15 Abril 2026
Trump não considerou as consequências de seu desprezo por Leão XIV.
O artigo é de Jorge Marirrodriga, jornalista, publicado por El País, 15-04-2026.
Eis o artigo.
Quando Leão XIV, ao sair de seu retiro semanal em Castel Gandolfo na última terça-feira, ordenou que seu veículo parasse e saiu para falar com os jornalistas que o aguardavam no portão, muitos se surpreenderam com o tom incomumente duro e direto usado pelo Papa. O último ultimato emitido por Donald Trump ao Irã estava prestes a expirar, e o presidente americano havia anunciado, em linguagem decididamente bíblica, que destruiria “uma civilização inteira” da noite para o dia. Robert Prevost não poupou palavras, declarando essas afirmações inaceitáveis. Para muitos, este foi o início de um confronto — tão antigo quanto o próprio tempo — entre o imperador e o Pontífice, mas o primeiro pontífice americano nos dois mil anos de história da Igreja já estava ciente do inevitável curso de colisão que as relações entre o Vaticano e Washington haviam tomado. Um confronto cujas consequências totais os assessores de Trump, mais interessados em bajulá-lo do que em confrontá-lo com a realidade, provavelmente não consideraram.
Na realidade, a Igreja e o governo dos Estados Unidos já estavam em profundo desacordo antes do escândalo Irã-Contras, devido à questão da imigração. O atual governo republicano nunca compreendeu a rejeição categórica da Igreja Católica à criminalização da imigração, que Donald Trump transformou em uma de suas plataformas políticas. Atribuíram essa rejeição a um suposto espírito progressista emanado de Roma sob o Papa Francisco. Ao fazer isso, caíram na mesma armadilha de muitos analistas e políticos — tanto nos EUA quanto em outros países — que insistem em classificar a instituição em dois campos, progressista e conservador, aplicando ideologias políticas literalmente. Acreditavam que os bispos considerados muito conservadores nos Estados Unidos estavam seguindo, com maior ou menor relutância, as diretrizes vindas de Roma, mas que isso mudaria com um novo sucessor na Cátedra de São Pedro. No entanto, com um homem nascido em Chicago no papado, os prelados americanos, firmes em sua posição, continuaram a se opor veementemente às políticas anti-imigração cada vez mais violentas do governo Trump. Nesse contexto, o círculo íntimo do presidente passou da perplexidade à suspeita. Era apenas uma questão de tempo até que a hostilidade irrompesse.
Os conflitos entre o Vaticano e a Casa Branca em relação à política externa agressiva dos EUA também não são novidade. Vale lembrar que o primeiro a declarar "não à guerra" foi João Paulo II, da janela do Palácio Apostólico em Roma, quando, no início de 1991, os Estados Unidos se preparavam para entrar no Kuwait após a invasão iraquiana do verão de 1990. Essa declaração de "nunca mais guerra" representou um grande revés para o então presidente, também republicano, George Bush pai, e tensionou as relações entre Roma e Washington, que nunca mais se recuperaram ao nível alcançado sob Ronald Reagan, apenas alguns anos antes.
Na atual crise nas relações entre o Vaticano e os Estados Unidos, destaca-se um encontro peculiar, alvo de desinformação, mas de significativa importância. Em 22 de janeiro, o então núncio apostólico nos Estados Unidos, Gabriele Caccia, foi convocado ao Pentágono. Lá, na sede da estratégia militar americana, ele foi recebido pelo Subsecretário de Defesa (na terminologia americana, o Subsecretário da Guerra) em uma reunião que gerou muita discussão devido a supostas ameaças feitas pelo alto funcionário americano contra a Igreja e o Papa caso não apoiassem a política externa de Trump. Ambos os lados negaram categoricamente as acusações. Mas mesmo aceitando essa versão oficial, ainda surpreende que o embaixador do Vaticano tenha sido convocado ao Pentágono e não ao Departamento de Estado, responsável pelas relações exteriores americanas. Acontece que, dois dias antes desse encontro, os cardeais de Chicago, Blase J. Cupich; Washington, Robert McElroy; e Newark, Joseph Tobin, emitiram uma declaração sem precedentes exigindo que Trump buscasse “uma política externa genuinamente moral”.
Desde o momento em que seu embaixador foi chamado de volta, Leão XIV fez constantes referências, mais ou menos veladas, à política externa dos EUA e, finalmente, diante da ameaça de destruição total contra o Irã, abandonou toda a sutileza. Além disso, momentos após as declarações de Prevost, o Arcebispo do Ordinariato Militar dos Estados Unidos, Timothy Broglio — ou seja, o bispo católico militar dos Estados Unidos — afirmou que a guerra contra o Irã não era justificada pela Igreja Católica. E para não deixar dúvidas, no domingo, os três cardeais mencionados apareceram em horário nobre no programa 60 Minutes da CBS, enfatizando o mesmo ponto. Trump contra-atacou depreciando e insultando o Papa. O Pontífice respondeu com "Não tenho medo". Uma linguagem à qual o presidente não está acostumado. E muitos católicos também não.
O fator religioso neste confronto não pode ser ignorado. Trump vem de uma cultura protestante — ele foi criado na Igreja Presbiteriana, embora não pertença mais a nenhuma denominação — que historicamente desprezou Roma e considerou o catolicismo mais uma relíquia folclórica retrógrada do que uma fé que, entre outras coisas, prega a transformação da humilhação em vitória e que, ao longo dos séculos, experimentou a agressão como um poderoso catalisador. E Trump provocou precisamente essas duas coisas com Leão XIV. O político que conquistou 55% dos votos católicos na última eleição presidencial ignorou o efeito devastador que suas palavras contra o Papa tiveram sobre aqueles que simpatizavam com o voto republicano. Ele também desconsiderou o curioso conceito pessoal de “dupla cidadania” compartilhado por todos os católicos no mundo, incluindo os dos EUA, que, embora obrigados a obedecer a seus governantes temporais, prestam muito mais atenção ao que vem de Roma. E ele pode não precisar esperar pelas eleições de meio de mandato para descobrir isso.
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