14 Janeiro 2026
"A computação quântica está caminhando em sua fase de projetos e seus testes para seguir nos caminhos que são próprios de uma invenção científica com seus desdobramentos na sociedade", salienta Lucia Santaella no prefácio do livro organizado por Rodrigo Petronio, Horizontes Quânticos: o campo quântico e seus impactos na cultura, nas artes, na tecnociência e na filosofia do século XXI (São Paulo: LF Editorial, 2025).
Lucia Santaella é pesquisadora 1 A do CNPq. Professora titular no PPG em Comunicação e Semiótica e no PPG em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, ambos da PUC-SP. Tem doutorado em Teoria Literária na PUC-SP em 1973 e livre-docência em Ciências da Comunicação na ECA/USP em 1993. É vice-líder do Centro de Estudos Peirceanos, na PUC-SP e presidente honorária da Federação Latino-Americana de Semiótica. É membro do Advisory Board do Peirce Edition Project em Indianapolis, USA e do Bureau de Coordenadores Regionais do International Communicology Institute.
Recebeu o Prêmio Jabuti em 2002, 2009, 2011 e 2014, o Prêmio Sergio Motta, Liber, em Arte e Tecnologia, em 2005, o prêmio Luiz Beltrão-maturidade acadêmica, em 2010 e o Sebeok Fellow Award, 2025. Tem 57 livros publicados, dentre os quais 6 são em coautoria e dois de estudos críticos. Organizou também a edição de 35 livros. Suas áreas mais recentes de pesquisa são: Comunicação, Semiótica Cognitiva e Computacional, Inteligência Artificial, Estéticas Tecnológicas e Filosofia e Metodologia da Ciência.
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Rodrigo Petronio é escritor e filósofo, autor de mais de vinte livros e organizador de diversos outros. Professor titular da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), atua na área de Educação há 25 anos como professor, pesquisador e coordenador institucional. Possui graduação pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorado pela Universidade Estadual do Rio de janeiro (UERJ/Stanford University). Defendeu dois mestrados: em Filosofia da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em Literatura Comparada (UERJ). Desenvolveu pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD/PUC-SP), onde é pesquisador.
Há mais de vinte anos ministra cursos, palestras e conferências em instituições como a Casa do Saber, Fronteiras do Pensamento, Fundação Ema Klabin, Instituto Humanitas Unisinos – IHU, entre outras. Profissional do mercado editorial há trinta anos, trabalhou em centenas de obras e em todas as etapas do processo editorial. Há 25 anos colabora regularmente como jornalista e publicou centenas de artigos, colunas, resenhas e ensaios em alguns dos principais veículos da imprensa brasileira. Foi indicado duas vezes ao Prêmio Jabuti (2006 e 2023). Recebeu prêmios nacionais e internacionais nas categorias poesia, ficção e teoria.
Eis o texto.
Neste livro, o título Horizontes Quânticos — no plural — é um achado, um tiro na mosca do tempo. Sorrateiramente, a quântica está chegando. As batidas na porta do momento ainda soam como ressonâncias pouco discerníveis para os que permanecem desatentos aos chamados da ciência. Uma descoberta científica leva anos para se aprimorar e não entra de chofre nos meandros e nervuras da cultura.
Por vezes, pode levar muitas décadas para ser absorvida e incorporada, pois depende de ajustamentos às vezes bruscos nas expectativas do pensamento vigente. São demorados os caminhos da compreensão, absorção, tradução e transformação nos modos de pensar e de enxergar aquilo que se costuma chamar de realidade, dentro e fora do humano. Ou seja, exigem um passo a passo até chegar ao ponto da invisibilidade da naturalização, como explicou sabiamente McLuhan a respeito das tecnologias como extensões da humanidade.
Reprodução da capa de Horizontes Quânticos | LF Editorial
Embora tenha sido muito criticado até por boas razões empíricas, há, todavia, algo a se extrair de interesse, contanto que apenas sirva de inspiração, da pirâmide de Maslow sobre a hierarquia das necessidades. Elas são vitais (quando se referem à garantia da sobrevivência), de segurança (relativas à ordem a ser mantida), de estabilidade e proteção (quanto à manutenção do equilíbrio), de filiação (quando implicam amor e pertencimento) e de reconhecimento (quando se relacionam à autoestima e ao respeito ao outro), e, por fim, de desenvolvimento interior.
Adaptados ao universo da tecnologia, esses passos ascendentes serviram de inspiração a um filósofo da tecnologia dinamarquês, Peter-Paul Verbeek. E tomo a liberdade de readaptá-los para o universo da ciência. O primeiro degrau da escala ascendente tem início com uma ideia materializada que, na ciência, segundo Peirce, evolui em função do amor criativo que os cientistas dedicam a um projeto. Esse estopim é seguido pela fase de operacionalização, então, da aplicação e, gradativamente, da aceitação, vitalidade, invisibilidade e naturalização.
A operacionalização corresponde aos testes de viabilidade do projeto, seguidos pelas aplicações, quando a ciência passa dos laboratórios para suas aplicações na sociedade. Não é difícil exemplificar com o andamento da Inteligência Artificial, que sendo bem-sucedida nas suas aplicações, passou, então, para a fase da aceitação que conduz à sua vitalidade. Não é difícil perceber que já começamos a entrar, com os tropeços que são próprios de uma invenção disruptiva, na invisibilidade para atingir a naturalização. Diante disso, não é igualmente difícil perceber que a computação quântica está caminhando em sua fase de projetos e seus testes para seguir nos caminhos que são próprios de uma invenção científica com seus desdobramentos na sociedade.
Com essas premissas, chego ao meu argumento sobre a relevância avant la lettre deste livro organizado por Rodrigo Petronio. Ele será visto no futuro como um documento de época corajoso não só na sua ambição, mas, sobretudo, na sua antecipação. A obra é admirável pelo estado de alerta que revela na escuta dos pensadores especializados capazes de responder e revelar os mistérios que a quântica encerra.
Com conhecimento de causa, expresso na autoria da abertura do volume, o organizador avança e amplifica o campo para os horizontes em camadas interdisciplinares numa pluralidade polifônica de vozes que preparam o terreno para a fase que virá das aplicações da quântica na sociedade. Um livro, portanto, que abre o caminho do conhecimento social da quântica com atenção no olhar e energia no pensamento. Isso está longe de ser pouco. É muito e digno de aplausos, especialmente vindo daqueles que têm apreço pela ciência e por seus avanços sob o controle ético de suas consequências.
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