Eleições: O efeito de manada nas redes sociais. Artigo de Rudá Ricci

Foto: Abdias Pinheiro/SECOM/TSE | FotosPúblicas

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09 Abril 2026

Um pequeno experimento dá pistas para entender as “emoções políticas” nas redes. Diante de posições divergentes, à esquerda ou à direita, a reflexão crítica dá lugar à busca de identidades coletivas. Neste contexto, pesquisas eleitorais viram arma de reafirmação de identidades

O artigo é de Rudá Ricci, publicado por Outras Palavras, 08-04-2026.  

Rudá Ricci é cientista político formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na década de 80. Mestrado em Ciência Política pela Unicamp e Doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. Presidente do Instituto Cultiva em Minas Gerais.

Eis o artigo. 

Nas últimas duas semanas, testei algumas teses desenvolvidas pelo psicólogo e prêmio Nobel Daniel Kahneman. Fiz diversas provocações no Twitter, políticas e pessoais, procurando explorar contradições e opiniões frágeis, sem fundamento lógico, postadas no Twitter e que eram apresentadas como seguras. Ironizei as postagens de declarados lulistas e, também, bolsonaristas. Ampliei um pouco e fiz o mesmo com ativistas inclinados às posições mais progressistas e o mesmo do outro lado, a direita raivosa e discricionária.

As respostas adotaram o mesmo padrão: de incômodo, invariavelmente passavam ao tom mais agressivo. Mas, o mais interessante é que acabavam atraindo outros ativistas digitais que não haviam sido convidados. O mais surpreendente é que os não-convidados chegavam com forte agressividade, como se defendessem um irmão indefeso, e logo partiam para o escárnio e para a ofensa.

O padrão foi sempre o mesmo.

Percebi, ainda, que o número de meus seguidores passou a flutuar ao redor de 20 pessoas, para mais ou para menos. Assim, se ironizava alguém progressista por suas frágeis argumentações, logo aumentava o número de meus seguidores (imagino que mais à direita, como que se apoiando minhas opiniões). Quando fazia o mesmo para um desorientado ativista de direita, a gangorra era alterada: perdia seguidores e, logo mais, ganhava outros (imagino que saltando do lado mais de direita para o lado mais à esquerda). Sempre flutuando ao redor de uns 20. Um evidente “estouro de manada”, ainda que de pequenas proporções.

O livro de Kahneman é instigante e apresenta teses ousadas, algumas até irritantes. Uma delas é a da “ilusão de habilidade”. As pessoas se fixam em uma ou outra ideia vitoriosa e acabam cravando que se trata de habilidade ou sabedoria do vencedor quando, sustenta Kahneman, é pura sorte. O autor premiado descreve várias estatísticas, por exemplo, sobre a performance de corretores bem-sucedidos de Wall Street. Estudou a performance ano a ano de cada um dos bem-sucedidos corretores e descobriu que não havia correlação alguma entre seu desempenho. Os corretores estudavam dados das empresas que cravavam ser vitoriosas, mas que eram um nítido caso de truísmo parecido com a história da crocância da bolacha Tostines. Em outras palavras, cravavam nas empresas que já estavam com ações estáveis ou em alta a partir de dados que justamente as faziam ser vistas pelo mercado como vitoriosas. Quando os corretores arriscavam, os resultados eram os mais díspares, mas a mente só registrava os sucessos que acertaram em algo inesperado. O “gênio”, no caso, errava tanto quanto acertava, segundo as estatísticas que Kahneman.

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