A difícil e dolorosa experiência de ver a Deus. Artigo de Luiz Felipe Pondé

Foto: Colin C Murphy/Unsplash

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06 Janeiro 2026

"A ideia de que apenas por meio do amor podemos ver Deus é simplista e ingênua, além de historicamente inconsistente. O ódio, ou a angústia diante da sua terrível indiferença, podem ser, muitas vezes, alguns dos modos mais comuns na vida de se chegar à fé", escreve Luiz Felipe Pondé, filósofo, em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, reproduzido no perfil do Facebook de Faustino Teixeira, 05-01-2026. 

Eis o artigo. 

Odiar Deus como consequência de um sofrimento atroz é um puro ato de fé. E dos mais consistentes. E, se Deus existe, ele deve ter esses infelizes mais próximos do seu coração do que seus fiéis felizes. Poderíamos mesmo arriscar uma hipótese segundo a qual só os infelizes verão a Deus. O inferno deve estar povoado por pessoas que nunca sofreram.

O livro de "" e sua teodiceia não adentram exatamente no ódio a Deus como forma de fé, porque simplesmente não odeia Deus em nenhum momento. O próprio conceito de teodiceia é aquele que, na filosofia, busca olhar para o mal e "justificá-lo", sem perder a fé num Deus bom.

O livro de "", sim, nos diz que nenhum de nós estava presente quando Ele pôs as estrelas no firmamento; portanto, não devemos nos meter nos seus desígnios.

Essa passagem do livro de "" serve, sim, para aliviar a agonia dos que têm fé e sofrem sendo justos, porque, justamente, os desígnios de Deus são misteriosos e estão além da nossa compreensão — argumento teológico conhecido, mas que soa puro sofisma para quem não crê em Deus.

A perda de filhos pode pôr em xeque essa crença no amor de um Deus bom. Você poderá passar o resto da vida odiando Deus como forma de um luto contínuo. O ódio a Deus dá repouso à alma ferida pelo seu silêncio.

Um caso clássico desse silêncio de Deus — expressão usada para descrever o sofrimento dos justos e a indiferença divina— é o Holocausto. Onde estava Deus em Auschwitz?

O fato é que muitos judeus perderam a fé diante desse escândalo; outros se converteram ao judaísmo ortodoxo, senão não aguentariam mais viver; e outros, ainda, passaram a odiar Deus por achar que ele simplesmente silenciou diante do massacre do seu suposto povo eleito.

O personagem Ivan Karamazov, "o meu filósofo", como dizia o autor do romance "Irmãos Karamazov", Fiódor Dostoiévski, afirma, num dado momento do livro, que até poderia aceitar a existência de Deus, mas jamais sua criação atroz.

Essa estranha forma de crença de Ivan Karamazov está muito próxima da ideia do ódio a Deus como um ato puro de fé. Posso mesmo, na esteira de uma analogia com o parricídio que ocorre no romance e que tanto encantava Freud, ir além e entender que o desejo de matar Deus é privilégio dos que nele creem. Só posso matar alguém que existe. Um mundo em que Deus existia e não existe mais é habitado pelo seu fantasma, como o final de Ivan Karamazov no romance, atormentado pelas visitas de Satanás.

Portanto, a ideia de que apenas por meio do amor podemos ver Deus é simplista e ingênua, além de historicamente inconsistente. O ódio, ou a angústia diante da sua terrível indiferença, podem ser, muitas vezes, alguns dos modos mais comuns na vida de se chegar à fé, mesmo contra nossa vontade — e um dos mais poderosos e persistentes. Enfim, a fé também, como tudo mais que é humano, pode ser habitada por paixões tristes e vivificada por elas.

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