Giorgia, feminista para além da direita. Artigo de Lucetta Scaraffia

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. (Foto: Flickr | President of Ukraine)

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25 Outubro 2023

"O feminismo foi e é historicamente muito mais, é uma transformação profunda da sociedade e da cultura que tocou todas as mulheres, mudou radicalmente as suas vidas e, acima de tudo, mudou o ponto de vista a partir do qual as mulheres, todas as mulheres, hoje olham para o mundo", escreve Lucetta Scaraffia, jornalista e historiadora italiana, em artigo publicado por La Stampa, 24-10-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Andrea Giambruno (1) não conseguiu, não aguentou o papel do homem que fica ao lado de uma mulher melhor que ele, uma mulher de poder. Ele havia afirmado com força que sabia ficar nos bastidores, mas diante dos fatos sucumbiu à mais tradicional vaidade masculina. Afinal, até o marido de Merkel, um cientista de calibre do Nobel, após anos de comportamento exemplar como príncipe consorte, não resistiu até o fim e ostentou um novo amor. A história e a atualidade ensinam que os homens não são capazes de ficar um passo atrás sem fazer com que as suas parceiras paguem, não são capazes de demonstrar aquela solidariedade inquebrantável de tantas delas em circunstâncias semelhantes. Uma solidariedade que muitas vezes ajudou de forma decisiva a carreira dos homens de poder: protegeu-os dos ataques e deu-lhes a sensação de terem alguém ao lado em quem sempre poder confiar.

Então agora Giorgia está sozinha, mas provavelmente já sabe que está sozinha há tempo, e na verdade sempre contou apenas com a solidariedade da irmã e da mãe, e agora da filha. Para a proteção da filha escreveu um comunicado tão firme, mas também tão leal em relação ao ex. Estamos diante de um caso de escola na história da emancipação feminina: a ascensão de uma mulher na vida social e política impõe custos elevados à vida privada. Mas a forma como Meloni enfrentou e rapidamente resolveu o problema deixa claro que o feminismo também chegou lá, no coração da direita, até à líder de um partido que no seu programa se reporta abertamente ao fortalecimento da família tradicional. Isso deixa claro para todos que o feminismo já não é mais (e há muito tempo) o território reservado da esquerda, tão reservado que quase todas as expoentes políticas da esquerda, na época da vitória de Giorgia, quando ela se tornou a primeira presidente do conselho da Itália, disseram que não era uma vitória das mulheres, porque alguém como ela certamente não podia ser considerada feminista.

Elas estavam redondamente erradas: o feminismo foi e é historicamente muito mais, é uma transformação profunda da sociedade e da cultura que tocou todas as mulheres, mudou radicalmente as suas vidas e, acima de tudo, mudou o ponto de vista a partir do qual as mulheres, todas as mulheres, hoje olham para o mundo. A própria carreira política de Meloni num partido conservador teve oportunidade de se realizar porque houve essa mudança, porque as mulheres conquistaram para si o direito de sonhar alto, também em territórios que até hoje lhes eram vedados. A presença de Meloni no governo, e mais ainda a sua abrupta despedida de um companheiro de vida que não se mostrou à altura da confiança nele depositada, são a prova de que o feminismo não é uma ideologia nascida da esquerda, mas muito mais: é uma verdadeira revolução que, pelo menos no Ocidente, mudou e continua a mudar o mundo.

Nota do IHU

1.- Andrea Giambruno, jornalista italiano, ex-companheiro de Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália.

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