09 Fevereiro 2026
O país sul-americano, que possui enormes reservas de grafite, nióbio e níquel, mantém contatos com Washington e Bruxelas e quer ir além da extração.
A reportagem é de Naiara Galarraga Gortázar, publicada por El País, 23-01-2026.
Entre os recursos naturais pouco ou nada explorados pelo Brasil, os minerais críticos e os elementos de terras raras ganharam destaque nos últimos meses. Esses materiais são cada vez mais cobiçados globalmente por serem essenciais para alcançar autonomia estratégica, segurança nacional e a criação de uma nova economia verde. Os Estados Unidos e a União Europeia, entre outros, estão cortejando o país sul-americano com o objetivo de chegar a um acordo para compartilhar esse tesouro. O Brasil “está entre os dez maiores produtores de níquel, manganês, nióbio, minério de ferro e bauxita” e tem ganhado terreno rapidamente na “produção de lítio, grafite natural, elementos de terras raras, vanádio e cobre”, detalha um relatório da consultoria PwC.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva está cortejando propostas que o tornariam um ator estratégico nessa nova corrida – como a corrida do ouro antes dela e a corrida do petróleo agora – por esses recursos minerais disputados. O presidente enfatizou que seu país não quer ser um mero fornecedor de matérias-primas estratégicas, mas sim participar da promissora cadeia de valor.
O Brasil possui a segunda maior reserva de elementos de terras raras, os 17 elementos químicos mais críticos para a transição energética e essenciais para turbinas eólicas e veículos elétricos de alta potência. Enquanto a China detém aproximadamente 44 milhões de toneladas, o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas e a Índia quase 7 milhões de toneladas, de acordo com o relatório da PwC mencionado anteriormente, "Brasil na Era dos Minerais Críticos". Entre os minerais críticos do Brasil, destacam-se as reservas de grafite (26% do total mundial), nióbio (mais de 90%), níquel (12%) e lítio (5%).
As estimativas indicam que a demanda global por grafite poderá quadruplicar e a de elementos de terras raras poderá triplicar até 2040, caso os países busquem atingir as metas estabelecidas no Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.
O principal obstáculo do Brasil na exploração desses recursos cobiçados é que, até o momento, o país tem se concentrado na extração e exportação, deixando as fases de maior valor agregado nas mãos de terceiros. Outro estudo recente, Minerais Estratégicos no Brasil: Oportunidades de Produção e Integração ao Mercado Global, da Fundação Getúlio Vargas, afirma que o país “tem a oportunidade de se posicionar como um fornecedor confiável”, mas aponta uma série de dificuldades para concretizar esse potencial: “A ausência de projetos de terras raras em larga escala, a baixa participação no refino, as dificuldades de financiamento e as incertezas regulatórias aumentam o risco de o país perder a janela de oportunidade” que se abriu diante da crescente demanda e do desejo de diversificar um fornecimento praticamente monopolizado pela China.
A gigante sul-americana já é uma das principais fornecedoras mundiais de minério de ferro, nióbio — do qual detém 90% das reservas, controladas pelos irmãos Moreira Salles, incluindo o diretor vencedor do Oscar Walter Salles — bauxita, cobre, manganês, aos quais se adicionou recentemente o lítio do vale do Jequitinhonha.
Portanto, o governo brasileiro está ouvindo atentamente as propostas de outros países e se mostra aberto à colaboração. As equipes de Donald Trump e Lula já realizaram reuniões preliminares para discutir elementos de terras raras, em decorrência das negociações mais amplas que estão conduzindo a respeito das tarifas impostas pelos EUA ao Brasil, as quais foram parcialmente flexibilizadas no final de 2025. O interesse dos EUA é tamanho que o Secretário de Estado Marco Rubio convocou um encontro com diversos países para o dia 4 de fevereiro, em Washington, para discutir esses valiosos minerais. A vizinha Argentina, aliada próxima de Trump, anunciou prontamente sua participação.
Os contatos com a União Europeia são ainda mais incipientes. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deixou claro o interesse de Bruxelas nos minerais críticos do Brasil na semana passada, no Rio de Janeiro, durante sua participação ao lado do presidente Lula para celebrar o acordo comercial UE-Mercosul . Bruxelas pretende chegar a um acordo com Brasília para cooperar "em projetos conjuntos de investimento em lítio, níquel e elementos de terras raras". Von der Leyen enfatizou a necessidade de a União Europeia alcançar independência estratégica, especialmente em um momento em que "os minerais tendem a se tornar um instrumento de coerção". Um de seus vice-presidentes, Stéphane Séjourné, tem uma visita agendada ao Brasil em breve para iniciar as negociações.
Um relatório abrangente do Instituto Brasileiro de Mineração, que representa empresas do setor, afirma que “com reservas de mais de cem substâncias minerais, o Brasil está em pé de igualdade com potências minerais como Austrália, Canadá, Rússia, China e África do Sul”. E, com um exemplo simples, coloca a demanda global em perspectiva. Enquanto a fabricação de um carro convencional requer cerca de 100 gramas de elementos de terras raras, um carro elétrico requer entre um e quatro quilos.
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