"Eles me atacam para que não se fale de Palestina". Artigo de Francesca Albanese

Foto: Esquerda.net/Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Jesuíta Reese sobre Trump: Um desastre para os Estados Unidos e para o mundo inteiro

    LER MAIS
  • “Alter Christus”: uma breve história de uma expressão ambígua. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • "O bem comum não é uma propriedade privada". Entrevista com Gaël Giraud

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

20 Fevereiro 2026

"Quando uma análise jurídica independente, baseada em provas documentadas, pode ser tão facilmente substituída por representações distorcidas, todo o debate público torna-se vulnerável à manipulação. O direito internacional exige provas, interpretação e aplicação rigorosa", adverte Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU para o território palestino ocupado, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 19-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo. 

Há mais de dois anos, um mecanismo cada vez mais evidente domina o discurso público em torno do meu mandato como Relatora Especial das Nações Unidas sobre o território palestino ocupado. É cada vez mais alvo de corrosivas polêmicas habilmente criadas. Não são as críticas que me preocupam: o escrutínio é legítimo. O dissenso é previsível, sem exceção ou quase: no mundo dos direitos humanos, apenas aqueles que desempenham seu trabalho mal ou pouco recebem poucas críticas. O que é novo — e corrosivo — no meu caso, por intensidade e constância, é a distorção sistemática do meu mandato, da minha atuação e das minhas declarações a fim de fabricar escândalos e desacreditar minha contribuição como especialista independente da ONU em direitos humanos. Sou a oitava pessoa e a primeira mulher a ocupar esse cargo, conferido pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, que consiste em investigar as violações do direito internacional no território palestino ocupado por Israel desde 1967. A atenção sobre Israel não é uma escolha minha nem uma obsessão pessoal, mas sim o escopo do meu mandato. Meus colegas que atuam no Afeganistão ou no Irã não são acusados de serem "obcecados" ou "monotemáticos" porque conduzem investigações sobre o país objeto de seu mandato. Por que, então, não trato também de Hamas ou da Anp? Trato deles em medida proporcional ao que observo.

A Resolução 1993/2A da ONU, de 1993, que institui o meu mandato, refere-se a Israel como uma potência ocupante e aos direitos sem proteção dos palestinos sob ocupação. Portanto, é natural que Israel seja o principal objeto de escrutínio no território sobre o qual exerce autoridade.

Eu documento os fatos e expresso minhas opiniões com base no direito. Meus críticos argumentam que o foco em Israel é um sintoma de parcialidade da ONU e de falta de neutralidade.

Em julho de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça afirmou definitivamente que a presença de Israel no território palestino ocupado é ilegal e deve cessar de forma peremptória e incondicional. O prazo para o cumprimento dessa obrigação era setembro de 2025. O tribunal também constatou discriminação sistêmica, violações da proibição da segregação racial e apartheid, juntamente com políticas de anexação. Não se trata de slogans ativistas, mas de conclusões jurídicas. Durante meu mandato, documentei o direito à autodeterminação do povo palestino, ainda privado de independência e proteção, dedicando a isso meu primeiro relatório em setembro de 2022. Nos relatórios subsequentes, documentei a privação sistemática e arbitrária de liberdade que afeta os palestinos há gerações, bem como a situação da infância palestina.

Contudo, foi minha análise sobre a cumplicidade das empresas no genocídio que provocou a reação mais dura, levando os Estados Unidos a impor sanções contra mim. Em meu relatório mais recente, descrevi o genocídio em Gaza como um crime coletivo, apoiado pela participação direta, a ajuda e a assistência de outros Estados, parte de um sistema de cumplicidade global. Inclusive da Itália. Aliás, na primeira fila. Entre os citados estão Estados que hoje me atacam abertamente, desviando a atenção do genocídio em curso em Gaza há mais de 860 dias e do regime de apartheid colonial que continua a se expandir em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, afetando todo o povo palestino.

Meu trabalho segue os passos de meus antecessores, como John Dugard, Richard Falk e Michael Lynk, que por mais de vinte anos documentaram políticas descritas como apartheid, sendo chamados de "antissemitas" e "apoiadores do terrorismo".

As conclusões do trabalho sobre os direitos humanos, independentemente do autor, são inconvenientes, porque a verdade jurídica, quando impacta relações de poder consolidadas, inevitavelmente o é. A mais recente campanha contra mim faz parte de uma estratégia de décadas: silenciar, intimidar e deslegitimar qualquer pessoa que defenda os direitos do povo palestino. Operações de difamação semelhantes já atingiram outros relatores especiais sobre a Palestina no passado, por meio da atribuição de declarações manipuladas ou falsas, com o objetivo de obter sua remoção, por grupos como o UN Watch, que aparentemente foi o primeiro a divulgar o vídeo manipulado contra mim. Há anos, esses atores promovem narrativas que tendem a silenciar a realidade palestina e, ao mesmo tempo, a atenuar ou justificar as violações atribuídas a Israel. Atores frequentemente considerados marginais por diplomatas e funcionários da ONU em Genebra são, em vez disso, vistos como fontes confiáveis em algumas capitais europeias, influenciando o debate político e contribuindo para minar a confiança nas instituições multilaterais.

Quando uma análise jurídica independente, baseada em provas documentadas, pode ser tão facilmente substituída por representações distorcidas, todo o debate público torna-se vulnerável à manipulação. O direito internacional exige provas, interpretação e aplicação rigorosa.

A adesão ideológica é irrelevante. Quando o confronto é substituído por fragmentos montados para provocar indignação, torna-se impossível abordar a essência das acusações — precisamente no momento em que graves violações dos direitos humanos e até mesmo hipóteses de genocídio estão sendo submetidas à avaliação das mais altas jurisdições internacionais.

Mas, em muitas capitais ocidentais, a essência jurídica das conclusões formuladas no âmbito do mandato raramente é abordada. A atenção concentra-se na pessoa. Trechos de discursos são extraídos, contextos são omitidos, tons são alterados, insinuações destinadas a provocar indignação são disseminadas.

O casus belli do meu discurso em Doha, após dezenas de casos semelhantes, permitiu que a manipulação fosse desmascarada e tivesse grande repercussão devido ao absurdo das acusações, às personalidades envolvidas (o Ministro das Relações Exteriores francês) e à veemência dirigida contra mim.

Mas a questão premente não é pessoal: é estrutural. Não é uma coincidência: é um método. Essa técnica foi usada para insinuar que eu teria justificado as atrocidades de 7 de outubro, negando crimes como a violência sexual ocorrido naquele dia terrível, ou minimizaram o sofrimento dos reféns e de suas famílias. Nada disso corresponde à verdade. É impressionante, no entanto, que os políticos que dedicam tempo e energia a atacar a minha pessoa não tenham reservado nem uma fração dessa veemência para aqueles que admitem que 75 mil pessoas foram mortas em Gaza e são acusados de crimes internacionais perante os principais tribunais internacionais.

A crítica é um elemento essencial da democracia. A mentira a corrói. Numa fase em que as instituições globais estão sob crescente pressão, as escolhas realizadas hoje impactarão de forma determinante sua credibilidade futura. 

Leia mais