29 Novembro 2025
“O ouro extraído das zonas de guerra do Sudão percorre rotas clandestinas, passando pelas mãos de contrabandistas, milícias e intermediários, antes de chegar a Dubai, onde é convertido em dinheiro e influência. Esse comércio, que teve origem no colapso do Estado e é alimentado por grupos armados, agora liga o Golfo Pérsico a algumas das regiões mais frágeis da África”. A reflexão é de Mawadda Iskandar, em artigo publicado por Investig’action, 24-11-2025. A tradução é do Cepat.
Mawadda Iskandar é jornalista e pesquisadora especializada em assuntos do Golfo; produziu vários documentários e publicou pesquisas.
Eis o artigo.
O ouro extraído das zonas de guerra do Sudão percorre rotas clandestinas, passando pelas mãos de contrabandistas, milícias e intermediários, antes de chegar a Dubai, onde é convertido em dinheiro e influência. Esse comércio, que teve origem no colapso do Estado e é alimentado por grupos armados, agora liga o Golfo Pérsico a algumas das regiões mais frágeis da África.
Antes que as armas se acumulassem nas areias ensanguentadas de Darfur, a história começou em meados de 2012, quando três jovens começaram a vasculhar o solo perto de Jeli com detectores de metal simples. Um sinal fraco os guiou 20 quilômetros para oeste até o sopé de Jebel Amir, uma montanha que mais tarde seria conhecida como a “Montanha Dourada” do Sudão.
A descoberta provou ser crucial. Em poucos dias, a notícia se espalhou por toda a região: as estradas de terra se encheram de viajantes, as barracas e as bombas d'água se multiplicaram pelas colinas, e milhares de garimpeiros afluíram para a área. O que começou como um golpe de sorte rapidamente alterou o equilíbrio de poder em Darfur, desencadeando reivindicações rivais, fortunas repentinas e a violência que as acompanha.
A montanha que incendiou Darfur
Jebel Amir está localizada na área de Al-Sarif, ao norte de El-Fasher, no norte de Darfur. Ela produz cerca de 50 toneladas de ouro anualmente — um dos maiores depósitos do continente — e também contém outros minerais, especialmente ferro, alumínio e platina.
Após a separação do Sudão do Sul em 2011, que privou Cartum de aproximadamente três quartos de suas receitas petrolíferas, o governo incentivou os cidadãos a se dedicarem à mineração artesanal como uma tábua de salvação econômica. Em vez disso, a corrida do ouro exacerbou a instabilidade e atraiu grupos armados para uma região já fragmentada.
Quando importantes depósitos foram descobertos em abril de 2012, a região tornou-se um polo de atração para riqueza e influência, mas também um campo de batalha. Milícias Janjaweed assumiram o controle das minas, deslocando comunidades locais e desencadeando conflitos.
Ao final do ano, a violência havia se espalhado por toda a região e, em janeiro de 2013, os confrontos abertos deixaram centenas de mortos, enquanto poços de minas desabavam sobre dezenas de trabalhadores. Tréguas foram negociadas, mas cada desabamento e cada confronto deixavam claro que o conflito não era mais meramente tribal, mas uma luta pelo controle de um dos recursos mais valiosos do Sudão.
Em 2017, o controle quase total de Jebel Amir estava nas mãos das Forças de Apoio Rápido (RSF), por meio da Al Junaid Holding Company, de propriedade de Mohamed Hamdan Dagalo, e o ouro havia se tornado sua principal fonte de poder financeiro, diretamente ligado à sua capacidade de financiar suas operações militares e controlar a região.
Mas o ouro não parou por aí. Seu fascínio se estendeu muito além do Sudão, atraindo o interesse dos Emirados Árabes Unidos, cujas ambições na África cresciam constantemente. De Darfur, o metal precioso era contrabandeado para os mercados e as refinarias de Dubai por meio de rotas de contrabando, voos comerciais e pacotes corporativos, alimentando uma rede na qual o conflito sudanês beneficiava outros.
Sudão: o gigante do ouro do mundo árabe
O Sudão é o maior produtor de ouro árabe, com mais de 40 mil locais de exploração e 60 empresas de refino espalhadas por 13 Estados, principalmente nas regiões do Nilo, do norte e do Mar Vermelho.
Os Emirados Árabes Unidos se tornaram rapidamente o principal destino das exportações sudanesas. As transações foram realizadas por meio de empresas ligadas a Dagalo (Hemeti) e seus associados, o ouro foi transportado por terra e ar para Dubai, e as Forças de Apoio Rápido (RSF) usaram os lucros para a compra de armas.
A Global Witness estima que o Sudão exporta aproximadamente US$ 16 bilhões em ouro para os Emirados Árabes Unidos anualmente. A produção oficial em 2024 atingiu 64 toneladas, mas apenas 31 toneladas foram registradas como exportações legais. Quase metade simplesmente desapareceu em mercados paralelos.
Os documentos de exportação revelam o envolvimento de empresas emiratis, como a Kaloti, que comprou 57 toneladas de ouro do Sudão em 2012 — ou seja, um volume muito superior à produção oficial do país. Em 2018, o Grupo Al Junaid, uma empresa de fachada da RSF, fez uma parceria com a Rosella, sediada em Dubai, que possui contas no First Abu Dhabi Bank.
Quando a guerra eclodiu em 2023, o comércio de ouro deixou de ser um pilar econômico para se tornar uma fonte de financiamento da guerra. Os Estados Unidos puniram 11 empresas, muitas registradas nos Emirados Árabes Unidos, por facilitarem o financiamento da RSF por meio do ouro.
As rotas do ouro da RSF para Dubai
Antes da guerra se espalhar, o ouro de Darfur era contrabandeado discretamente de Jebel Amir para o Chade por terra, e de lá para Dubai através de remessas comerciais e encomendas corporativas, tornando-se parte de uma rede de contrabando que ligava minas em áreas de conflito aos mercados do Golfo Pérsico. A RSF rapidamente se tornou a principal força nessa rede, utilizando empresas de fachada, rotas pelo Chade, Sudão do Sul, Líbia e novas rotas para o Egito.
O corredor chadiano continua sendo o mais lucrativo: o ouro sai de Jebel Amir e Sango por rotas clandestinas, passa por N'Djamena e é exportado como ouro “chadiano”. As empresas de fachada de Al Junaid, juntamente com ligações previamente documentadas com empresas sediadas em Dubai, operam no centro desse sistema.
Após a destruição do aeroporto de Cartum e a perda do controle do Porto Sudão pela RSF, a milícia adotou novas táticas. Motos atravessam o ouro de um lado para o outro da fronteira. Remessas aéreas partem de Nyala em contêineres etiquetados como contendo produtos agrícolas e gado. Os voos noturnos, com duração inferior a 90 minutos, evitam a detecção.
Um grupo de especialistas da ONU descobriu uma cadeia de suprimentos africana que liga carregamentos de ouro e entregas de armas: as armas chegam ao aeroporto de Um Girass e são transportadas por terra para posições das Forças de Apoio Rápido (RSF), usando dinheiro da venda de ouro sudanês em Dubai. Uma economia de guerra integrada agora se estende das minas de Darfur às refinarias dos Emirados Árabes Unidos.
O apetite continental de Abu Dhabi
Ao discutir as ambições dos Emirados Árabes Unidos na África, a conversa geralmente começa com o Sudão, o terceiro maior produtor de ouro do continente e o segundo maior detentor de reservas comprovadas, com aproximadamente 1.550 toneladas. Mas o Sudão não é um caso isolado, pois essa situação se estende por todo o continente.
Uma pesquisa da Reuters revelou que os Emirados Árabes Unidos importaram 446 toneladas de ouro de 46 países africanos em um único ano, no valor de US$ 15,1 bilhões. No entanto, dados da Comtrade, plataforma da ONU, revelam inconsistências gritantes: 25 desses países não forneceram números de exportação, enquanto 21 relataram valores muito inferiores aos registrados pelos Emirados Árabes Unidos para suas importações. Especialistas estimam que entre 32% e 41% do ouro africano não seja declarado, sendo grande parte absorvida por redes dos Emirados Árabes Unidos, seguidas pela Turquia e a Suíça.
Em Gana, um relatório da SwissAid revelou uma discrepância de 229 toneladas ao longo de cinco anos, o que representa US$ 11,4 bilhões em ouro não contabilizado. As autoridades ganenses confirmam que 75% das exportações de ouro do país são destinadas aos Emirados Árabes Unidos.
No Mali, 81% da produção é extraída por empresas ligadas aos Emirados Árabes Unidos. O Ministério de Minas de Burkina Faso reconhece o tráfico generalizado para os Emirados Árabes Unidos; o valor das exportações apenas em 2024 atingiu US$ 2 bilhões. A Líbia perdeu entre 50 e 55 toneladas de ouro, no valor de quase US$ 3 bilhões, para redes de contrabando que abastecem Dubai desde 2011.
O mesmo padrão ocorreu no Iêmen. Empresas emiradenses, como a Thani Dubai Mining, estabeleceram operações na região rica em recursos de Hadramawt, enquanto imagens de satélite mostram intensa atividade em Jabal al-Nar, na província de Taiz, depois que a área foi isolada e militarizada. A extração de ouro está agora diretamente ligada à agenda política dos Emirados Árabes Unidos por meio do Conselho de Transição do Sul (STC).
Por que os Emirados Árabes Unidos precisam do ouro africano
Os Emirados Árabes Unidos possuem poucas reservas domésticas, mas um vasto ecossistema aurífero: refinarias, comerciantes, empresas de logística, zonas francas e estruturas regulatórias flexíveis. Dubai se apresenta como o centro natural do comércio global de ouro em barras e, para manter esse papel, precisa de um fornecimento contínuo de ouro bruto, principalmente de regiões com pouca fiscalização.
O ouro sudanês oferece duas vantagens aos Emirados Árabes Unidos. Primeiro, fornece a matéria-prima necessária para manter a rentabilidade da indústria de refino de Dubai. Segundo, estende a influência política de Abu Dhabi ao coração dos sistemas econômicos africanos.
Há também uma dimensão monetária. À medida que a confiança no dólar americano oscila, os bancos centrais globais estão diversificando seus ativos em moedas que não o dólar. Dados do OMFIF [Fórum Oficial de Instituições Monetárias e Financeiras] mostram que um terço dos bancos centrais planeja aumentar suas reservas de ouro nos próximos dois anos, enquanto 40% pretendem reforçar suas reservas de longo prazo.
O ouro tornou-se um pilar em uma economia global em rápida transformação. Em 2023, os Emirados Árabes Unidos ultrapassaram o Reino Unido e se tornaram o segundo maior centro de negociação de ouro do mundo, atrás da Suíça. Sua entrada no BRICS em 2024 consolidou ainda mais essa posição, tornando os Emirados Árabes Unidos o principal centro de negociação de ouro na Ásia.
Para manter esse papel, os Emirados Árabes Unidos precisam do ouro africano, não apenas ocasionalmente, mas regularmente e em grande escala.
O imperialismo do ouro: construindo um centro sem minas
Em apenas duas décadas, os Emirados Árabes Unidos passaram de um importador marginal a um dos principais atores no comércio global de ouro. Atualmente, o país responde por aproximadamente 11% das exportações globais de ouro, com mais de 4 mil empresas de joias e 1.200 lojas de varejo, empregando cerca de 60 mil pessoas.
Antes de 1996, os Emirados Árabes Unidos sequer figuravam entre os 100 maiores importadores de ouro. Hoje, estão entre os quatro primeiros, tendo ultrapassado os Estados Unidos e Hong Kong. Onze grandes refinarias operam em Dubai, apesar de o país não possuir recursos auríferos internos.
Mas essa ascensão se baseia em fundamentos obscuros.
Somente em 2024, os Emirados Árabes Unidos importaram 1.400 toneladas de ouro, no valor de US$ 105 bilhões. Mais da metade veio de países africanos como Sudão, Chade, Líbia e Egito, grande parte ligada a atores envolvidos em conflitos, como as Forças de Apoio Rápido (RSF). Fluxos adicionais de Uganda, Ruanda e Togo ampliam ainda mais o alcance das redes de contrabando que convergem para Dubai.
Entre 2012 e 2022, os Emirados Árabes Unidos importaram 2.569 toneladas de ouro africano ilegal, no valor aproximado de US$ 115 bilhões. Até a Suíça sentiu os efeitos: importou 316 toneladas de ouro de Dubai em 2025, no valor de 27 bilhões de francos suíços — o dobro do seu volume anual habitual.
As brechas regulatórias nos Emirados Árabes Unidos tornam isso possível. Os passageiros que chegam com ouro não são obrigados a declará-lo; basta preencher um formulário de compra. Os funcionários da alfândega não perguntam sobre o país de origem. Grandes quantidades de ouro ilícito são vendidas abertamente nos mercados de Dubai muito antes de chegarem às refinarias.
A identidade dos compradores estrangeiros que adquirem ouro refinado permanece confidencial, permitindo que os Emirados Árabes Unidos estejam no centro de um esquema global de lavagem de dinheiro que integra ouro de zonas de conflito à cadeia de suprimentos internacional.
Essas práticas contribuíram para que os Emirados Árabes Unidos fossem adicionados à lista cinza da Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF) em março de 2022. Embora tenham sido removidos da lista dois anos depois, persistem as preocupações de que essa reversão se deva mais à influência geopolítica do que à reforma regulatória.
Os Emirados Árabes Unidos lucram com guerras prolongadas, governos enfraquecidos e milícias que se tornam parceiros econômicos. Nesse modelo, o ouro é capital político, uma fonte de influência e um meio de acessar as vulnerabilidades mais profundas dos Estados africanos.
O que é extraído das regiões mais pobres retorna na forma de influência para um dos Estados mais assertivos da região.
Das minas de Darfur às torres de Dubai, o ouro agora circula através de um sistema baseado em um equilíbrio desigual de poder, que remodela conflitos, fortalece aqueles que lucram com a instabilidade e deixa sua marca nas trajetórias políticas e econômicas da África.
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