O filho de mil homens. Comentário de Daniel Brazil

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29 Novembro 2025

Considerações sobre o filme de Daniel Rezende, em exibição nos cinemas.

O comentário é de Daniel Brazil, publicado por A Terra é Redonda, 26-11-2025.

Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Eis o comentário.

O filho de mil homens é um dos mais queridos romances de Valter Hugo Mãe, escritor luso-angolano que tem grande afinidade com o Brasil. Sua prosa poética e envolvente conquistou leitores em vários países, e colocou seu nome entre os grandes autores humanistas de nossa língua.

"O filho de mil homens", de Valter Hugo Mãe (Biblioteca Azul, 2016).

Ao enfocar personagens disfuncionais numa pequena aldeia à beira-mar, o autor elaborou um pequeno tratado sobre a tolerância, a compaixão, a amizade e o amor, sem ocultar o pano de fundo do preconceito, do machismo e da hipocrisia que permeia aquele restrito grupo social.

Com o lançamento do filme, em outubro de 2025, dirigido pelo brasileiro Daniel Rezende e distribuído pela Netflix, a sinopse já deve ser de conhecimento geral. A narrativa entrelaça a vida de um pescador solitário de quarenta anos que deseja ter um herdeiro, um menino filho de uma anã que teve relações com vários homens da aldeia, uma jovem que é desprezada por não ser mais virgem, e seu noivo, fruto de um casamento de conveniência que desmorona na incontornável opção sexual do rapaz.

O grande desafio foi traduzir a torrente verbal rica e poética do romance em imagens. Assumindo várias liberdades de adaptação, o filme valoriza os silêncios, e através de imagens deslumbrantes consegue o feito de sintetizar o romance sem grandes perdas.

Obviamente, somos privados das delícias narrativas da escrita de Valter Hugo Mãe, mas ganhamos em troca interpretações tocantes, cenografia e cenários de sonho, uma trilha sonora adequada e sem excessos, tudo coroado por uma direção segura. Em vez de falar de perdas, o mais adequado é falar de trocas. Trocas de significantes, não de significados. O filme não é fiel ao livro – e nem poderia ser! –, mas ao espírito do livro.

Seres desajustados e rechaçados pela sociedade criam elos de afeto que os fortalecem e abrem uma possibilidade de felicidade. Em mãos menos habilidosas poderia soar como uma ode à pieguice, mas é aí que entra o talento narrativo, tanto do escritor quanto do diretor e roteirista do filme.

Em tempos de violência extrema em todas as formas de ficção, de crueza descritiva, de sexo exibicionista, de personagens cruéis, cínicos e desonestos, retomar o “tempo da delicadeza” cantado por Chico Buarque é um ato de coragem. Daniel Rezende não tem pudor de lançar mão de imagens oníricas, criadas por computação gráfica, provando que esta pode ser utilizada de forma inteligente e não deslumbrada.

A pequena aldeia e seus personagens, recriada com perfeição de detalhes em Búzios e na Chapada Diamantina, recupera a universalidade da obra original, e vira cenário de sentimentos profundamente humanos que nosso acelerado e monetizado cotidiano urbanoide despreza com intensidade cada vez maior.

O filme é um acerto estético, e traz a melhor interpretação da vida de Rodrigo Santoro, que pronuncia pouquíssimas palavras no entrecho, apoiado por ótimos coadjuvantes. Reafirma também o talento de Daniel Rezende e faz uma releitura respeitosa do belo romance de Valter Hugo Mãe.

Nesta fase tão rica e produtiva do cinema brasileiro é animador ver propostas de narrativas tão diversas chegarem ao público. E o fato de recolocar a boa literatura em circulação, despertando o interesse de novos leitores, só aumenta nosso discreto otimismo.

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