“Uma prece sugestiva para este tempo litúrgico é a de Dom Hélder Câmara, arcebispo brasileiro, atuante no Concílio Vaticano II e na recepção conciliar na América Latina”.
O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestra em Filosofia pela Unisinos e mestra em Teologia pela PUCRS.
Os poetas, a seu modo, formularam inúmeros versos que nasceram do desejo de entrar em comunicação com Deus. Muitos poemas são verdadeiras orações que brotam do fundo do coração humano.
Nas tradições religiosas, variados são os modos de estabelecer esse diálogo. Na cristã, a Igreja nos ensina a rezar com a Palavra de Deus. Um caminho é a meditação da Lectio Divina, segundo o evangelho do dia. Trata-se de quatro passos (ler, meditar, rezar e agir) que, por fim, nos reconciliam não somente com Deus, mas com nós mesmos e a nossa própria história de vida, lançando-nos, pela graça, numa nova direção.
Outro método é por meio dos salmos, recitados ou cantados, amplamente usados na liturgia e na Liturgia das Horas, por meio da qual, diariamente, cristãos consagram e santificam o dia a Deus.
Para aqueles que não sabem rezar, nunca se aventuraram nesse exercício espiritual ou, ainda, esqueceram como falar com Deus, os salmos podem ser uma boa escola para começar. O saltério reúne 150 orações que manifestam a experiência humana com Deus: a oração de louvor, de agradecimento, de súplica, de confiança, de contrição, de lamentação, de protesto, de petição e de tantos outros motivos pelos quais os humanos se dirigem a Deus. Como resumiu o Papa Francisco numa catequese, em outubro de 2020, o Livro dos Salmos faz parte dos livros sapienciais, “porque comunica o ‘saber rezar’ através da experiência do diálogo com Deus. (…) Ao ler e reler os salmos, aprendemos a linguagem da oração”.
Neste tempo quaresmal, em que a Igreja nos exorta à penitência também por meio da oração, os salmos penitenciais são propícios para dar um passo em direção à reconciliação com Deus. Particularmente as súplicas, que “refletem experiências de ausência de Deus”, têm a finalidade de reestabelecer a relação do orante com Deus, segundo o teólogo franciscano Tiziano Lorenzin, ex-professor de Sagrada Escritura em Pádua, Itália.
A oração nos salmos é, pois, “um caminho de encontro com Deus, imposto não pelo homem, mas pelo Espírito, que o leva à presença divina”, como ensinou o teólogo jesuíta Luís Stadelmann, doutor em Línguas e Literatura Semíticas pelo Hebrew Union College, Estados Unidos, e autor de Os salmos da Bíblia (Paulinas; Loyola), falecido no ano passado. Entre os salmos penitenciais, Stadelmann destacava os números 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143.
O salmo 102, que data do período exílico, é um apelo dirigido Àquele que, em muitos momentos, apartamos das nossas relações:
Javé, ouve a minha prece,
que o meu grito chegue a ti!
Não escondas tua face de mim,
no dia da minha angústia.
Inclina teu ouvido para mim,
e no dia em que eu te invoco,
responde-me depressa!
Por que os meus dias se consomem em fumaça,
e meus ossos queimam como braseiro.
Pisado como relva, meu coração está secando,
e eu me esqueci até mesmo de comer o meu pão…
Outra prece sugestiva para este tempo litúrgico é a de Dom Hélder Câmara, arcebispo brasileiro, ex-secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), atuante no Concílio Vaticano II e na recepção conciliar na América Latina. À luz da tradição cristã, unido a Cristo, Dom Hélder dedicou inúmeras noites de sua vida às vigílias noturnas, em oração, leitura e meditação da Palavra de Deus. Rezou pela paz mundial e pela redemocratização do Brasil. Não excluiu ninguém do diálogo fraterno e intercedeu por um rebanho que, embora cristão, em várias ocasiões, não se rege nem pela lei de Deus nem pelos conselhos evangélicos:
Revolve-nos
Venha, Senhor!
Não sorrias,
dizendo
que já estás conosco!
Há milhões que não te conhecem.
E que basta conhecer-te,
de que adianta tua vinda,
se para os teus
a vida continua igual?
Fale conosco! Converte-nos! Revolve-nos!
Torna-te carne de nossa carne!
Sangue do nosso sangue!
Arranca-nos do comodismo
da boa consciência!
Pois só assim encontraremos a paz profunda,
a paz diferente,
a tua paz.