06 Janeiro 2026
"Se Jesus não tivesse sido crucificado e ressuscitado, Paulo ainda seria Saulo, o fariseu. Em outras palavras, não teriam despontado aquelas novas visões de mundo que atuaram como "pontos de mudança" na história ocidental, forçando-a a seguir o caminho da racionalização", escreve Maurizio Ferrera, filósofo italiano, em artigo publicado por La Lettura, 21-12-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O que é o Ocidente? A pergunta volta à moda. Vale a pena, portanto, revisitar uma das respostas mais complexas e famosas do século XX, a de Max Weber. Segundo o grande sociólogo alemão, a característica distintiva da civilização ocidental é um tipo particular de "racionalismo": a busca incessante por significados inteligíveis e coerentes para impor a todos os aspectos da realidade e da conduta humana. De uma perspectiva histórica, as duas principais fontes de inspiração para essa mentalidade foram a cultura grega e a tradição judaico-cristã. De suas sementes floresceram primeiro a religião organizada e, em seguida, a ciência, a economia de mercado e o Estado burocrático modernos.
A singularidade do Ocidente é fruto de uma longa cadeia de eventos. Para Weber, alguns desempenharam um papel "decisivo": se não tivessem acontecido, o desenvolvimento histórico teria seguido um curso diferente. Suponhamos que, nas batalhas de Maratona (490 a.C.) e Salamina (480 a.C.), os atenienses tivessem perdido para os persas. A Grécia teria se tornado uma satrapia periférica do império opressor e teocrático de Xerxes: qualquer forma de autonomia política e intelectual teria sido sufocada em seu início. Da mesma forma, se Lutero não tivesse iniciado a Reforma Protestante em 1517, não teria se desenvolvido aquele ascetismo intramundano (uma conduta de vida baseada na disciplina e na atuação como sinal da graça divina) que favoreceu o nascimento do capitalismo.
Como identificar os momentos decisivos da história ocidental? Para Weber, o procedimento mais eficaz é o raciocínio contrafactual: retrocedemos no passado, identificamos momentos de possível bifurcação (como as Guerras Persas) e elaboramos cenários alternativos de desenvolvimento, imaginando que o resultado da bifurcação tenha sido o oposto daquele que realmente ocorreu (como a vitória persa, por exemplo). O contracenário imaginado deve ser lógica e historicamente plausível. Se, ao simular a ausência do fenômeno de interesse (Maratona ou a Reforma), surge um curso de eventos compatível com as condições do contexto contemporâneo, mas significativamente diferente do que realmente ocorreu, o contrafactual comprova a adequação causal do próprio fenômeno.
A tradição judaico-cristã combinava a cultura grega com a imagem de um mundo criado por um único Deus, em quem confiar para a salvação eterna. O judaísmo antigo concebeu um monoteísmo ético e racional, fonte de obrigações mútuas entre um Deus amoroso e seu povo. Os profetas foram então responsáveis pela primeira elaboração de uma ética das convicções. O cristianismo radicalizou alguns aspectos do judaísmo e elaborou uma nova visão de mundo, centrada na figura de Jesus e caracterizada por um universalismo ético (o dever de amar a todos, até mesmo os inimigos) e pelo universalismo cognitivo (somos todos irmãos em Cristo e, portanto, filhos de Deus).
A ética cristã nasceu dentro da ética judaica: Jesus e os apóstolos eram judeus em todos os aspectos. A bifurcação decisiva entre as duas tradições ocorreu por volta de meados do primeiro século, essencialmente pela atuação de Paulo. Rompendo o vínculo com a Lei Mosaica, Paulo abriu a fé cristã a todos os gentios. Sua doutrina incorporou vários elementos da cultura helenística, canalizando o racionalismo grego e judaico para uma nova visão da relação entre Deus e o mundo. A paixão e a ressurreição de Cristo redimem os pecados de todos os crentes e garantem a salvação. Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo deixa isso explícito: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.... e ainda permaneceis nos vossos pecados" (15,14-18).
Na interpretação de Weber, a separação entre judaísmo e cristianismo foi realmente "decisiva" para o desenvolvimento da singularidade ocidental. Mas será possível demonstrar isso de forma contrafactual? O procedimento exigiria, primeiramente, a identificação daquele elemento sem o qual a nova imagem cristã do mundo, como a conhecemos, não teria se desenvolvido. As palavras de Paulo não deixam dúvidas: esse elemento foi a ressurreição, por sua vez ligada à crucificação. Portanto, perguntemo-nos: é plausível imaginar um cenário em que Jesus não tenha sido condenado à morte?
Um importante livro, publicado recentemente pela Adelphi, nos ajuda a responder a essa pergunta. Trata-se de "La disputa messianica. Farisei, sadducei e la morte di Gesù”, de Israel Knohl. A tese inovadora do biblista de Jerusalém é que "o julgamento de Jesus foi um acidente da história", devido à composição do Sinédrio. "Se os juízes de Jesus tivessem sido os fariseus em vez dos saduceus, Jesus não teria sido condenado à morte nem crucificado." O autor chega a essa conclusão após uma reconstrução detalhada (e extremamente fluente) da polêmica interna ao hebraísmo sobre a vinda do Messias. A disputa messiânica foi inspirada pelas diferentes posições sobre o tema dos profetas Oseias e Isaías (século VIII a.C.).
Segundo o primeiro, a relação entre Deus e Israel era direta; não havia espaço para qualquer figura mediadora, seja na forma de um Messias ou de um Rei libertador. Segundo Isaías, ao contrário, uma figura excepcional da casa de Davi ascenderia ao trono de Judá, trazendo justiça e retidão à terra. De Oseias, desenvolveu-se uma doutrina antimessiânica: Deus não podia gerar filhos, e um rei humano não podia redimir nem ascender ao céu. A salvação viria diretamente de Deus. Nos tempos de Jesus, essa doutrina era defendida pelos saduceus. Do profeta Isaías, por sua vez, emergiu a ideologia monárquico-messiânica: a vinda de um Messias-Rei salvador de natureza semidivina.
Essa segunda ideologia, em determinado momento, sofreu uma transformação significativa: o Messias não teria sido um emissário ou um anjo de Deus, mas o próprio Deus. Um Deus "triste e sofredor" pelas aflições do seu povo, que se dedicaria pessoalmente a libertar e redimir Israel. A parte mais original do livro de Knohl é precisamente a reconstrução filológica dessa passagem em versões sucessivas do texto bíblico. A revisão de um versículo (Isaías 3,9) — provavelmente no século III a.C. — abriu caminho para uma nova imagem do Deus-Messias que se enraizou não apenas entre os fariseus, mas também entre a comunidade de Qumran (os essênios), com quem Jesus provavelmente entrou em contato.
Na época do ministério de Jesus em Jerusalém, o Sinédrio era controlado pelos saduceus, a única seita antimessiânica, minoritária, mas poderosa. Para os saduceus, as palavras de Jesus, sua declaração de ser Filho de Deus, Rei e Redentor, eram uma blasfêmia passível de morte. Essa mensagem, contudo, estava em consonância com as expectativas dos fariseus e da maioria do povo judeu.
O capítulo final do livro é dedicado ao julgamento de Jesus. Com uma erudição impressionante, Knohl lança nova luz sobre o confronto entre Jesus e Caifás, que, além disso, ocorreu segundo modalidades contrárias à Mishná (a coleção codificada das normas contida na Torá). A conclusão do autor é que a condenação de Jesus à morte pelos saduceus foi resultado de uma trágica circunstância histórica e, em certo sentido, até mesmo ilegal. Esse fato refuta diretamente o suposto "deicídio" (ter causado a morte de Jesus) perpetrado pelo povo judeu. A acusação da Igreja Católica foi retirada em 1965 pelo Concílio Vaticano II. Para Knohl, pessoalmente comprometido com a promoção do diálogo entre judeus e cristãos, sua análise fornece uma base histórica sólida para apoiar a declaração conciliar, ajudando a "curar" definitivamente a relação entre as duas comunidades religiosas.
Se ampliarmos o panorama, a mesma análise oferece uma base histórica para corroborar, de forma contrafactual, a tese de Weber mencionada anteriormente. Se for plausível imaginar (como afirma Knohl) que um Sinédrio diferente teria poupado Jesus, Paulo de Tarso não teria elementos cruciais para o desenvolvimento de sua doutrina. Os seguidores de Jesus já eram numerosos durante sua pregação, mas se tratava de judeus em todos os aspectos. O cristianismo paulino provavelmente teria permanecido um ramo do judaísmo farisaico, como outras seitas judaicas apocalípticas que floresceram no primeiro século. Os saduceus desapareceram com a destruição do Segundo Templo em 70 d.C.
Muitas histórias imaginárias circulam na internet sobre um Ocidente sem cristianismo. Segundo a inteligência artificial instalada no meu computador, por exemplo, a civilização europeia de hoje não se basearia mais nos direitos individuais e na democracia liberal; haveria menos escolas e hospitais; o panorama cultural refletiria o legado do paganismo greco-romano. Todas fantasias, é claro. Não temos condições de reconstruir progressões causais tão longas e detalhadas. Os raciocínios contrafactuais nos ajudam a identificar apenas as conexões gerais dentro de tendências de desenvolvimento apreendidas em retrospectiva, ou seja, quando elas já se manifestaram plenamente. Se os atenienses não tivessem vencido em Maratona e Salamina, não teriam surgido as condições para o florescimento do pensamento grego. Se Jesus não tivesse sido crucificado e ressuscitado, Paulo ainda seria Saulo, o fariseu. Em outras palavras, não teriam despontado aquelas novas visões de mundo que atuaram como "pontos de mudança" na história ocidental, forçando-a a seguir o caminho da racionalização.
Esse tipo de reflexão pode parecer ocioso, mas não é. De fato, nos ensina que o passado é uma sequência de passagens que transformaram "mundos possíveis" em realidades concretas, às vezes como resultado de "circunstâncias trágicas". E nos lembra que o presente é, em si, uma nuvem de possibilidades à espera de seleção. O racionalismo ocidental nos libertou para pensar que somos nós, indivíduos-pessoas de carne e osso, que moldamos o nosso próprio destino. O desencanto não sufocou o desejo de transcendência da tradição judaico-cristã, mas tornou a religião e a fé mais abertas e tolerantes. E, acima de tudo, manteve viva a busca por significados que tornam o mundo inteligível e nossas vidas ricas de valor.
Leia mais
- O cristianismo e a cultura ocidental
- “O fim das cristandades do Ocidente é o início de um compromisso novo”
- À beira do cristianismo. Michael Onfray contempla a morte do Ocidente
- A humanidade de Jesus frente ao sagrado, ao cristianismo, ao Ocidente. Entrevista com Umberto Galimberti
- “A teologia definiu as formas de pensar no Ocidente”. Entrevista com Sylvain Piron
- O Ocidente e o cristianismo. Artigo de Flavio Lazzarin
- A Igreja está em declínio no Ocidente – e o nacionalismo não é a salvação