15 Fevereiro 2026
"O verdadeiro discernimento moral exige muito mais do que seguir regras milenares. Exige formar nossa consciência, estudar as Escrituras, discernir com os outros e purificar nosso coração".
A reflexão sobre o Evangelho do domingo, 15-02-2026, é Ariell Watson Simon, publicada por New Ways Ministry, 15-02-2026.
Ariell Simon, M.Div., BCC (ela/dela) é uma capelã de saúde certificada que vive, escreve e atua na região central do Missouri. Ela ingressou na Igreja Católica em 2011, enquanto cursava a graduação na Universidade Loyola de Maryland, e posteriormente obteve um mestrado em Divindade pela Escola de Teologia e Ministério Clough do Boston College.
Ariell trabalha atualmente como capelã na Valley Hope Association, onde oferece assistência espiritual a pessoas em recuperação inicial do vício em drogas e álcool. Ela também aprecia oferecer direção espiritual, escrever e fomentar uma imaginação teológica para uma igreja inclusiva. Ariell vive em uma propriedade de 24 hectares de bosques e pastagens com sua esposa, seus sogros e uma variedade de animais selvagens.
Eis o artigo.
“Não estou te tocando!” diz a criança alegremente, mexendo os dedos a centímetros do irmão, que continua a gritar. Talvez você se lembre de ser essa criança, encantada por encontrar uma brecha que lhe permitia continuar importunando um irmão, enquanto tecnicamente seguia as instruções. Talvez você tenha sido esse pai ou mãe, exasperado(a) porque a ordem clara de “dar espaço ao seu irmão” foi interpretada de forma muito restritiva. Como sabemos desde a infância, há uma grande diferença entre obedecer à letra da lei e cumprir o seu espírito.
Na porção do Sermão da Montanha lida no lecionário deste domingo, (Mateus 5, 17-37) Jesus aborda essa distinção. Ele denuncia a hipocrisia daqueles que, como crianças travessas, cumpriram tecnicamente os mandamentos de Deus, enquanto contornavam os verdadeiros limites que eles foram instituídos para proteger. Jesus chama seus seguidores a olhar além da letra da lei para compreender o seu espírito.
Em meio a essa mensagem, Jesus faz uma ressalva:
Não pensem que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas cumprir. A verdade é que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til da Lei será revogado, até que tudo seja cumprido.
Esta é a advertência de Jesus contra a correção excessiva. Por um lado, ele proclama a importância de não nos prendermos aos detalhes da lei religiosa; por outro, deixa claro que não podemos descartar as regras por completo. A mensagem de graça, perdão e acolhimento de Jesus não deve ser confundida com frouxidão moral, como se o amor incondicional de Deus significasse que nosso comportamento não importa. Em vez disso, a lei do Amor nos impõe um padrão mais elevado do que nunca. Este código prescreve não apenas ações corretas, mas também relacionamentos corretos.
Por muito tempo, os mandamentos bíblicos sobre atividade sexual foram reduzidos a regras legalistas, usadas para traçar linhas nítidas entre o que é permitido e o que é proibido. Durante minha criação na "cultura da pureza" dos anos 90 e início dos anos 2000, fui ensinado que a expressão sexual pertencia ao casamento heterossexual e que qualquer expressão sexual fora desse contexto era errada. Com a homossexualidade sendo considerada o maior pecado sexual, uma infinidade de males era tolerada.
Hoje, ao ler as revelações dos arquivos de Epstein, penso em quanto desse comportamento repreensível se enquadra tecnicamente na "letra da lei", segundo os mandamentos levíticos. Afinal, as Sagradas Escrituras não contêm nenhuma proibição explícita de relações sexuais entre adultos e jovens púberes, o que era normativo na época. Elas fornecem algumas regulamentações sobre a sexualidade de escravos, mas pressupõem um sistema no qual homens poderosos têm acesso a jovens mulheres que compram e vendem. Tudo isso é tecnicamente permitido, de acordo com a letra da antiga lei religiosa. E, no entanto, nossa repulsa instintiva indica o quão profundamente essas práticas violam o desejo de Deus.
Ao avaliarmos a depravação sexual nos mais altos escalões da nossa sociedade, é hora de reexaminarmos como entendemos os mandamentos de Deus sobre o comportamento sexual. A abordagem da "letra da lei" falhou em cultivar uma compreensão mais profunda da relacionalidade, da dinâmica de poder, do consentimento, dos limites e da série de outros fatores que deveriam ser incluídos na ética sexual da igreja. Como podemos aproveitar esses fatores que refletem o espírito da lei?
Pessoas LGBTQ+ de fé têm uma perspectiva única para contribuir com essa conversa, fruto de décadas de reflexão sobre as proibições bíblicas, buscando compreender seu significado mais amplo. Nosso testemunho de fé demonstra que, por meio do relacionamento com Deus e da participação na comunidade cristã, o Espírito Santo molda nossa consciência. E a consciência formada e informada, por sua vez, nos instrui sobre como cumprir o espírito das leis de Deus.
A leitura do Evangelho deste domingo nos convida a refletir mais profundamente sobre a moralidade. Após décadas de revelações de abuso sexual clerical, do movimento #MeToo e dos arquivos de Epstein, é hora de examinarmos mais atentamente o que as Escrituras ensinam sobre sexualidade. Precisamos reler as passagens que evitamos devido a traduções homofóbicas, como 1Coríntios 6:9 e 1Timóteo 1:10. Depois de anos usando essas passagens para discriminar pessoas LGBTQ+, a Igreja agora tem a oportunidade de reinterpretá-las à luz dos estudos contemporâneos e acolhê-las como as injunções contra a pedofilia e o abuso sexual que realmente são.
O verdadeiro discernimento moral exige muito mais do que seguir regras milenares. Exige formar nossa consciência, estudar as Escrituras, discernir com os outros e purificar nosso coração. Ao nos esforçarmos para isso, unimo-nos ao salmista em oração:
Instrui-me, ó Deus, no caminho dos teus estatutos,
para que eu possa observá-los com precisão.
Dá-me discernimento, para que eu possa observar a Tua lei.
e o guardo de todo o meu coração. (Salmo 119, Lecionário Inclusivo)