Por que o decrescimento não fascina a nós, ocidentais

Foto: Reprodução/Internet

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Março 2018

O "decrescimento" é uma perspectiva ético-política que se espalhou rapidamente em todo o mundo após a traumática crise financeira de 2008: uma catástrofe global que parece já ter sido totalmente e sintomaticamente superada.

A reportagem é de Andrea Muni, publicada por L’Espresso, 20-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mas o que é realmente o decrescimento? Para Serge Latouche, filósofo e economista francês, um dos principais ideólogos do movimento, “o decrescimento não se destina a substituir o atual e deletério significado de "economia" e de "crescimento", por um significado diferente - talvez pintado de verde e de "équo-solidariedade” - que seria por fim aquele ideal. Trata-se, ao contrário, nada mais nada menos, que sair da economia: uma tarefa ainda profundamente incompreendida pela maioria dos nossos concidadãos, para quem é difícil aceitar o fato de que a economia tenha se tornado uma religião e que é preciso, portanto, começar a construir uma sociedade verdadeiramente laica".

Latouche - como homem de esquerda que muito estudou Marx - também acredita que, para sair desse supersticioso "status de dependência", cada povo deva redescobrir suas raízes e tradições culturais. O decrescimento, portanto, como suspensão da pretensão delirante e requintadamente imperialista de ter o direito/dever de julgar os valores dos outros povos com base naqueles "universais" que nós, ocidentais, criamos, e incutimos pela força, em quase todas as outras culturas o mundo. Mas também, para nós europeus, decrescimento como positiva redescoberta ética e humana, antes mesmo que política, das obras de pensadores como Karl Marx ou Georges Bataille; ou, para nós, italianos como "ruminação" da desesperada denúncia de Pasolini da "mutação antropológica" do povo italiano.

O decrescimento é, portanto, uma perspectiva que poderia variar de uma redução da "necessidade" desenfreada de viajar a turismo à moderação do enorme consumo de produções de "intelectuais" de que se alimenta a hipertrofia da chamada indústria cultural. Mas, acima de tudo, do ponto de vista ético, decrescimento significa suspensão radical de fé ingênua que temos em relação a aquelas que nos parecem "naturalmente" como as nossas mais evidentes ambições e expectativas.

Na Itália, na verdade, não tivemos que esperar por Latouche para ouvir Pasolini denunciar desesperadamente, desde o início dos anos 1970, a destruição capitalista e consumista dos modelos culturais (e existenciais), em que as classes menos abastadas podiam encontrar com felicidade formas de se "reconhecerem" e "realizarem". Nada poderia ser mais atual que uma denúncia semelhante, na verdade, especialmente se considerarmos que - nunca como hoje - os pobres têm à disposição exclusivamente modelos assintóticos e inatingíveis, que parecem deliberadamente concebidos para gerar sistematicamente frustração e inveja social (se você é um cozinheiro, precisa se tornar no mínimo um masterchef; se você desempenha uma profissão humilde, pelo menos, deve percebê-la como algo temporário e da qual você tem vergonha; nos seriados da moda para meninas as protagonistas são sempre aspirantes a artistas, ou super-heroínas, e os pobres não existem).

O problema do fracasso do projeto de decrescimento - pelo menos na Europa e nos EUA, porque, ao contrário, no Uruguai teve, até 2015, um presidente ‘decrescista’ (Pepe Mujica) que transformou radicalmente o país – deve ser procurado em sua substancial falta de charme. O decrescimento na verdade, este talvez seja o verdadeiro limite estratégico de perspectiva de Latouche, não pode se resolver em uma virtuosa autolimitação que a comunidade humana - finalmente "iluminada" - deveria ser capaz de impor para si mesma, para o bem do meio ambiente e das relações sociais.

Essa ideia, embora respeitável, não é suficientemente radical (nem atraente). Por qual motivo - poderia, com toda razão, argumentar qualquer um - justamente eu deveria ser o primeiro a começar a limitar a minha voracidade de consumidor, meus hábitos altamente poluentes e as minhas ambições autoempreendedoras, enquanto todos os outros não se importam minimamente?

O decrescimento precisa se tornar mais do que uma aspiração (basicamente moralista) de difundir para os outros um desejo de "autolimitação” do consumo, da ambição e do egoísmo. Deveria conseguir demonstrar - como fez Bataille, em sua própria vida - que o homem e a natureza não tendem a reinvestir "naturalmente" as próprias energias excedentes para crescer indefinidamente (como gostaria a mitologia cientista da economia política, o darwinismo social e todo o neo-positivismo burguês), mas tendem, ao contrário, a apreciar livrar-se delas, destruí-las, consumi-las de vez. O "novo" decrescimento deveria ser apresentado como uma experiência da satisfação individual, e de si mesmos, o que se colocasse explícita e "egoisticamente" em concorrência com aquela condensada na ética do chamado homo oeconomicus.

De acordo com a perspectiva "decrescimentista" de Bataille, de fato, o homem (e a vida em geral) não são caracterizadas por uma tensão indefinida à acumulação, mas por uma urgência para descarregar, ejetar, dissipar a energia que espontaneamente produzem em excesso. A dépense é para Bataille uma verdadeira pulsão que tudo o que vive tem de "consumir" – de fazer "decrescer" - uma energia excedente que se não fosse rapidamente dissipada se voltaria contra o próprio organismo destruindo-o.

O que é removido, excluídos, censurado da forma mais sutil do nosso sistema de valores é de fato a alegria, a satisfação clara e profunda que tudo o que vive - incluindo o ser humano - pode tentar não ter a menor vontade de "reinvestir", no circuito da vantagem e do lucro, as forças e os bens do quais dispõe em excesso. A "festa" é para Bataille o lugar (sagrado e comum), em que a urgência desse desperdício, e a rejeição radical da lógica do lucro, se fundem dando vida a novas formas de sociabilidade e de satisfação. A "festa" de Bataille não se confunde com o consumismo capitalista, muito menos com a ideia latouchiana de uma sóbria, moralista autolimitação do luxo, da glória e do egoísmo, mas sim nos indica o caminho para uma nova significação para além do lucro. A festa como "outra cena" onde construir novas formas - não capitalistas nem consumistas – de sociabilidade, intimidade e amizade; onde inventar novos significados das palavras "glória", "consumo" e até mesmo da tão vituperada "egoísmo". Um estar juntos satisfeitos "na perda" - chamado por Marx também de "consciência, ou orgulho, de classe" - que talvez possa nos ajudar também a ver mais claramente a parte que nós mesmos "explorados" até agora inadvertidamente jogamos na lógica dessa absurda “religião econômica" da qual nós somos - todos – ao mesmo tempo as vítimas e os artífices.

Leia mais