27 Agosto 2024
Maior parte da cifra se deve à catástrofe no Rio Grande do Sul, mas o prejuízo ainda deve crescer por causa da seca na Amazônia.
A reportagem é publicada por ClimaInfo, 27-08-2024.
Eventos climáticos extremos como as enchentes que devastaram boa parte do Rio Grande do Sul em maio e a seca que vem castigando a Amazônia antes do período habitual de estiagem já causaram ao menos R$ 6,7 bilhões em prejuízos para o agronegócio brasileiro – que, no Brasil, é o principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa que causam as mudanças climáticas. Seja por danos estruturais ou por impacto nas atividades, a conta é alta, e os efeitos ainda devem perdurar, indica um levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM).
Além das perdas de vidas, a tragédia climática no RS causou prejuízos de R$ 5,4 bilhões à agricultura e à pecuária do estado. Na região Norte, onde a falta de chuvas reduz o volume d’água em rios antes caudalosos, os danos à agricultura e à pecuária somam quase R$ 1,3 bilhão, mostra a CNM. Como a seca persiste, a confederação diz que o montante deve aumentar à medida que novas informações sejam reportadas pelas cidades, destaca a Globo Rural.
Na Amazônia, ribeirinhos afirmam que a estação seca chegou mais cedo este ano. No entanto, na avaliação de Ana Paula Cunha, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), ela sequer foi embora. Segundo a especialista, a estiagem completou um ano em diversas regiões do bioma. E se os grandes produtores rurais conseguem atenuar os efeitos da estiagem, entre os pequenos muitos não têm acesso a assistência técnica e energia, explicou.
A CNM não cita o Pantanal, mas a falta de chuvas e os incêndios no bioma também já cobram seu preço ao agronegócio. Só o Mato Grosso do Sul já teve 1,2 milhão de hectares consumidos pelo fogo neste ano, incluindo áreas produtivas de pasto e infraestrutura. Já a seca afeta as pastagens, com menos alimento para o gado bovino. Por isso, o vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados do Estado (SICADEMS), Sergio Capuci, já considera a possibilidade de redução do número de abates neste ano.
A soja, um dos carros-chefe das exportações agrícolas brasileiras – e uma das maiores destruidoras de biomas do país –, também é afetada pelos eventos climáticos extremos, mostra a Globo Rural. Algumas importantes regiões produtoras do grão enfrentaram problemas sérios em virtude do clima na última safra. No caso da produção de sementes, o calor e a falta de chuvas foram os fatores que mais prejudicaram a qualidade e, dependendo do local, até a oferta do insumo para a safra seguinte – ou seja, a atual.
Em tempo
Os eventos extremos causados pelas mudanças climáticas também afetam o agronegócio europeu. A primavera excepcionalmente úmida deste ano e as condições caóticas do verão deixaram os agricultores da Polônia ao Reino Unido se preparando para o impacto no sabor e no tamanho de suas colheitas, enquanto o sul europeu luta contra outra seca severa. A produção de maçãs da União Europeia está prestes a diminuir em 10%, a escassez de morangos está elevando os preços em algumas regiões e a Itália está tendo problemas para colher azeitonas suficientes para produzir azeite, lista a Bloomberg Línea. “Ainda não sabemos o que o clima fez com as raízes das árvores frutíferas, e isso pode afetar as colheitas do próximo ano”, diz Lambert von Horen, analista sênior do Rabobank.
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