Recalcati e a Bíblia, uma leitura geradora

(Foto: Aaron Burden | Unsplash)

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30 Junho 2022

 

"O tema central do livro é o papel da Lei e da Palavra na Bíblia e na psicanálise. O subtítulo do livro é sugestivo, mas em parte enganoso. As raízes bíblicas da psicanálise nos fariam de fato pensar em um trabalho de desenterrar as raízes de uma disciplina que já estava lá, escondida e no escuro, embaixo da terra, como sugere a metáfora vegetal", escrevem Luigino Bruni, professor do Departamento de Jurisprudência, Economia, Política e Línguas Modernas da Universidade Lumsa, de Roma, em artigo publicado por Avvenire, 24-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O trabalho de Massimo Recalcati sobre textos bíblicos é muito importante. Está entre as inovações culturais mais significativas do panorama cultural contemporâneo, não apenas italiano e não apenas nos estudos de psicanálise. A Bíblia sempre inspirou arte, literatura, poesia e filosofia; na modernidade influenciou também as ciências humanas e sociais. Até Freud, um judeu, até Lacan, o mestre de Recalcati, buscaram inspiração do mundo bíblico.

 

Este último ensaio La Legge della parola, que em parte reúne, resume, obras anteriores, é uma obra muito ambiciosa, um exercício árduo.

 

O tema central do livro é o papel da Lei e da Palavra na Bíblia e na psicanálise. O subtítulo do livro é sugestivo, mas em parte enganoso. As raízes bíblicas da psicanálise nos fariam de fato pensar em um trabalho de desenterrar as raízes de uma disciplina que já estava lá, escondida e no escuro, embaixo da terra, como sugere a metáfora vegetal. Mas o livro fala de outra coisa, e o próprio autor nos diz: “Trata-se de ler as Escrituras para entender melhor a psicanálise... emendar os fios de dois discursos (o da Torá e o da psicanálise) considerados heterogêneos e radicalmente alternativos". Portanto, o seu trabalho não é um trabalho sobre raízes, mas um entrelaçamento de dois fios - e, além disso, os estudos de Freud e Lacan nos dizem que os dois discursos não eram, desde o início, tão 'heterogêneos e alternativos'. Na realidade, Recalcati realmente faz um trabalho de fundamentação de sua psicanálise a partir dos mitos bíblicos, mas o seu trabalho é um trabalho sobre as raízes de sua própria versão da psicanálise, que se tornou ao longo dos anos algo mais do que uma aplicação e desenvolvimento da teoria de Lacan.

 

Recalcati, talvez, tenha chegado à Bíblia, à palavra bíblica, a partir do estudo da linguagem na teoria de Lacan, onde ocupa um lugar central, provavelmente o primeiro lugar. A centralidade da linguagem leva Lacan a dizer que "o que distingue de modo particular o Deus dos judeus é... que ele é um Deus que fala". A palavra criadora opera o que Recalcati chama de O primeiro corte: Deus, ao criar, se retira da criação, separa-se dela, "corta" a criação de si mesmo.

 

Hoelderlin havia expressado poeticamente esse corte com um de seus versos mais belos: "Deus criou o homem como o mar cria os continentes: retirando-se". Portanto o mundo ficaria “sem Deus”, pois “o ato da criação é o ato de m corte que afasta e separa a criatura de seu Criador... O Deus bíblico realiza um passo para trás em relação a si mesmo separando-se do que gerou”.

 

Uma chave de leitura que agrada bastante a Recalcati (e Lacan), que construiu sua teoria da paternidade-filiação em torno do tema da necessária separação, a única que garante o não incesto. No entanto, quando chega a escrever que "Deus não pode determinar o curso da história porque a história é feita pelos homens e não por Deus. É, a rigor, a morte definitiva de toda teodiceia", achamos mais difícil segui-lo.

 

A relação entre Deus e a criação não termina no capítulo dois do Gênesis; continua com Adão, Caim, Noé e depois Abraão. A ideia bíblica central da Aliança diz o contrário: Elohim escolhe um povo para conduzir a história humana rumo a um cumprimento, para transformá-la. O Deus bíblico não está ausente na história, mas opera por meio de homens e mulheres que estão dentro de uma relação de aliança. Sem falar nos profetas, pelos quais Deus envia palavras aos homens para mudar o mundo, sem falar no apocalipse e de Deus como “juiz do mundo” (Daniel 7), de Cristo e do Paráclito.

 

Recalcati continua com um segundo corte, que descobre ainda nos primeiros capítulos do Gênesis, um corte que "intervém para separar a criatura da miragem de sua totalização". Aqui está em jogo outra categoria chave no sistema Recalcati-Lacan: a gestão do desejo. No capítulo dois do Gênesis, Adam (o humano, o terrestre) torna-se Adão, o homem, e depois dele chega a mulher, Eva, de uma das costelas de Adão. Aqui Recalcati escreve algumas das mais belas páginas do livro: “O mito da costela perdida é o mito da origem do desejo humano: buscar no outro a parte mais fundamental de mim mesmo”. Lacan também havia discutido o mito de Adão e sua costela, e "essa parte perdida que causa nosso desejo é chamada por Lacan de o objeto pequeno".

 

Uma Eva moldada com uma parte do corpo de Adão, agrada muito a Recalcati, e ele constrói um discurso fascinante: "A perda de uma parte do ser - a costela - introduz uma falta no sujeito que ativa seu desejo pelo outro que, sendo atravessado pela mesma falta, só pode, por sua vez, dirigir-se para o outro, mas sem que exista nenhuma possibilidade para ambos de preencher definitivamente a falta que cada um carrega consigo”. Daí sua principal tese sobre a relação sexual: "A impossibilidade de viver a relação com o outro como uma simples unificação, um espelhamento entre iguais, uma simetria sem diferença". A experiência da falta é, portanto, constitutiva do eros e da relação homem-mulher. O desejo do outro é insuperável, porque a costela não retorna mais a Adão, é uma falta intransponível.

 

Enquanto para Platão "o eros é a busca daquela realidade primeira", para Recalcati-Lacan o desejo do outro é insuperável, permanece uma ferida, uma indigência: "O desejo humano busca sua própria parte perdida no Outro, sem nunca poder reencontrá-la. Eva, como índice da alteridade do Outro, embora surgindo da costela de Adão, jamais poderá ser recuperada em seu ser heteros pelo desejo de Adão”. Para Platão, o eros é o retorno ao uno e ao inteiro, para Recalcati “é justamente essa diferença que define o ser humano como tal, ordenando seu desejo em torno de um ponto de ausência, de uma falta de ser fundamental”.

 

Um discurso fascinante e convincente. O problema diz respeito à relação entre essa teoria psicanalítica e o texto bíblico. A alegria de Adão após o despertar está em ter encontrado alguém que finalmente é igual a ele, porque "esta é agora osso do meu osso, carne da minha carne" (2,23).

 

O que importa destacar no texto é justamente a paridade e a igualdade, e é realmente difícil encontrar na costela o sinal da falta e do desejo insuperável, porque tudo diz o contrário: com Eva, Adão finalmente satisfez aquele desejo de igualdade que anteriormente permanecia insatisfeito. Não quero dizer que a visão de Recalcati seja menos interessante que a do autor bíblico, daquela de Platão ou de Freud; estou apenas dizendo que é problemático baseá-la no texto bíblico.

 

Por outro lado, continua a ser possível oferecer uma nova leitura daqueles mitos antigos, uma operação legítima e, neste caso, geradora.

 

Massimo Recalcati, La Legge della parola. Radici bibliche della psicoanalisi, Einaudi, Páginas XIV - 386

 

 

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