10 Abril 2026
Cada pessoa pode continuar a expressar o que significa viver como pessoa ressuscitada, de acordo com as necessidades mais prementes que percebe em sua própria vida. O importante é crer que a boa nova do reino proclamada por Jesus nos foi confiada hoje e que, pelo poder do seu Espírito, permanecemos comprometidos com a sua causa.
O artigo é de Consuelo Vélez, teóloga colombiana, publicado por Religión Digital, 07-04-2026.
Eis o comentário.
Jesus ressuscitou! Este é o clamor proclamado na proclamação da Páscoa, o clamor que deu origem à Igreja primitiva. Esse mesmo clamor continua a energizar nossa fé cristã e nosso compromisso eclesial hoje. Mas o que queremos dizer quando proclamamos isso? A que nos comprometemos? O que isso pode dizer aos nossos contemporâneos que não conhecem Jesus ou que não creem em sua ressurreição?
A ressurreição não é um fenômeno extraordinário que todos possam presenciar. Alguns, ao lerem estas palavras, podem estar pensando nos relatos das aparições de Jesus às mulheres e aos discípulos após a sua morte, que afirmam que Jesus ressuscitou. Vale lembrar que os Evangelhos são textos teológicos, confissões de fé, escritos em diversos gêneros literários, como todas as obras humanas. As aparições são um gênero literário no qual, por meio de uma narrativa simples e clara, é transmitida a experiência vivida pelos discípulos: eles, que viram Jesus morrer, começam a sentir que o seu espírito continua vivo e os impele a se reunirem, a reconhecê-lo na força que sentem e, sobretudo, no irresistível chamado para continuar pregando o que o seu mestre proclamou. Essa experiência foi tão evidente e real que eles a expressam com a força do anúncio pascal: “Este Jesus, a quem vós matastes, ressuscitou e vive entre nós” (cf. At 2,36). A ressurreição de Jesus é uma experiência de fé que os discípulos nos transmitiram e que chegou até nós para que também nós possamos abraçá-la livremente e testemunhá-la.
O Espírito de Jesus não é uma ilusão, uma motivação ou uma boa intenção. É a maneira pela qual podemos sentir a sua presença em nossas vidas e, como os discípulos, crer no "sim" de Deus à vida de Jesus. É aceitar as boas novas do Reino, reconhecer os sinais da sua presença em nossa história e nos comprometer a torná-lo possível em nossa realidade. É praticar as "obras de Cristo ressuscitado", ou seja, viver como pessoas ressuscitadas.
O que significa viver como pessoas ressuscitadas? Não existem fórmulas ou receitas; em vez disso, cada pessoa e comunidade descobre isso nos sinais dos tempos que exigem uma resposta. Apontemos alguns desses sinais para o nosso tempo.
A urgência da paz é inegável. Vivemos em uma época em que o "espírito belicoso e beligerante" está ganhando força. Poderíamos pensar que, com tanta morte e devastação causadas por guerras passadas, teríamos aprendido a não instigá-las novamente. Mas parece que a sede de poder, o acúmulo de recursos naturais e a busca por interesses próprios de poucos grupos continuam a dominar o cenário mundial, e o uso da força é constantemente invocado para atingir os fins desejados. Viver como seres ressuscitados significa não desistir do esforço de construir a paz. Uma paz que exige diálogo, paciência, abertura e a capacidade de pensar em todos, não apenas em alguns escolhidos. Nunca a alcançaremos completamente, mas aqueles que professam crer no Cristo ressuscitado devem apoiar todas as atitudes e mediações que possibilitem espaços e experiências de paz.
Viver como pessoas ressuscitadas também significa tomar o lado “certo” da história, como se costuma dizer. Se olharmos para Jesus na Terra, ele sempre esteve ao lado dos necessitados, dos excluídos, de todos aqueles cujos direitos eram negados. Em tempos que constantemente invocam a competição e a lei do mais forte como mecanismo para que todos consigam o que precisam, aqueles de nós que aspiram a viver como pessoas ressuscitadas não podem desistir de lutar por justiça social, apoiando políticas, planos e projetos que melhorem as condições dos mais pobres e garantam igualdade de oportunidades para todos.
Viver como seres ressuscitados hoje implica uma preocupação e um compromisso genuínos com o cuidado de nossa casa comum. Nosso mundo não é para ser explorado, mas sim nutrido, garantindo sua sustentabilidade para que as gerações futuras possam desfrutá-lo. É crucial manter a harmonia com a criação sem destruir terras, desviar rios ou poluir habitats em nome do progresso que, a longo prazo, beneficia apenas os interesses econômicos de poucos e põe em risco a garantia da vida, tanto hoje quanto no futuro.
Viver como seres ressuscitados significa abraçar a diferença, a pluralidade e a diversidade de culturas, religiões, costumes, modos de vida e formas de se relacionar. Fomos profundamente influenciados pelas mentalidades hegemônicas que prevaleceram ao longo da história e, por essa razão, excluímos milhares de pessoas. Mas o cristianismo é precisamente a religião "católica" — isto é, universal, inclusiva, capaz de abraçar a diferença e caminhar ao seu lado. Os primeiros discípulos ultrapassaram as fronteiras de Israel e, graças a isso, sua fé também nos alcançou. Este é o momento de resgatar esse impulso inicial e vivê-lo radicalmente.
Cada pessoa pode continuar a expressar o que significa viver como pessoa ressuscitada, de acordo com as necessidades mais prementes que percebe em sua própria vida. O importante é crer que a boa nova do reino proclamada por Jesus nos foi confiada hoje e que, pelo poder do seu Espírito, permanecemos comprometidos com a sua causa. Convidar outros é a consequência lógica de sentir a presença do Cristo ressuscitado e desejar que muitos outros a experimentem. Mas, como diz a Escritura: "Como crerão se não lhes pregarem?" (Romanos 10,14). E poderíamos dizer: "Como crerão se não virem as obras do Cristo ressuscitado?". Portanto, viver como pessoa ressuscitada é tanto uma dádiva quanto uma tarefa, para tornar a ressurreição de Jesus crível e garantir que nossas ações sejam uma garantia daquilo que proclamamos.
Leia mais
- A vida prevalece! Breve reflexão de Páscoa também para não cristãos. Comentário de Chico Alencar
- Domingo de Páscoa – Ano A – Em busca da luz para um olhar Pascal na realidade de ontem e hoje. Reflexão de Lúcia Weiler, idp
- Mistério da esperança. Comentário de José Antonio Pagola
- A mão de Maria Madalena nos conduz ao Ressuscitado. Comentário de Ana Casarotti
- Ressuscitados(as), habitamos casas de portas e janelas abertas. Comentário de Adroaldo Palaoro
- Primeira Páscoa de Leão XIV: "Quem tem o poder de iniciar guerras deve escolher a paz"