29 Março 2025
Episódio foi o primeiro movimento organizado a confrontar o regime de exceção, instaurado em 1964.
A reportagem é de Vinicius Bindé Arbo de Araujo, publicada por Matinal, 27-03-2025.
Na madrugada de 26 de março, exatamente seis décadas atrás, o primeiro movimento organizado e armado contra a ditadura militar instalada um ano antes no Brasil, eclodia na fronteira noroeste do Rio Grande do Sul, mais precisamente na cidade de Três Passos. Mesmo 60 anos depois, trata-se de um episódio ainda pouco estudado, debatido e conhecido, tanto em nível regional, como estadual e nacionalmente. “Foi o primeiro gesto de resistência armada frente à ditadura. Uma resistência quixotesca”, comenta Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos – MJDH.
O intento que lembramos nesta data, denominado de “Guerrilha de Três Passos” ou “Movimento 26 de Março – MR-26”, foi liderado pelo coronel do Exército, Jefferson Cardim de Alencar Osório, acompanhado de outros dois militares: os sargentos da Brigada Militar, Alberi Vieira dos Santos, e do Exército, Firmo Chaves, contando ainda com a participação de 20 pequenos agricultores, pertencentes ao Grupo dos Onze, que residiam no interior de Campo Novo, município vizinho a Três Passos, em área muito próxima da fronteira com a Argentina.
Jefferson estava atuando em Montevidéu, no Uruguai, como adido militar, indicado ainda no período da presidência de João Goulart. A capital do país platino era um verdadeiro centro de lideranças que recorreram ao exílio para fugirem de perseguições e prisões arbitrárias em solo brasileiro, após o golpe de 1964. Uma das principais lideranças neste rol, era o ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Ele nutria viva a vontade de estabelecer uma resistência armada ao governo ditatorial, e buscava as condições necessárias para organizar este movimento.
Ainda hoje pairam dúvidas se, de fato, Brizola teria dado a sinalização positiva para que a mobilização eclodisse. O sargento Alberi era a fonte mais próxima ao ex-governador e quem repassava informações ao coronel Jefferson. Pesquisadores refutam a tese de que Brizola anuiu para que o levante de 26 de março acontecesse.
O plano inicial do grupo, composto por 23 homens, era tomar o 7º Grupo de Canhões de Ijuí (atualmente 27º Grupo de Artilharia de Campanha). Conseguindo este intento, a fagulha se espalharia por outros quartéis no interior do Rio Grande do Sul, como Santo Ângelo, Cruz Alta, Santa Maria e Pelotas. Em Ijuí, dois sargentos opositores à ditadura dariam o suporte à invasão e para a obtenção de armas.
Havendo essa rede de resistência, o objetivo do grupo era incentivar uma verdadeira insurreição armada e com apoio da população, contra o regime militar: uma quartelada. A região de Três Passos foi escolhida, devido à força que existia a partir da organização dos Grupos dos Onze, células de militância de base que haviam sido estimuladas por Brizola para manter viva a chama do trabalhismo, especialmente a partir da campanha da Legalidade, em 1961, liderada pelo próprio governador gaúcho e que impediu um golpe militar que inviabilizaria a posse do então vice-presidente, João Goulart, após a renúncia do presidente Jânio Quadros.
Estas informações constam em documento escrito pelo coronel Jefferson, durante seu período de exílio, entre 1968 e 1969. O material foi divulgado em 2015, em reportagem especial do site UOL, inclusive premiada. As memórias foram transcritas a partir de sua passagem por México e Argélia.
O então professor rural de Campo Novo, Valdetar Dornelles, foi procurado por Jefferson e Alberi e ficou encarregado de mobilizar combatentes locais, entre os quais alguns de seus familiares, além de fazer um levantamento geográfico da região para que a ação pudesse acontecer.
“As pessoas que aceitaram o desafio de integrar o grupo, apesar de humildes, possuíam conhecimento político. Participavam do Grupo dos Onze, movimento alimentado por Leonel Brizola. Não foi um episódio que pode ser minimizado”, ressalta o professor de História e pesquisador do tema, Luis Gustavo Graffitti.
O reforço na mobilização de militares em outras regiões falhou fragorosamente, muito em razão da sinalização nula que deveria vir de Montevidéu e das fontes em contato com Brizola.
Ainda assim, com poucos homens arregimentados, com pequena ou nenhuma experiência militar, escassa munição e dificuldades de logística, a primeira ação foi realizada com êxito: a tomada de Três Passos. Nos primeiros instantes da madrugada de 26 de março, o grupo invadiu e tomou o quartel/destacamento da Brigada Militar, a rádio Difusora e o presídio. Armas e fardas foram levadas. Também cortaram a comunicação telefônica e telegráfica da cidade. O grupo tentou ainda a retirada de dinheiro da agência do Banco do Brasil local, mas a ideia acabou frustrada.
O casal de proprietários da rádio local, Benno Adelar e Zilá Breitenbach, foram acordados em meio à madrugada e atenderam as exigências do grupo, colocando no ar a emissora, quando foi realizada a leitura de um manifesto à população, apelando para que se mobilizassem em oposição ao regime militar.
Com o passar das horas e não havendo ressonância ao levante em outras cidades, optou-se por um plano alternativo. Rumar em direção ao Paraná, onde, no dia seguinte, seria inaugurada a Ponte da Amizade, travessia unindo Brasil e Paraguai, com a presença do então presidente, Castello Branco.
A guerrilha ainda passou pelo município de Tenente Portela, com a tomada do destacamento da Brigada Militar, cruzando pouco depois o rio Uruguai, utilizando uma balsa, na divisa com Santa Catarina.
Amanheceram no município de Iporã, já no território catarinense e a poucos quilômetros da Argentina. Nesse momento, o regime militar já se organizava para conter o grupo de guerrilha. O levante era notícia nos meios de comunicação de grandes centros, como no caso da capa do jornal Correio do Povo, edição de 28 de março de 1965.
Nas proximidades do município de Capanema, já no Paraná, o grupo que enfrentava de forma pioneira o regime imposto em 1964 pelos militares, foi localizado e monitorado por uma aeronave da Força Aérea Brasileira, que dava suporte à visita presidencial no Estado.
No território do município de Capitão Leônidas Marques, no dia seguinte ao início efetivo da empreitada, os guerrilheiros chegaram a trocar tiros com as forças militares. Porém, enfraquecidos, começaram a ser presos, sendo capturados entre os dias 27 e 28 de março. A única vítima do combate, foi o sargento do Exército, Carlos Argemiro de Camargo.
O coronel Jefferson e os demais combatentes, após serem capturados, foram torturados e humilhados perante a tropa formada por soldados e oficiais, durante o trajeto e no Batalhão de Fronteira, em Foz do Iguaçu, onde ficaram detidos, até serem encaminhados para cumprirem pena na cidade de Curitiba, também no Paraná.
Apesar dos erros e desacertos do movimento, Jair Krischke reforça o entendimento de que a Guerrilha de Três Passos é um fato de grande relevância para a história brasileira: “Como aconteceu aqui no Sul do mundo, o Brasil desconhece. Se acontecesse no Rio ou em São Paulo, seria cantado em prosa e verso”. Para ele, embora o nível pequeno de organização demonstrado, tratou-se de uma mensagem forte à ditadura: “haverá resistência”.
“Independentemente de ter dado certo ou não, o movimento iniciado em Três Passos fez manter acesa a chama de outros grupos que se opunham à ditadura e se organizaram a partir de então, especialmente no final dos anos 1960”, destaca o professor Graffitti.
Krischke também observa que esta história precisa estar presente na memória local, estadual e nacional. “A grande vacina contra o autoritarismo, é a memória. Ela que nos protege. Quem não conhece o seu passado, como irá projetar o futuro? Como posso pensar o futuro de Três Passos, se não sei o que aconteceu ontem?”.
Para o presidente do MJDH, o Rio Grande do Sul e o Brasil precisam cada vez mais valorizar que este foi o primeiro ato de resistência contra uma ditadura brutal. “Oficialmente desapareceram 434 brasileiros e brasileiras. E os exilados, que tiveram de fugir com ou sem suas famílias? E os torturados? E as mortes não esclarecidas? E as pessoas que perderam seus empregos?”, indaga.
“A comunidade de Três Passos precisa saber do seu passado e enfrentá-lo com orgulho. Não olhando isto como algo reprovável. Pelo contrário. Se o movimento foi desorganizado, lamenta-se. Mas ele expressa uma resistência. E isso é muito importante”, reforça Krischke.
O professor Graffitti finaliza opinando que a falta de preservação da memória é algo recorrente no Brasil. Mas que cabe aos educadores e pesquisadores, ao jornalismo e às instituições, de alguma forma buscarem alternativas para que fatos fundamentais para a nossa história, possam ser revisitados e conhecidos pelas atuais e futuras gerações.