Um outro jogo – O terceiro elemento no xadrez

Xadrez. | Foto: Pixabay

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03 Julho 2020

"Jogar o jogo sem se importar quem irá vencer/perder. Vencer, inclusive, não passa em só observar sem ser despido. Vencer é ser vencido. Um jogo assim é encantamento puro. O xeque-mate imperioso é puro desencanto. O que os homens do entendimento não percebem é que enquanto se orgulham de suas habilidades racionais, não passam de meras peças (jogadas) no tabuleiro do tempo", escreve Irlan Farias, psicólogo formado pela Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ, mestrando em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e autor do livro "Falas e Falhas - interstícios da poética do desejo".

Eis o artigo.

Xadrez é a arte de não ver o que está revelado. Está tudo ali, mas a mente em algum momento irá falhar, ou de um lado, ou do outro. Quando ocorre de haver a falha e o outro não se estabelecer, o equilíbrio poderá persistir até o fim. Neste caso, o empate não diz tudo o que é o jogo. Há um terceiro elemento presente na cena desde sempre. O empate entre os jogadores mostra uma das faces deste terceiro. Não somente. É como se o jogo tivesse vida própria e soprasse as falhas nos cálculos, nos lapsos de visão, daquilo que está na cena e que ninguém vê, tal como “A carta roubada” de Edgar Allan Poe de, tão revelada que estava, de algum modo se tornou ausente aos olhos dos investigadores mais sofisticados. Matemática simples apenas. Enquanto a sofisticação elabora equações complexas, soluções mirabolantes, o jogo jogado faz o simples porque tudo que aspira é ser imprevisível e aberto a infinitas possibilidades. Como o homem do entendimento reduz tudo para caber em sua lógica, acaba não vendo o já-está-aí desde sempre presente na cena. O jogo “joga” a partir desses interstícios.

Ele é a própria casa sem peças; o xeque duplo e descoberto; o corta-luz para confundir o adversário; o ponto de força das torres alinhadas: o respeito da dama ante à linha de força das torres alinhadas; o drible mágico do cavalo (o devir coringa que ele encarna): sua leveza precisa tal como os movimentos em Tai Chi; a agudeza do bispo, o soberano das diagonais; a constância-tartaruga dos peões que sabem a importância de estarem colados um no outro: a estética de força quando conseguem formar um cordel de mãos dadas; a aflição do rei quando está desprotegido andando casa a casa sabendo que será destronado; a imponência majestosa da dama-amazona que, ao sair da casa para a batalha, sabe que tem de fazer a diferença.

O terceiro não é uma entidade metafísica. É o entremeio. Aquilo que escapa das vistas. Então, a pergunta que se impõe é: haveria alguma forma possível de vencer a vitória permanente? Algo como tentar vencer a morte num duelo ao modo do “Sétimo Selo” de Bergman? Talvez sim. Tornar o jogo outra-coisa. Algo mais saboroso que a finalidade. Infinitas possibilidades como no go chinês, quem sabe. Dar às peças funções abertas, erráticas. Tornar o jogo imperial um tabuleiro esquizo. Algo como Alice atravessando o espelho e descobrindo outras realidades. Tornar os movimentos geométricos do xadrez um ballet a dois, de modo que adversários se “enfrentem” como se estivessem deslizando num pas de deux e rodopiando alegremente. Algo como um duelo de amor em que ambos tombam vencidos – pelo jogo. A cada peça perdida, uma peça despida. Jogar o jogo sem se importar quem irá vencer/perder. Vencer, inclusive, não passa em só observar sem ser despido. Vencer é ser vencido. Um jogo assim é encantamento puro. O xeque-mate imperioso é puro desencanto.

O que os homens do entendimento não percebem é que enquanto se orgulham de suas habilidades racionais, não passam de meras peças (jogadas) no tabuleiro do tempo. Quem joga o jogo é apenas o tempo.

 

Nota:

O artigo teve a colaboração de Nathalia Rodrigues, dona do último parágrafo. 

 

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