Em um feito histórico, Igreja beatifica quatro vítimas da ditadura militar

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30 Abril 2019

Com uma grande cerimônia, a Igreja beatificou neste sábado em La Rioja o bispo Enrique Angelelli, os sacerdotes Gabriel Longueville e Carlos de Dios Murias e o pai de família Wenceslao Pedernera. É um feito histórico para o país já que são os primeiros mártires da Igreja na Argentina reconhecidos oficialmente pelo Vaticano que foram vítimas da última ditadura militar.

A reportagem foi publicada por Clarín, 27-04-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

O cardeal Giovanni Angelo Becciu, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, enviado do Papa Francisco, coordenou o ato. "Em primeiro lugar, quero enviar o abraço do papa Francisco, com quem me encontrei antes de vir para cá", começou Becciu e, depois de saudar os presentes, destacou os quatro beatos como "modelos de virtude e da fortaleza na fé até o martírio".

Dante Braida, bispo de La Rioja foi quem pediu formalmente a beatificação, condição prévia para serem declarados santos. E depois que foi feito um resumo sobre a vida de cada um dos mártires riojanos, onde se assinalou "a perseguição explícita e violenta" da qual Angelelli foi vítima, Becciu leu a carta apostólica de Francisco por meio da qual se inscreveu no livro dos beatos os nomes de Angelelli, Longueville, De Dios Murias e Pedernera, ao ser provado que o assassinato dos quatro durante a última ditadura constituiu um martírio.

Enrique Angelelli (Foto: Télam)

 Gabriel Longueville (Foto: Pato Gonzalez - Wikimedia Commons)

Carlos de Dios Murias (Foto: Franciscanos.org)

Wenceslao Pedernera (Foto: Vatican News)

A missa foi presidida pelo enviado do Papa e concelebrada pelo núncio apostólico na Argentina, León Kalenga Badikebele, e por cerca de 40 bispos de diferentes dioceses do país; entre eles o titular da Conferência Episcopal Argentina, monsenhor Oscar Ojea; o cardeal primado da Argentina, arcebispo de Buenos Aires, Mario Poli; e o bispo emérito de Tucumán, cardeal Héctor Héctor Villalba.

Becciu criticou severamente o regime militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983. No ofício realizado nos subúrbios da capital riojana, disse que os integrantes da última ditadura “se declaravam cristãos, mas queriam uma atitude servil do clero e passiva dos fiéis leigos”, ao mesmo tempo em que assinalou que consideravam “suspeito qualquer um que promovesse a justiça social”.

Além disso, Becciu afirmou que os quatro mártires foram “insultados e perseguidos pelo fato de seguirem Jesus e por procurarem a justiça evangélica”, já que eles foram “testemunhas fiéis do Evangelho a custa do sacrifício extremo de sua própria vida”.

No caso de Angelelli, disse que “socorria um povo muito pobre, vítima de injustiças”, inspirado em seu lema “com um ouvido na palavra de Deus e outro no povo” e “disposto a dar a vida” pelos mais necessitados.

Representando o governo nacional, participaram da cerimônia a vice-presidente Gabriela Michetti e o secretário de Culto, Alfredo Abriani, como também os governadores de La Rioja, Sergio Casas; de Catamarca, Lucia Corpacci; de Córdoba, Juan José Schiaretti; de Salta, Juan Manuel Urtubey; e o presidente do Partido Justicialista nacional José Luis Gioja.

Os mártires

Longueville, nascido na França em 1931, e Murias, em Córdoba em 1945, estavam incardinados na diocese de La Rioja, o primeiro desde 1971, e o segundo desde 1975. Na noite de 18 de julho de 1976, enquanto terminavam de jantar na casa de umas freiras em Chamical, apareceram alguns homens uniformizados que disseram ser da Polícia Federal e lhes comunicaram que deviam acompanhá-los para depor na capital provincial. Mas os levaram para a base aérea local onde foram torturados e fuzilados. Operários encontraram seus corpos dois dias depois junto aos trilhos de um trem.

Mapa da Argentina com destaque para a Província de La Rioja (à esquerda) e mapa da Província com a localização da cidade de Chamical (à direita)  (Fontes: Wikimedia Commons e argentinaviajera.com.ar, respectivamente)

Por sua vez, Pedernera havia nascido em San Luis e desde muito jovem trabalhou, primeiro em uma enseada e depois nas bodegas Gargantini, em Mendoza. Casado com Coca Cornejo, tinha três filhas. Depois de uma experiência comunitária rural em La Rioja se mudou para a localidade de Sañogasta, onde integrava uma cooperativa com várias famílias e difundia o Evangelho. Na madrugada de 25 de julho de 1976 bateram na porta de sua humilde casa e, ao abrir, três pessoas encapuzadas dispararam contra ele, diante de sua esposa e suas filhas. Morreu horas depois.

Finalmente, Angelelli morreu em 4 de agosto de 1976 quando voltava para a capital provincial de Chamical, depois de participar do enterro de Longueville e Murias com uma pasta que continha informações sobre os assassinatos. Na altura da Paraje de los Llanos outro carro cruzou sobre o seu e ele acabou capotando. Seu corpo apareceu com os braços estendidos em cruz e com um forte golpe na cabeça.

Um longo processo judicial

A morte de Angelelli percorreu um longo processo judicial que culminou em 2014 com a condenação à prisão perpétua dos militares Luciano Benjamín Menéndez e Luis Fernando Estrella como mentores intelectuais do homicídio.

Menéndez e Estrella (Foto: DyN | Arquivo)

A poucos dias do assassinato, em 31 de agosto de 1976, o juiz riojano Aldo Zalazar Gómez, resolveu arquivar o processo, depois de aceitar o critério da promotora de que a morte havia sido fruto de um acidente de trânsito causado por um pneu murcho.

Com a volta da democracia, em 1983, o juiz de La Rioja, Antonio Condado, reabriu a causa e no ano seguinte o juiz Aldo Fermín Morales a renomeou como "homicídio qualificado e tentativa de homicídio qualificado".

Em 1986, o mesmo magistrado ditou sentença afirmando que "a morte de Enrique Angelelli não obedeceu a um acidente de trânsito, mas a um homicídio friamente premeditado e esperado pela vítima".

Em 1988, o ainda juiz da causa rejeitou o pedido da promotoria de que o processo contra os culpados fosse conduzido pelo Conselho Supremo das Forças Armadas, resolução que foi apelada perante a Corte Suprema de Justiça que a indicou finalmente para a Câmara Federal de Córdoba.

Nesse mesmo ano, o procurador da Câmara se pronunciou pela aplicação das leis de Obediência Devida e Ponto Final, exonerando dos cargos vários militares envolvidos no assassinato do bispo riojano.

Em 1990, a Câmara Federal de Córdoba considerou esgotada a investigação e reduziu a pena dos envolvidos.

Recentemente, em outubro de 2005, com uma mudança na situação política nacional e com a abolição das leis do perdão, o juiz federal substituto de La Rioja, Franco Romano Grassi reabriu a investigação e ocorreu a reabertura da causa.

Depois de 8 anos, foi enviada a julgamento e o processo começou em 4 de novembro de 2013 e foi concluído em 4 de julho de 2014, a um mês de se celebrar os 38 anos do assassinato, com a sentença à prisão perpétua dos militares Luciano Benjamín Menéndez e Luis Fernando Estrella como mentores intelectuais do homicídio.

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