O “Cântico dos Cânticos” e o “Cântico Espiritual”. Comentário de Armindo Cruz

Foto: Unsplash/Valentin Rechitean

Mais Lidos

  • A voz de Leão como um ato político contra a lei de Donald Trump. Artigo de Antonio Spadaro

    LER MAIS
  • “Há uma tendência à 'israelização' das democracias liberais”. Entrevista com Francesca Albanese

    LER MAIS
  • Dossiê Fim da escala 6x1: Viabilidade econômica para a redução da jornada de trabalho no Brasil. Artigo de Isadora Scheide Muller e Cássio da Silva Calvete

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

15 Abril 2026

"Por todo o escrito do santo afloram inflamadas palavras, perfumadas expressões, coloridas imagens, que procedem do poema bíblico. Como aconteceu esta influência invasiva? Na criação lírica, o poeta carmelita vê-se atraído para a apropriação do texto bíblico por causa da invencível inefabilidade da culminante comunhão mística com Deus. Na tentativa de descrever a indizível experiência dessa união, a voz do poeta balbuciava ou emudecia", escreve Armindo Cruz, em artigo reproduzido por 7Margens, 13-04-2026.

Armindo Vaz é frade da Ordem dos Carmelitas Descalços, biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de "história de Adão e Eva": o sentido último da vida projetado nas origens (Edições Carmelo) e Criação divina sem pecado humano (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado no Boletim de Espiritualidade dos Carmelitas. O 7MARGENS o reproduz por acordo do seu autor e dos responsáveis do Boletim.

Eis o comentário.

Para o carmelita João da Cruz, a Bíblia era frequentemente a base da sua escrita. Se esta sofreu reconhecidamente influências da cultura espanhola, a mais perceptível é a influência bíblica. E, de toda a Bíblia, o livro que mais fez vibrar a veia poética e mística de João da Cruz foi o Cântico dos Cânticos, o seu favorito. Mesmo momentos antes de morrer, interrompendo os salmos das preces dos agonizantes que ele recitava alternando com os seus irmãos de hábito, para aliviar a sua agonia pediu ao prior que lhe lesse frases do livro da sua vida, o Cântico dos Cânticos: “Padre, leia-me do Cântico dos Cânticos, que isso [a encomendação da alma] não é preciso”. À sua leitura, moribundo, comentou: “Oh, que pérolas preciosas!” (testemunho em Crisógono de Jesús, Vida de S. João da Cruz; Edições Carmelo; Oeiras 1986; 476). Esse livro bíblico exerceu influência em todos os seus escritos. Mas inspirou diretamente uma obra inteira do carmelita, o Cântico Espiritual, que está impregnado de citações, do sentido do amor, da riqueza humana, do espírito, da linguagem do Cântico dos Cânticos. Algumas estrofes do Cântico Espiritual são paráfrase ou tradução livre de versículos do Cântico dos Cânticos. A canção 23:

Debaixo da macieira
Ali comigo foste desposada,
Ali te dei a mão
E foste reparada
Onde a tua mãe fora violada
é uma apropriação do Cântico dos Cânticos 8,5:
Debaixo da macieira eu te despertei;
ali onde a tua mãe sentiu as dores de parto,
ali onde sentiu as dores de parto aquela que te deu à luz.

Por todo o escrito do santo afloram inflamadas palavras, perfumadas expressões, coloridas imagens, que procedem do poema bíblico. Como aconteceu esta influência invasiva? Na criação lírica, o poeta carmelita vê-se atraído para a apropriação do texto bíblico por causa da invencível inefabilidade da culminante comunhão mística com Deus. Na tentativa de descrever a indizível experiência dessa união, a voz do poeta balbuciava ou emudecia. Então recorria ao texto bíblico para se exprimir: "Para que tudo quanto disser mereça mais fé…, não penso afirmar nada meu. Não me fiarei de experiência pessoal alguma que haja vivido, nem tampouco do que tenha visto noutras pessoas espirituais ou tenha delas ouvido. Ainda que aproveite alguma destas coisas, tudo será confirmado e explicado com citações da Sagrada Escritura, pelo menos naquilo que parecer mais difícil de compreender" (Cântico Espiritual, Prólogo, 4).

Leia mais