24 Fevereiro 2026
Para dialogar com um mundo como o dos jovens, que tende a se distanciar da instituição, precisamos de mediadores, inovadores, indivíduos que possam ser vistos como expressão de ambos os mundos, o eclesial e o juvenil. O antropólogo Francesco Ceravolo dedicou um livro à construção apologética de sua figura.
O artigo é de Marco Marzano, publicado por domani.it, 20-02-2026. A tradução de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Carlo Acutis, o jovem milanês que morreu de uma doença fulminante em 2006, com apenas 15 anos, é uma figura que rapidamente se tornou central para o catolicismo contemporâneo.
Canonizado em tempo recorde, menos de vinte anos após sua morte, São Carlos é apresentado como o "santo jovem para os jovens", a figura-chave na estratégia católica para reconquistar as gerações mais jovens seduzidas pela secularização.
O antropólogo Francesco Ceravolo dedicou um livro bem documentado à construção apologética de sua figura “Costruire un santo. Carlo Acutis influencer di Dio nell'Italia contemporânea” (Construção de um santo. Carlo Accutis, o influencer de Deus na Itália contemporânea, em tradução livre, Rubbettino 2026). Da vasta quantidade de dados apresentados por Ceravolo, quero isolar dois elementos que me parecem dignos de reflexão.
A construção
O primeiro diz respeito ao árduo trabalho de "construção da santidade", uma empreitada realizada por quem se dedica à exaltação da vida do falecido. No caso de Acutis, criou-se um impressionante corpo de apologistas, liderado pelo autor da mais importante biografia do santo e postulador da causa de canonização, Nicola Gori, e pela mãe do jovem santo, a incansável Antonia Salzano.
A esse respeito, Ceravolo não deixa de ressaltar a fragilidade e as distorções na obra de reconstrução da vida do santo de quinze anos: por exemplo, a falta de fontes claras que atestem sua genialidade na informática ou suas excepcionais competências teológicas, e as contradições não facilmente explicáveis, como aquela de uma passagem recentemente atribuída ao santo, mas que, após uma análise mais atenta, já se encontra presente, como fruto autônomo da caneta da Sra. Salzano, em um texto de alguns anos atrás.
O que é certo é que, no trabalho de exaltação da vida de Carlo, muitos eventos que pareciam insignificantes foram transformados em indícios da santidade do jovem. Para citar apenas um entre inúmeros outros: Carlo foi batizado em 18 de maio, ou seja, o dia do aniversário de Karol Wojtyla, o Papa da Eucaristia e do Rosário, e a cerimônia foi realizada em Londres, na Igreja de Nossa Senhora das Dores. Dois sinais inequívocos para os apologistas, não apenas do trágico destino de perda que, como aconteceu com a Virgem Maria e Jesus, aguardava a mãe de Carlo, mas também da antecipação de uma conexão com a aparição de Fátima, venerada naquela Igreja e à qual Carlo seria mais tarde tão devoto.
Resumindo, o que aconteceu com Carlo Acutis é o que sempre acontece nas "fábricas de santos", nesses "renascimentos da magia" dentro do catolicismo: o olhar se encanta, os sinais, as profecias, os milagres, as visões se multiplicam, a racionalidade cede lugar, para aqueles que creem, ao desejo e à admiração.
O emblema do pontificado de Francisco
O segundo elemento que a história de Acutis sugere é insinuado nas páginas iniciais do livro de Ceravolo e é a profunda ligação do jovem santo com o pontificado de Bergoglio. O Papa, que faleceu poucos dias antes da canonização de Carlos (posteriormente adiada), foi seu mais fervoroso defensor, a ponto de citá-lo extensamente na exortação apostólica Christus Vivit de 2019 e em muitas outras ocasiões mais ou menos solenes.
De muitas maneiras, o jovem santo foi um emblema de seu pontificado e um testemunho perfeito de uma concepção de fé firmemente ancorada nos valores simples da tradição católica e da religiosidade popular: aquela das adorações eucarísticas, da oração constante e da moralidade simples e rigorosa.
Gostaria de concluir mencionando um tema não presente no livro, mas fundamental para avaliar o caso de Acutis. De forma bem direta: até que ponto servirá o "santo da internet" para a Igreja? Em outras palavras, o quanto a figura de Acutis permitirá à Igreja estimular a espiritualidade dos jovens, aproximando-os da instituição? Eu acredito que muito pouco, se não mesmo nada. E a razão é fácil de explicar: para dialogar com um mundo como aquele juvenil, que tende a se distanciar da instituição, precisamos de mediadores, inovadores, indivíduos que possam ser vistos como expressão de ambos os mundos, o eclesiástico e o juvenil. O Carlo "construído" por seus hagiógrafos, do mundo juvenil contemporâneo tem, basicamente, a vestimenta: os tênis e o moletom ainda visíveis hoje no santuário que abriga seu corpo. Todo o resto vem de um passado distante: a rígida censura à sexualidade, a paixão pelas missas e pela oração, o tradicionalismo inflexível em questões teológicas e morais. Em suma, São Carlos Acutis é o retrato do perfeito bom garoto católico idealizado por muitos adultos. De uma ponte para os jovens, não existe nenhum vestígio.
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