Parolin: “Há um recuo das forças de inspiração cristã. Não só na política italiana, mas sobretudo na sociedade”

Foto: Kremlin | Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Março 2022

 

"É bastante evidente que nos últimos vinte anos houve um recuo das forças de inspiração cristã na vida pública, em todos os níveis”. O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, realizará hoje uma lectio na apresentação da "Agenda pública ‘Sui tetti’ do laicato católico", no Angelicum de Roma, uma iniciativa "pré-política" de cerca de setenta associações, que também contará com a presença do Cardeal Gualtiero Bassetti, presidente da CEI.

 

A entrevista com Pietro Parolin é de Gian Guido Vecchi, publicada por Corriere della Sera, 09-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Eminência, é um bom sinal que queiram uma mudança de ritmo na presença pública? E o que a Igreja tem a dizer a eles?

 

Esta iniciativa, promovida por muitas associações do laicato católico, foi precedida de uma longa atividade preparatória e confirma a atualidade do ensinamento do Concílio: no decreto Apostolicam actuositatem, pedia aos leigos um apostolado mais intenso e extenso, e tanto mais urgente com a mudança dos tempos. Parece-me importante reiterar, como também indicou o Papa Francisco, que o Concílio não olha para os leigos como se fossem membros de ‘segunda ordem, a serviço da Hierarquia e simples executores de ordens de cima’, mas como batizados que são chamados a animar e aperfeiçoar com o espírito cristão a ordem das realidades temporais, agindo como fermento. A mensagem que podemos dar é sobretudo de encorajamento, orientação e confirmação. Essa sinergia desenvolve o ensinamento paulino: a Igreja é um Corpo unitário, embora composto de muitos membros, cada um com sua função.

 

Existe um problema de irrelevância dos católicos na política?

 

Não penso apenas na representação política. A relevância dos católicos na política intervém em um momento secundário. O principal é a relevância na sociedade. É aí que os católicos devem estar presentes, visíveis, testemunhas de uma visão e de um estilo de vida inspirado no Evangelho. Essa relevância precede a outra, que deveria ser sua consequência natural.

Caso contrário, é como querer construir um edifício sem alicerces. Não pode resistir e seria um esforço em vão.

 

Por que o senhor acha que isso aconteceu? Houve algum erro ou é o espírito do tempo?

 

As causas desse retrocesso são muitas. A primeira é a própria crise da fé, que por sua vez é em parte consequência da secularização. Uma secularização que, no início deste século, experimentou uma forte aceleração também devido ao processo tecnológico e digital, que está transformando cada vez mais nossos estilos de vida e formas de pensar cada vez mais rapidamente. Esta transformação também pegou de surpresa a instituição eclesial.

 

Mas o que significaria a "relevância" dos católicos? A influência e o poder que eles tinham nos tempos da DC? Ou o que mais?

 

Isso significaria, em positivo, a sua visibilidade em todas as esferas da vida pública e privada. Assim poderiam ser aquele "fermento" indicado pelo Concílio. Certamente não devemos pensar em repropor os esquemas do passado, mas em uma presença generalizada que, a partir do ambiente social e cultural, faça emergir suas próprias instâncias: instâncias que não são exclusivas dos cristãos, mas dizem respeito ao homem em geral, de cada lugar e tempo. Mas as condições devem existir.

Primeira entre todas, garantir uma efetiva liberdade religiosa, que implica a liberdade de expressar a própria convicção sem obstáculos ou preconceitos, superando a divisão artificiosa entre público e privado, como se a fé pudesse se expressar apenas na dimensão íntima da pessoa.

 

Muitas vezes estão divididos: "conservadores" atentos aos temas éticos, "progressistas" aos sociais. Existe o risco de instrumentalização?

 

Sempre houve pontos de vista diferentes na Igreja e entre os católicos e, em certa medida, servem para viver principalmente a misericórdia entre nós. Gosto de citar uma frase de São João XXIII: unidade nas coisas necessárias, liberdade naquelas não necessárias, caridade em todas. Mais do que de divisões, prefiro falar sobre diferenças de ênfases e perspectivas. É um grave erro pensar que os temas mais explicitamente éticos ou bioéticos sejam distintos dos temas sociais e que não exista continuidade.

São os dois lados da mesma moeda. As questões sociais não podem ser enquadradas corretamente se não a partir de uma determinada antropologia e vice-versa. Esta separação não tem fundamento e é prejudicial à própria ação eclesial. Quando se perde a visão de conjunto, as divisões intervêm e se corre o risco de ser instrumentalizados.

 

Como se pode evitá-lo?

 

Só existe um remédio, o mesmo há dois mil anos. Retornar às raízes do que nos une.

Partir do que é comum. Dialogar, confrontar-se, até discutir, mas no final e sempre reconhecer-se como parte do mesmo Corpo: só assim as diferenças se tornam riqueza, a pluralidade comunhão.

 

Leia mais