Do choque de civilizações à guerra por território

Patriarca Kirill | Foto: Igor Palkin - Site do Patriarcado de Moscou

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11 Mai 2022

 

Um front moralista internacional veicula proclamações de ódio baseando-se nos textos sagrados.

 

A reportagem é de Gaëlle Courtens, publicada em Voce Evangelica, de maio de 2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

O Patriarca Kirill, líder espiritual da Igreja Ortodoxa Russa, no dia 6 de março passado, por ocasião da primeira liturgia dominical da Quaresma, justificou a guerra de Vladimir Putin contra a Ucrânia dizendo que devem ser contidas as Paradas Gays. Para Kirill, é necessário defender os valores cristãos ameaçados, na sua opinião, por um Ocidente depravado.

 

O patriarca ortodoxo de Moscou e de todas as Rússias está travando há anos uma “guerra” contra os homossexuais, contra a “promoção do pecado”, contra tudo aquilo que “vai contra a lei de Deus”. Apoiado pelo presidente Putin, que aprovou leis contra a “propaganda gay”, Kirill vê a invasão da Ucrânia como uma operação cujo objetivo, em última análise, consistiria na “salvação da humanidade” das perversões do mundo moderno.

 

Ecumenismo do ódio

 

A retórica fundamentalista de Kirill encontra paralelos nas posições defendidas pelas alas integralistas do catolicismo reacionário, assim como por alguns ambientes evangélicos, e é constantemente acompanhada por uma boa dose de fervoroso nacionalismo.

 

No “léxico teológico” desse front – que a socióloga das religiões Kristina Stoeckl chama de “Internacional moralista” – convergem proclamações homofóbicas, expressões antifeministas, antiabortistas, islamofóbicas e antissemitas.

 

De acordo com a estudiosa, que leciona na Universidade de Innsbruck (Áustria), o Patriarca Kirill “está repetindo argumentos que ele defende desde a eclosão do conflito no Donbass, em 2014”. Termos como “Gayropa” e “Europa como Anticristo” circulam há anos nos ambientes ortodoxos mais fundamentalistas, acrescenta Stoeckl.

 

Conflitos pós-seculares

 

“É importante ressaltar que as raízes dessa visão de mundo não estão circunscritas apenas à Rússia, mas estão presentes também no Ocidente”, insiste Stoeckl. Choques de civilização entre sistemas de valores progressistas, por um lado, e conservadores, por outro – defendidos e alimentados pelas respectivas correntes religiosas –, surgiram há muito tempo no debate político das democracias ocidentais. Kristina Stoeckl fala, a esse propósito, de “conflitos pós-seculares”.

 

Há décadas, assiste-se a uma crescente polarização, generalizada em todas as confissões cristãs, alimentada por um campo conservador, defensor de valores tradicionalistas, por um lado, e por um campo progressista, arauto de posições liberais, por outro.

 

Os primeiros não fazem mistério sobre a sua homotransfobia, organizam funerais para os fetos abortados, atacam em nome de Jesus as instituições democráticas – como ocorreu em Washington, com o ataque ao Capitólio. Os segundos celebram o casamento dos casais gays, aprovam a ordenação das mulheres ou acompanham pastoralmente ao suicídio assistido as pessoas que o solicitam.

 

A verdadeira guerra

 

A guerra na Ucrânia produziu uma mudança relevante: aquilo que podia ser considerado um jogo de partes do sistema democrático na era da globalização – uma “guerra cultural” ou um “conflito de opiniões” – assumiu um caráter novo.

 

Esses confrontos, diz Stoeckl, “foram transformados pelo Patriarcado de Moscou em uma verdadeira guerra por território”. Um desenvolvimento imprevisto e terrível, que certamente tem precedentes na história, mas que ninguém no Ocidente pensava que poderia ser promovido pela Igreja Ortodoxa Russa.

 

Cristãos e cristãs LGBT

 

No dia 17 de maio, Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia – instituído em 2007 – as comunidades cristãs e os cristãos LGBT recordam as vítimas da homobitransfobia. Em muitos países, celebram-se cultos e vigílias de oração.

 

Para os promotores, trata-se de sensibilizar as comunidades cristãs e a sociedade para que se abra espaço para todos e todas, para que se tornem “cada vez mais santuários de acolhida e apoio às pessoas LGBT e a toda pessoa atingida pela discriminação”.

 

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