O que há de novo, Davos?

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21 Janeiro 2026

Davos não é o lugar onde se evita o abismo, é o lugar onde se aprende a conviver com ele, a administrá-lo, a tirar proveito dele, sem cair dentro. É a sala de controle simbólico de um sistema que sabe que está em crise, mas que não está disposto a deixar de ser o que é”, escreve Fernando Buen Abad Domínguez, filósofo mexicano, em artigo publicado por La Jornada, 20-01-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Davos é um ritual anual de acasalamento simbólico (e não só) entre capitais, estados e corporações. Davos, e seu encontro de hierarcas do Fórum Econômico Mundial, de 19 a 23 de janeiro de 2026, não começa com seus discursos, mas com sua cenografia: um vale alpino pulcro, blindado, coberto de neve, onde o frio serve como metáfora da distância social e moral entre aqueles que decidem e aqueles que sofrem.

Davos é antes um sinal que um evento. Um sinal que se repete a cada ano para reafirmar uma ideia central do capitalismo tardio: o mundo está em crise, mas a crise se administra melhor de salas aquecidas, com credenciais e uma linguagem que simula preocupação, enquanto protege interesses.

Falar de Davos é ler um texto carregado de símbolos hegemônicos, silêncios e gestos calculados, onde o significado nunca coincide completamente com o que se diz. O lema deste ano é “A spirit of dialogue” (Um espírito de diálogo), e seu objetivo é fomentar a cooperação e conversas francas, em um mundo cada vez mais dividido.

Será um “encontro à beira do abismo”, e isso não é uma fórmula retórica. O abismo surge como um fenômeno natural, quase geológico, não como o resultado histórico de políticas extrativistas, guerras planejadas lucrativas, pilhagens financeiras e devastações sociais.

Ninguém em Davos diz: “Nós cavamos este abismo”. Diz-se: “O mundo enfrenta riscos”; “A humanidade vive tensões”; “A incerteza aumenta”. O sujeito se dilui, a responsabilidade se evapora, o sistema fica intacto. Sua cenografia opera como anestesia, suas palavras adormecem o público, seus conceitos desativam o conflito de classes, suas narrativas transformam a catástrofe do capitalismo em um problema técnico de gestão.

Muitos mercadores de guerras não chegarão com botas e fuzis, mas com trajes escuros e powerpoints. Falarão de “segurança”, “estabilidade regional”, “reconstrução”, “indústria de defesa”. Cada palavra como eufemismo cuidadosamente polido para ocultar o sangue por trás do balanço.

As guerras, vistas em Davos, não são uma tragédia, mas uma oportunidade de investimento. Um mercado emergente. Falarão de contratos, inovação tecnológica, alianças estratégicas. A semiótica bélica do fórum transforma a morte em uma externalidade e a destruição em indicador de crescimento.

Estarão presentes os enganadores midiáticos em série. São os intérpretes oficiais do sentido. Traduzem o cinismo em otimismo, a ganância em liderança, a pilhagem em reforma. Apresentam Davos como um espaço plural, diverso, dialógico, quando na realidade é um coro afinado em torno de uma única partitura: a continuidade da ordem existente. O pluralismo é cenográfico. A semiótica midiática de Davos consiste em mostrar debate onde há consenso estrutural, e diversidade onde há homogeneidade ideológica.

Participarão os abutres financeiros que sempre sobrevoam o fórum como aves sagradas do capital. Não precisam falar muito; sua linguagem é o movimento invisível dos mercados, as expectativas, as classificações de risco. Ali, negociam-se futuros que não pertencem àqueles que os viverão. Países inteiros parecem reduzidos a gráficos, populações transformadas em variáveis, direitos transformados em custos. O abismo, para eles, não é um perigo, mas uma vantagem competitiva; quanto mais profunda a crise, mais barata a oportunidade.

Davos funciona como um grande dispositivo de legitimação. Não produz decisões vinculantes, mas produz sentido. E o sentido é poder. Define o que é um problema e o que não é, o que é urgente e o que pode esperar, quem fala com autoridade e quem fica de fora. A pobreza é debatida, mas nunca como consequência necessária da riqueza concentrada. A desigualdade preocupa, mas não o suficiente para alterar a estrutura que a reproduz. Tudo é dito em uma linguagem que simula autocrítica, sem tocar no cerne do sistema.

Seu “espírito de diálogo”, outro exercício de sinais ameaçadores. Diálogo entre quem? Os povos não dialogam com aqueles que decidem sobre seus recursos. As elites dialogam entre si, negociando nuances, não fundamentos. É um diálogo endogâmico, autorreferencial. A semiótica do diálogo em Davos é profundamente antidemocrática porque confunde a conversa entre poderosos com deliberação coletiva.

O que esperar, então, deste encontro à beira do abismo? Não soluções estruturais, mas narrativas tranquilizadoras. Não justiça, mas filantropia cosmética. Davos não é o lugar onde se evita o abismo, é o lugar onde se aprende a conviver com ele, a administrá-lo, a tirar proveito dele, sem cair dentro. É a sala de controle simbólico de um sistema que sabe que está em crise, mas que não está disposto a deixar de ser o que é.

Davos, lido criticamente, torna-se uma evidência. Demonstra com clareza obscena a desconexão entre o poder global e a vida dos povos. Exibe a obscenidade de um mundo onde aqueles que falam em salvar o planeta chegam em jatos particulares, aqueles que falam de paz investem em armas, aqueles que falam de igualdade acumulam fortunas inimagináveis.

Uma das batalhas centrais é semiótica: quem nomeia o mundo, com quais palavras, em benefício de quem? Davos é uma fábrica de nomes falsos. Chamam de “crise” o que é pilhagem, de “risco” o que é injustiça planejada, de “futuro” o que é a repetição ampliada do desastre.

Enquanto os mercadores de guerras, os enganadores midiáticos e os abutres financeiros continuarem monopolizando o sentido, o mundo seguirá à beira do abismo, não por fatalidade, mas por esboço. O perigo não é Davos em si, mas a naturalização de sua narrativa como se fosse a única possível. Diante disso, a semiótica crítica não é um luxo acadêmico; é uma ferramenta de sobrevivência simbólica. Quem controla o significado, controla o rumo. E Davos sabe disso.

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