, publicada por El Diario, 22-04-2026.
As reservas mundiais de elementos de terras raras, cobiçados e essenciais para a indústria tecnológica e o setor de energias renováveis, estão cada vez mais distantes dos Estados Unidos. A agressividade geopolítica de Donald Trump está limitando inexoravelmente o acesso dos EUA a esses minerais para as economias emergentes conhecidas como BRICS, que detêm 84,9% das reservas globais.
Se os Estados Unidos já não tinham acesso a elementos de terras raras da China (o gigante asiático detém 49%) e da Rússia (4,2%), chegar a um acordo com o Brasil, que possui a segunda maior reserva mundial (23%), parece difícil após o conflito Irã-Contras. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva insinuou no ano passado que estaria aberto a negociar o acesso às suas reservas de terras raras com os Estados Unidos. No entanto, o conflito no Oriente Médio não só adiou o encontro já anunciado entre Lula e Trump na Casa Branca, como também alterou a trajetória geopolítica do Brasil.
Durante sua recente visita oficial à Espanha, Lula assinou um “memorando de entendimento sobre minerais críticos” (incluindo os 17 elementos de terras raras) com o governo de Pedro Sánchez. O documento, obtido pelo elDiario.es, prevê “explorar caminhos para a transferência de tecnologia, exploração, pesquisa e desenvolvimento, refino, reciclagem e transformação de minerais críticos”, entre outras coisas.
O memorando entre a Espanha e o Brasil tem a mesma validade jurídica que os recentemente assinados entre o país sul-americano e a Índia e a Coreia do Sul. Os acordos firmados com os três países vão além dos elementos de terras raras, abrangendo minerais estratégicos como lítio, cobalto, cobre e níquel, dos quais o Brasil possui reservas abundantes.
“Esses são insumos de grande importância econômica, tecnológica e geopolítica. O controle desses insumos e de sua tecnologia coloca quem os detém na vanguarda da economia global”, disse Luisa Guitarrari, pesquisadora do Centro de Estudos de Energia da influente Fundação Getúlio Vargas, ao elDiario.es.
A recente visita de Lula à Alemanha, onde participou da Hannover Messe (a maior feira industrial do mundo) e assinou dez acordos oficiais com o chanceler alemão Friedrich Merz, fortaleceu a possibilidade de um acordo estratégico sobre minerais críticos entre o Brasil e a União Europeia. O chanceler Merz afirmou que "existem oportunidades significativas na extração de certos metais" e que "a Alemanha está preparada para apoiar o Brasil com conhecimento tecnológico e experiência". No entanto, o memorando assinado em Barcelona coloca a Espanha, e não a Alemanha, em uma posição privilegiada dentro da União Europeia, pois permite o direcionamento de investimentos do bloco.
As reservas brasileiras de terras raras, avaliadas em € 4 trilhões — o equivalente a 186% do PIB do país em 2024, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) — podem ser fundamentais para o desenvolvimento tecnológico da União Europeia. O controle da China sobre a extração, o refino e a comercialização desses minerais críticos — essenciais para as indústrias automotiva, de eletrônica avançada, de defesa, de energias renováveis, de robótica e de inteligência artificial — já causou retrocessos no setor industrial alemão.
O assunto é GRAVE e URGENTE: TERRAS RARAS. pic.twitter.com/g9kY9eiMnx
— Glauber Braga (@Glauber_Braga) April 22, 2026
Índia e Brasil
O início turbulento do ano geopolítico, marcado pelo sequestro do então presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, sinalizou uma ruptura na tênue reaproximação que vinha ocorrendo entre Brasília e Washington. Poucos dias antes do início do escândalo Irã-Contras, Brasil e Índia assinaram um memorando de entendimento em Nova Déli sobre elementos de terras raras e minerais críticos. “O progresso da Índia em setores de ponta, como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial, é notável. Isso cria muitas oportunidades de cooperação com o Brasil”, declarou Lula após a assinatura do acordo.
Para o país sul-americano, o memorando com a Índia é fundamental, já que, apesar de possuir a segunda maior reserva mundial de elementos de terras raras, sua exploração ainda está em estágios iniciais. “Para o Brasil, o acordo traz investimento, tecnologia e acesso a mercados. Para o BRICS, sinaliza um amplo consenso para construir uma cadeia de suprimentos para o Sul Global independente do Ocidente. Reforça a credibilidade do BRICS como um bloco econômico alternativo”, disse Vivek Mishra, diretor do programa estratégico do think tank Observer Research Foundation (ORF), com sede em Nova Déli, ao elDiario.es. Este especialista acredita que o acordo garante à Índia um fluxo direto de minerais para “setores críticos como semicondutores (vitais para chips eletrônicos ), veículos elétricos, energia renovável e indústria bélica”.
Os 17 minerais de terras raras possuem características insubstituíveis, o que os torna essenciais para a fabricação de smartphones, computadores, componentes de computador, telas de LED e painéis solares, entre outros. Enquanto são necessários 100 gramas de elementos de terras raras para fabricar um carro, um veículo elétrico requer entre um e quatro quilos, de acordo com o relatório "Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil".
Este estudo posiciona o Brasil como um dos países em posição privilegiada para controlar o “novo petróleo estratégico” na economia global, dadas as suas vastas reservas de elementos de terras raras, níquel, cobre, lítio, cobalto, grafite e nióbio. No entanto, o relatório “Brasil na Era dos Minerais Críticos”, da consultoria PwC, identifica desafios logísticos, regulatórios e tecnológicos que o país sul-americano enfrenta. Segundo o relatório, o Brasil deve ir além do modelo voltado para a exportação e criar valor agregado internamente.
Trump, à espreita
Luisa Guitarrari, da Fundação Getúlio Vargas, considera estratégicos os recentes acordos de mineração de terras raras entre o Brasil e outros países. “O Brasil ainda não explorou totalmente seu potencial, seja por falta de investimento ou de conhecimento em mapeamento geológico. Não sabemos o quão viável é a exportação das reservas”, afirma a especialista. Para complicar ainda mais a situação do Brasil, o governo dos Estados Unidos assinou recentemente um memorando de entendimento com o estado de Goiás, região que abriga a única planta de processamento de elementos de terras raras pesados fora da Ásia. Esses elementos recebem esse nome por possuírem os maiores números atômicos da tabela periódica, o que os torna os mais difíceis de extrair.
Impulsionado pelo ex-governador conservador Rolando Caiado, que já anunciou sua candidatura à presidência para as eleições de outubro, o acordo com os Estados Unidos irritou o governo Lula. O Executivo brasileiro questionou a autoridade do governo regional e minimizou um acordo "sem força legal". A batalha também vem do setor privado: a empresa americana Rare Earth acaba de anunciar a compra da brasileira Serra Verde, que controla a planta de Goiás, segundo a CNN.
Após o distanciamento de Lula em relação a Washington, a batalha geopolítica por terras raras e minerais críticos sugere um dilema no horizonte: o Brasil optará por direcionar a maior parte de seus minerais críticos para os países do BRICS ou para a União Europeia? Em janeiro, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, afirmou, após uma reunião com Lula no Rio de Janeiro, que a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia poderia ser um precursor de um acordo sobre terras raras.
A venda da empresa Serra Verde, única mineradora fora da Ásia a extrair e processar terras raras em escala, para a norte-americana USA Rare Earth não deve ser vista como mero acordo comercial, mas sim como um negócio que mexe com recursos naturais estratégicos do país e,… pic.twitter.com/ALLDWgEFJw
— ANPG (@anpg) April 22, 2026
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