24 Janeiro 2026
Quase 400 milionários de 24 países assinaram uma carta aberta dirigida aos líderes mundiais reunidos na cidade suíça, criticando “a extrema concentração de riqueza” e o impacto negativo de Trump.
A reportagem é de Jorge Otero, publicada por Público, 21-01-2026. A tradução é do Cepat.
Todos os anos acontece a mesma coisa: enquanto os líderes mundiais - políticos e magnatas de grandes corporações - comparecem à reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), para dizer aos outros como enxergam o mundo, outros lembram, de fora, que esse mundo não está funcionando muito bem.
Está aí, por exemplo, a ONG Oxfam Intermón, que todos os anos, coincidindo com Davos, publica seu relatório habitual sobre a distribuição de riqueza no mundo. Publicado na última segunda-feira, o relatório da ONG alerta que os bilionários, cerca de 3.000 pessoas em todo o mundo, aumentaram suas riquezas em 81%, desde 2020. Em relação à Espanha, o relatório da Oxfam Intermón afirma que foi “um ano histórico para o capital" e que, em média, os bilionários do país ganharam mais de 77 milhões de euros por dia, enquanto “os salários perdem peso na economia e crescem abaixo do aumento do custo de vida”.
A Oxfam Intermón não é a única organização que aproveita Davos para denunciar os abusos do capitalismo. Também é comum a Patriotic Millionaires (Milionários Patriotas), uma organização que reúne milionários de países do G-20, mas principalmente dos Estados Unidos e do Reino Unido, e que defendem que ricos como eles paguem mais impostos, publicar uma carta aberta nesta época, convidando os representantes políticos a agirem contra os excessos do capitalismo e a extrema concentração de riqueza na sociedade.
Coordenada por Patriotic Millionaires, Millionaires for Humanity e Oxfam Intermón, e assinada por quase 400 pessoas milionárias e bilionárias de 24 países, entre elas, Mark Ruffalo, Brian Cox, Brian Eno e Abigail Disney, a carta, intitulada “Hora de vencer”, interpela diretamente aos 60 chefes de Estado ou de Governo, reunidos no Fórum de Davos, e exige que eles “construam um futuro mais justo por meio de uma tributação maior dos super-ricos”.
“É evidente que estamos à beira do precipício. Até mesmo pessoas milionárias como nós reconhecem que a extrema concentração de riqueza supõe que o restante perca tudo. Não podemos seguir assim. Queremos recuperar nossas democracias. Queremos recuperar nossas sociedades. Queremos recuperar nosso futuro”, diz a carta.
De fato, há anos, a organização Patriotic Millionaires pede “soluções para a crise global” e ergue a voz para exigir uma tributação efetiva dos mais ricos.
A carta aberta geralmente é acompanhada por uma pesquisa encomendada e financiada pela própria organização. A pesquisa deste ano, realizada com 3.900 pessoas milionárias dos países do G-20, revela que seis em cada dez destacam o impacto negativo do presidente Trump sobre a estabilidade econômica mundial. Além disso, o estudo também aponta que 77% consideram que os super-ricos - por exemplo, os magnatas da tecnologia que apoiam Trump - usam sua imensa riqueza para comprar influência política.
As pessoas milionárias consultadas pela organização Patriotic Millionaires também se mostram abertamente críticas a Donald Trump: seis em cada dez o consideram prejudicial tanto para a estabilidade econômica mundial, quanto para o poder de compra das pessoas comuns. Seu mandato se apresenta como um sinal claro de alerta para o resto do mundo sobre o tipo de poder exercido pelos mais ricos, embora esse fenômeno não seja exclusivo dos Estados Unidos.
A pesquisa também revela outros dados interessantes: 82% dos milionários entrevistados consideram que as doações recebidas de particulares por representantes e partidos políticos para financiar suas campanhas e atividades deveriam ser limitadas. Além disso, 62% opinam que a extrema concentração de riqueza constitui uma ameaça à democracia.
Por outro lado, 69% consideram que a influência exercida pelos mais ricos sobre a classe política impede a adoção de medidas para acabar com a desigualdade. Apenas 17% se opõem ao aumento de impostos aos mais ricos para financiar políticas públicas.
Quem melhor resume o espírito da organização Patriotic Millionaires é um de seus membros, o ator Mark Ruffalo: “Se os líderes reunidos em Davos levarem a sério as ameaças à democracia e ao Estado de Direito, devem se comprometer a lutar contra a extrema concentração de riqueza e, sem dúvida, fazer com que pessoas tão ricas como eu paguem mais impostos. Se escolhemos democracia frente a oligarquias, a solução começa com mais impostos aos mais ricos e com a devolução do poder ao cidadão”.
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