Memória, força motriz da história. Artigo de Enzo Bianchi

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26 Janeiro 2022

 

A memória é o fino fio interior que nos mantém ligados ao nosso passado. Não é fácil viver essa relação íntima com o próprio passado de modo fecundo, porque corremos sempre dois perigos de sinal oposto: o de permanecer prisioneiros do passado ou o de romper todos os laços com ele até não o reconhecermos.

A opinião é do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 24-01-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Quem conhece a velhice porque a vive ou porque a observa nas pessoas que lhe são próximas sabe que a perda da memória é uma dor sofrida no silêncio e na impotência desesperadora. Perder a memória não é apenas uma espoliação, mas também é sofrer o furto da própria vida.

Porque a memória é o fino fio interior que nos mantém ligados ao nosso passado. Não é fácil viver essa relação íntima com o próprio passado de modo fecundo, porque corremos sempre dois perigos de sinal oposto: o de permanecer prisioneiros do passado ou o de romper todos os laços com ele até não o reconhecermos.

No nosso presente, entrelaçam-se memória e esquecimento, passado e futuro, mas, sem acabar em um culto da memória, devemos abrir um futuro ao passado, como adverte Barbara Spinelli com perspicácia no livro “Il sonno della memoria” [O sono da memória].

A memória torna-se então “força motriz da história”, que relê, mas não reescreve e permite mudar não o passado, mas o futuro. A memória do mal e da sua epifania é essencial para assumir uma verdade cruel: o mal é possível ao ser humano, até para mim mesmo, o mal é banal e, portanto, chega-se a considerá-lo como uma realidade a ser vencida.

 

 

O Dia da Memória de 27 de janeiro deve ser um dia de reflexão inteligente para recordar as vítimas: esquecê-las significaria matá-las uma segunda vez. Sim, uma porção de humanidade foi perseguida e eliminada com um plano desenhado por outra parte de humanidade cega e bárbara, que não reconhecia mais nem a dignidade humana comum nem a fraternidade. É importante fazer ressoar um “nunca mais” com desdém, mas também é necessário nos interrogarmos por que a Shoá pôde ocorrer.

Quando se evoca a Shoá, ela é atribuída exclusivamente à ideologia nazista, identificando os culpados nos sujeitos a serviço daquele poder totalitário e criminoso. Na realidade, muitos homens que não compartilhavam as ideologias nazistas também foram responsáveis pela Shoá, pessoas com uma consciência silenciosa e acostumadas a pensar apenas em si mesmas.

No silêncio ou na aprovação muda, pelo bem da nação, do povo e da raça, escolheram a indiferença. Por isso, o que ocorreu à época ainda é possível hoje: fracos que se tornam prepotentes, impotentes que se tornam torturadores, apáticos que se tornam cruéis.

Os últimos sobreviventes do inferno estão indo embora, e cessarão as narrativas daquilo que era inenarrável no início. E então, mais do que nunca, será necessário vigilância para combater o enfraquecimento da memória, o esquecimento que é terreno fértil para os negacionismos, as leituras oblíquas e as justificações impossíveis.

“O ser humano se define pela sua memória”, escrevia Elie Wiesel, querendo dizer que a humanidade é singular também devido à sua capacidade de memória. Sem esta, nem mesmo a palavra seria possível a nós, humanos, e a verdade se tornaria mentira.

 

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