15 Janeiro 2026
O empresário Joesley Batista foi à Venezuela, pela segunda vez em dois meses, para se reunir com o governo do país. O Brasil de Fato confirmou com fontes diplomáticas que ele esteve em Caracas para um encontro com a presidenta interina, Delcy Rodríguez, dias depois do ataque e do sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. O dono da JBS conseguiu abrir diálogo com a cúpula chavista depois de anos de negócios com o país caribenho.
A reportagem é de Lorenzo Santiago, publicada por Brasil de Fato, 14-01-2026.
Os negócios de Joesley Batista na Venezuela tiveram início em 2015. Na ocasião, a JBS batia lucros recordes no Brasil e chegou a faturar R$ 4,6 bilhões. A empresa produtora de alimentos, especialmente carne, já tinha exportações para outros países latino-americanos, mas seu principal comprador eram os Estados Unidos. Aquele ano também foi o primeiro ano do aumento das sanções estadunidenses sobre a Venezuela.
O bloqueio que começou sob Barack Obama levou a economia do país para uma crise sem precedentes. Proibido de vender petróleo, o país viu reduzir a entrada de dólares, limitando a capacidade de importar produtos. A crise foi ainda maior quando empresários venezuelanos e estrangeiros passaram a boicotar Caracas e bloquearam a entrada de produtos de necessidade básica nas fronteiras.
Esse cenário levou a uma escassez de alimentos e produtos industrializados na Venezuela. Foi aí que Joesley entrou em cena e ganhou notoriedade no país vizinho. A JBS passou a ter contratos exclusivos com o governo venezuelano para a exportação de alimentos a partir de 2015. À época, jornais noticiaram que os acordos estavam na casa do US$ 1,2 bilhão na compra de carne.
Em 2018, o atual ministro da Justiça, Diosdado Cabello, fez uma publicação nas redes sociais divulgando uma visita à fábrica da JBS em Lins (SP). A viagem também se desdobrou em um jantar com o empresário e um encontro com o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Depois desse encontro foram negociados mais US$ 2,1 bilhões em compra de carne e frango brasileiro.
Esse acordo continuou nos anos seguintes, até que o presidente Nicolás Maduro iniciou um plano de soberania alimentar e impulsionou a produção de alimentos em território nacional, tendo acordos com outros empresários como Lorenzo Mendoza, dono da Empresas Polar, uma das principais companhias do ramo alimentício da Venezuela.
Mas os negócios de Batista no país vizinho não se limitam à exportação de carne. O grupo J&F, que controla a JBS, também tem um braço de atuação no setor de óleo e gás. A empresa Fluxus é responsável por fazer essa ponte e tem negociado a entrada em campos de gás venezuelanos. O país tem acordos de exportação e exploração conjunta com Trinidad e Tobago, mas tem aberto outras frentes de negociação.
Outra frente de negociações já consolidada pela J&F é a importação de energia elétrica por meio da Âmbar Energia. A companhia recebeu autorização do governo brasileiro em 2023 para importar energia venezuelana para Roraima. O estado é o único no Brasil que não está ligado ao Sistema Integrado Nacional (SIN), a rede de grande porte para produção e transmissão de energia elétrica no país. Por isso, a região sempre dependeu da importação de energia venezuelana, principalmente produzida na usina hidrelétrica de Guri, no estado Bolívar.
A Âmbar receberia cerca de R$ 17,08 milhões no modelo de subsídio da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), tributo pago pelos brasileiros para ajudar lugares que dependem de energia termelétrica para suprir a demanda. A empresa, no entanto, não importou energia até agora por falta de necessidade do estado do Norte do Brasil.
Ponte com o governo
A ida de Joesley à Venezuela não foi avisada ao governo brasileiro e muito menos à embaixada em Caracas. Para o governo brasileiro, essa movimentação é normal, já que Joesley é um empresário e representa os interesses próprios e não do governo brasileiro. Há também um afastamento natural de Brasília com interesses de empresários em outros países. A ideia é dar respaldo jurídico e fomentar essa relação, mas não participar de negócios de maneira direta.
Exemplo disso foi a retomada dos voos da Gol de São Paulo para Caracas em 2025. O Itamaraty não participou das negociações, mas apoiou a retomada como um passo que ajudaria na própria relação entre os governos.
O caso de Joesley, no entanto, é visto com mais cuidado. O empresário teve participação na política brasileira ao longo da última década, inclusive depois de ter gravado o ex-presidente Michel Temer dando aval para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.
No caso da Venezuela, Joesley também deu sinais de uma participação direta na política local. Na última semana de novembro de 2025, a Bloomberg noticiou que o empresário esteve no Palácio Miraflores, sede do governo venezuelano, para conversar com o presidente Nicolás Maduro. De acordo com a reportagem, o brasileiro teria tentado negociar com o mandatário a saída do poder para um asilo político.
Dessa vez, o encontro com Delcy aconteceu menos de uma semana depois dos ataques estadunidenses e do sequestro de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.
De acordo com agências de notícias internacionais, a conversa se deu em torno da estabilidade do governo venezuelano depois que Delcy assumiu o posto e o futuro da política venezuelana, além da relação com os Estados Unidos. A CNN afirmou ainda que o empresário faz uma espécie de ponte entre empresários estadunidenses, a Casa Branca e o Miraflores.
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