"Tornemo-nos morada da Palavra, que é fonte de unidade entre as Igrejas". Entrevista com Paolo Bovati

Foto: Duncan Sanchez/Unsplash

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09 Fevereiro 2026

Já se passaram sete anos desde que o Papa Francisco, com a carta apostólica Aperuit illis de 2019, na forma de motu proprio, estabeleceu no calendário litúrgico que o terceiro domingo do Tempo Comum, celebrado agora, se torne um dia inteiramente dedicado à Sagrada Escritura. Um encontro, este do Domingo da Palavra — assim almejava o Papa Bergoglio — que foi criado para "promover no povo de Deus uma familiaridade religiosa e assídua com as Sagradas Escrituras". O jesuíta e exegeta Pietro Bovati, discípulo direto do Cardeal Carlo Maria Martini e ex-secretário da Pontifícia Comissão Bíblica (de 2014 a 2020), faz uma avaliação positiva dessa celebração. Mas se diz convencido de que ainda há muito a ser feito para que esse domingo se torne parte do alfabeto comum de cada fiel.

"Como toda instituição oficialmente promovida pela autoridade religiosa, o Domingo da Palavra de Deus teve resultados variados", observa ele, "dependendo das tradições das dioceses e do empenho dedicado pelos pastores em suas paróquias. Certamente não basta que a centralidade espiritual da Sagrada Escritura seja proclamada 'uma vez por ano', mas sim que esse domingo seja 'uma vez por todo o ano' (Aperuit illis, n. 8), inspirando assim um impulso pastoral programático, para que a Palavra de Deus se torne familiar, íntima e amada pela assembleia dos fiéis."

A entrevista é de Filippo Rizzi, publicada por Avvenire, 24-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O título sugerido para esta sétima edição é: "Que a Palavra de Cristo habite entre vocês" (Colossenses 3,16). Será que essa solene recomendação de São Paulo ajudará os fiéis a redescobrir a primazia das Escrituras em suas vidas?

A citação de São Paulo é realmente significativa; ele pede àqueles a quem se dirige que se tornem a morada da Palavra divina, recebendo-a ‘em sua riqueza’ (Colossenses 3,16); de fato, nenhum crente pode afirmar ter assimilado completamente o dom da Revelação divina, mas deve antes considerar-se um discípulo que escuta constantemente o Senhor, a fim de obedecer ao seu plano de amor. O Apóstolo coloca ‘a Palavra de Cristo’ em primeiro plano, porque nela a manifestação da verdade e da salvação de Deus se cumpre; mas é por meio do conhecimento de todas as Escrituras que conhecemos plenamente o mistério de Cristo, como nos ensina o Ressuscitado, que ‘abriu o entendimento’ dos seus discípulos (Lucas 24,45) e ‘começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras’ (Lucas 24,27).

Para favorecer a acolhida pessoal da Palavra, devemos também lembrar que ela é o princípio da alegria espiritual; Jesus, de fato, disse: ‘Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam’ (Lucas 11,28).”

Por que, em sua opinião, é tão importante para a Igreja Católica celebrar esse domingo tão especial no início do ano?

Em sua longa tradição de catequese e pregação, a Igreja Católica tem privilegiado a abordagem dogmática. Antes do Concílio Vaticano II, a Bíblia era, de fato, pouco conhecida; em alguns círculos, era até mesmo considerada a natureza específica (problemática) das igrejas evangélicas, enquanto em nossa Igreja, a ênfase era colocada no ensinamento do Magistério, nos sacramentos e nas devoções populares. Creio, portanto, que é necessário assumir com paciência uma mudança que exige sabedoria e empenho contínuos. A instituição do Domingo da Palavra torna-se, portanto, significativa. E a missão de evangelização – que é tarefa de todos os fiéis e não apenas dos ministros sagrados – é promovida de forma planejada. O Domingo da Palavra poderá incentivar o empenho, a começar pela promoção da prática da lectio divina, recomendada por ilustres mestres e Papas recentes; a oração nasce da Escritura e acolhe frutos preciosos de conhecimento e alegria.

A carta apostólica Aperuit illis (2019) se coloca em continuidade com a constituição dogmática Dei Verbum do Vaticano II (1965) e com a exortação apostólica Verbum Domini (2010) do Papa Bento XIV. Quais inovações podem ser destacadas?

A Dei Verbum teve o mérito de colocar a Bíblia no centro da liturgia, favoreceu os estudos bíblicos e uma renovação substancial na catequese baseada no texto da Sagrada Escritura. Por sua vez, a Verbum Domini insistiu na interpretação religiosa do texto sagrado e recordou o valor performativo da Palavra de Deus, especialmente na ação litúrgica. Tudo isso é reafirmado na carta apostólica Aperuit illis do Papa Francisco, com a força de uma comunicação experiencial. Além disso, ao inserir a celebração do Domingo da Palavra no oitavário de oração pela unidade dos cristãos, enfatiza-se a fonte que é o princípio da unidade de todas as Igrejas: ‘a Palavra de Deus une os fiéis e os torna um só povo’ (Aperuit illis, n.º 5). A regeneração da fé nos fiéis católicos, operada pela Palavra viva de Deus (1 Pedro 1,23), também almeja o restabelecimento de uma unidade entre os irmãos em Cristo, realizada pelo poder espiritual da divina Escritura.

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