Papa Francisco dedica uma carta apostólica a Blaise Pascal, "inimigo" dos jesuítas

Papa Francisco faz seu discurso no Angelus em 18 de junho de 2023/Retrato de Blaise Pascal. (Foto: Vatican Media/Domínio público)

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20 Junho 2023

A homenagem ao filósofo jansenista francês, por séculos tachado de herege, no dia do 400º aniversário do seu nascimento. Eugenio Scalfari já em 2012 havia pedido a Ratzinger a sua beatificação.

A reportagem é de Maria Antonieta Calabrò, publicada por Il Messaggero, 19-06-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

O Papa Francisco embaralha as cartas. E dedica uma carta apostólica (Sublimitas et miseria hominis) a um pensador leigo francês do calibre de Blaise Pascal - cujo aniversário de 400 anos acontece hoje - por séculos tachado quase de herege, tendo sido um defensor dos jansenistas contra os jesuítas. E é aqui que a situação fica interessante. O Papa Francisco, primeiro Pontífice da Companhia de Jesus, criticou repetidamente a presença de uma forma de neojansenismo na Igreja atual, descrevendo-a em seu discurso de Natal à Cúria em 2022 como uma tendência ao "fechamento intransigente, mesmo diante da autoridade eclesiástica".

Mas também reconheceu a validade da intenção inicial do movimento de Port-Royal, especialmente a luta contra o pelagianismo e a casuística, alvo dos ataques de Pascal. Em 2014 definiu a casuística como um sinal de reconhecimento dos "cristãos que conhecem a doutrina, mas sem a fé". Porque, segundo o Papa Francisco, a casuística não é a verdadeira moral católica.

A fé que Pascal recebeu como dom foi um encontro pessoal, na noite da sua conversão, com o "Deus de Abraão, Deus de Isaque, Deus de Jacó, não dos filósofos e dos sábios. Certeza, certeza, sensação, alegria, paz. Deus de Jesus Cristo".

Portanto, Francisco propõe "a todos aqueles que querem continuar a busca da verdade - uma tarefa que nesta vida não tem fim - que se coloquem à escuta de Blaise Pascal... inteligência inquieta e imensa". Mas Pascal é apreciado por Francisco porque nele a busca da verdade se transformou em caridade, no final de sua curta, mas “extraordinariamente rica e fecunda” vida, na qual colocou em primeiro lugar o amor pelos mais pobres. Sentia-se e sabia-se membro de um único corpo, porque "Deus, depois de ter criado o céu e a terra, que não sentem a felicidade do seu ser, quis criar seres capazes de conhecê-lo e de formar um corpo de membros pensantes".

Estando muito doente e à beira da morte, pediu para comungar, mas isso não aconteceu de imediato. Então perguntou à irmã: "Não podendo comungar com a cabeça [Jesus Cristo], gostaria de me comungar com os membros". E “tinha um grande desejo de morrer na companhia dos pobres”. 

Já em um artigo de 2012, o diretor do Repubblica Eugenio Scalfari, ateu declarado, escreveu uma carta aberta ao então Papa Bento XVI que concluía com a proposta: "Agostinho foi muitas coisas juntas, chegando até Calvino, Jansênio e Pascal. Se ele quisesse dizer algo realmente atual, o Papa Ratzinger teria que dar início à beatificação de Pascal…“ E profetizava que, caso contrário, “o pontificado afetado continuará enquanto puder, pois não haverá o dilúvio, mas uma chuva de pântano cheia de rãs, mosquitos e alguns patos selvagens. Quanto de pior para todos".

: "Você, caro amigo, está absolutamente certo neste caso: eu também acho que ele merece a beatificação. Eu me reservo o direito de mandar preparar o procedimento necessário e pedir o parecer dos membros dos órgãos vaticanos encarregados dessas questões, junto com minha convicção pessoal e positiva”.

O processo canônico iniciou em 2019. Hoje chegou a carta apostólica.

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