11 Fevereiro 2026
A “Doutrina Trump” gira em torno da manutenção da superioridade militar dos EUA em relação à China, ao mesmo tempo em que coloca os Estados Unidos numa posição que lhes permita, de forma complementar, negar à China o acesso à energia e aos mercados de que necessita para sustentar seu crescimento e, assim, sua trajetória rumo ao status de superpotência.
O artigo é de Andrew Korybko, analista político, publicado em seu blog, 12-01-2025.
Eis o artigo.
A grande estratégia do Trump 2.0 tornou-se muito mais clara ao longo do último mês, desde que os EUA bombardearam o ISIS na Nigéria no Natal, executaram sua surpreendentemente bem-sucedida “operação militar especial” na Venezuela e agora ameaçam novos ataques contra o Irã sob o pretexto de apoiar manifestantes antigoverno. O que esses três países têm em comum é seu papel importante na indústria energética global — seja atual ou potencial (devido a limitações relacionadas a sanções) — e na Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China.
Assim, coagir esses países a se subordinarem aos EUA (seja por meio de tarifas, força, subversão etc.) resultaria em o Trump 2.0 obter influência sobre suas exportações de energia e vínculos comerciais, que poderiam ser transformados em armas para pressionar a China. O que os EUA querem da China é que ela aceite um acordo comercial desequilibrado, que depois seria replicado com a UE e com outros parceiros dos EUA para, como afirma a nova Estratégia de Segurança Nacional, “reequilibrar a economia chinesa em direção ao consumo doméstico”.
O objetivo implícito é forçar a China a corrigir sua superprodução, responsável por exportações globais sem precedentes que deslocaram o papel central do Ocidente no comércio mundial e geraram enorme influência sobre o Sul Global, restaurando assim a participação de mercado e a influência globais do Ocidente. Uma mudança de política tão radical teria grandes repercussões econômicas e, portanto, políticas, que poderiam desestabilizar o país, além de pôr fim à sua ascensão como superpotência — razão pela qual não seria adotada voluntariamente.
A influência dos EUA sobre as exportações de energia da Venezuela e, possivelmente em breve, do Irã e da Nigéria, bem como sobre seus vínculos comerciais com a China, poderia ser instrumentalizada por meio de ameaças de restrição ou corte, em paralelo à pressão sobre seus aliados do Golfo para fazerem o mesmo com esse objetivo. Ainda assim, isso talvez não fosse suficiente para garantir a rendição da China. É por isso que o Trump 2.0 também busca uma parceria estratégica centrada em recursos com a Rússia, que poderia privar a China do acesso a parte de seus depósitos, nos quais os EUA investiriam maciçamente nesse cenário.
A contrapartida para a injeção de bilhões de dólares na economia russa — inclusive por meio do possível retorno de parte de seus estimados US$ 300 bilhões em ativos congelados para esse fim — seria a concessão, por parte da Rússia, em alguns de seus objetivos de segurança na Ucrânia. Isso é inaceitável para Putin e explica por que ele rejeitou até agora a proposta de Trump. Ainda assim, mesmo sem o papel de fato (ainda que involuntário) da Rússia nessa grande estratégia, os EUA podem continuar a pressionar a China por meios militares tradicionais.
Como observa Michael McNair em seu artigo sobre “A Ponte no Centro do Pentágono”, a reafirmação da influência dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental “é um pré-requisito para sustentar a projeção de poder no Indo-Pacífico” para o propósito mencionado, o que se alinha ao arcabouço de Elbridge Colby. Ele é subsecretário de Guerra para Políticas e vem implementando ativamente as ideias que compartilhou em seu livro de 2021, The Strategy of Denial: American Defense in an Age of Great Power Conflict (“A Estratégia da Negação: a Defesa Americana numa Era de Conflito entre Grandes Potências”).
McNair argumenta de forma convincente que a nova Estratégia de Segurança Nacional tem as impressões digitais de Colby por toda parte, o que faz sentido dado seu cargo, e explica como a grande estratégia do Trump 2.0 é moldada por seu trabalho. Como ele escreveu: “A afirmação central de Colby é que a estratégia dos EUA no século XXI deve ter como objetivo impedir que a China alcance a hegemonia sobre a Ásia. O restante de seu arcabouço decorre desse ponto.” É exatamente isso que a “Doutrina Trump”, que recentemente se tornou muito mais clara, busca alcançar.
A reafirmação da influência dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental — cuja política pode ser descrita como “Fortaleza América” — lhes forneceria os recursos e os mercados necessários para elevar o orçamento de defesa em mais de 50%, de quase US$ 1 trilhão para US$ 1,5 trilhão, como Trump acaba de declarar que deseja fazer. A produção militar-industrial drasticamente ampliada dos EUA seria então direcionada a coagir militarmente a China a se submeter aos EUA por meio dos instrumentos comerciais mencionados anteriormente.
A “Doutrina Trump”, portanto, consiste na manutenção da superioridade militar dos EUA em relação à China, combinada com a colocação dos Estados Unidos numa posição que lhes permita negar de forma complementar à China o acesso à energia e aos mercados de que necessita para sustentar seu crescimento e, assim, sua trajetória de superpotência. O primeiro elemento será impulsionado por tarifas e pelos lucros da “Fortaleza América”, enquanto os demais avançam pela subordinação da UE, pela pressão sobre o Golfo e pela coerção de parceiros estratégicos da BRI (Venezuela, Irã, Nigéria etc.) à submissão.
Tudo o que o Trump 2.0 fez até agora se alinha a esses imperativos e modos operandi, inclusive políticas que não tiveram sucesso, como a tentativa dos EUA de subordinar a Índia e os esforços para fechar uma parceria estratégica centrada em recursos com a Rússia às custas de seus objetivos de segurança na Ucrânia. Até mesmo o ódio de Trump aos BRICS faz sentido quando visto por esse prisma, já que ele e sua equipe os percebem como uma frente dominada pela China para internacionalizar o yuan e enfraquecer o dólar.
Em suma, a grande estratégia dos EUA, conforme encapsulada pela “Doutrina Trump” influenciada por Colby, é coagir a China à subordinação, o que pretende alcançar por meio de um reforço militar à moda Reagan com seus aliados do AUKUS+ e da criação de condições para negar à China o acesso à energia e aos mercados. O objetivo final é restaurar a hegemonia unipolar dos EUA — primeiro sobre as Américas e depois sobre o Ocidente Global (UE, Golfo e aliados do Indo-Pacífico), o Sul Global e, por fim, a própria China — com a Rússia relegada a um papel de parceira júnior.
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