Sobre o trabalho, as palavras de um profeta que não usa a fé como amortizador social

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08 Outubro 2017

O radicalismo evangélico do magistério do Papa Francisco é, com toda obviedade, o contrário de uma derivação integralista ou mística. E, ao mesmo tempo - a diferença do que lamenta a ala conservadora do catolicismo - não tem nenhuma sujeição em relação às seduções da secularização.

O comentário é de Nichi Vendola, presidente do partido italiano Sinistra Ecologia Libertà, publicada por il Manifesto, 05-10-2017.

Suas palavras vão direto ao coração das coisas e manifestam um forte incômodo pelos eufemismos que muitas vezes manipulam ou anestesiam os acontecimentos.

Esse radicalismo busca a raiz dos males do século e não usa a fé como um “amortizador social”. Muito antes pelo contrário.

Nos suntuosos salões do Vaticano ou na empoeiradas periferia do planeta, a "boa nova" que o Papa anuncia não é uma sublimação mística das más notícias que falam da miséria de uma época de guerra global, uma guerra que se apresenta até em formas pulverizadas: a guerra como terror industrial ou como artesania de 'lobos solitários', a guerra contra a biosfera em nome da mercantilização de tudo que é vivo, a guerra social contra o trabalho e os seus direitos, a guerra dos homens contra as mulheres, a guerra dos mais ricos contra os mais pobres, a guerra e os seus derivados culturais que constroem muros e engendram medos individuais e fobias coletivas.

A radicalidade de Bergoglio parece-me toda jogada no campo do discernimento e da análise anti-retórica da doença social e antropológica que aflige a nossa era pós-moderna, a partir do Ocidente: a desumanização da vida, alienada e dessacralizada em nome da religião do lucro econômico, reduzida a objeto de rápido consumo, muitas vezes considerada resíduo ou excedência por quem não vê os rostos das pessoas para além das assépticas estatísticas com que nos relatamos ou nas quais nos escondemos.

Surpreende a vivacidade do afresco com que, nos discursos aos movimentos populares, o Papa que "veio do fim do mundo" conta o viver concreto, amargo, despojado, dos pobres: aos quais não oferece consolo, mas sim a exortação para a luta, eu diria até para a resiliência ; surpreende a precisão minuciosa com que analisa cada peça do mosaico, cada sujeito social, jamais reduzindo-o a mera sociologia, a objeto de estudo ou de terapias reparadoras.

Seu encontro com os "últimos" torna-se confronto com os "primeiros", ou seja, conflito aberto com aquelas hierarquias socioeconômicas que apresentam a desigualdade como sua natureza e que, na melhor das hipóteses, preveem “políticas sociais" de contenção não-caritativa da pobreza.

E não é genérica a pobreza da qual fala e para a qual não pede esmolas. É aquele não ter nem teto nem lei dos migrantes, hoje representados e reprimidos como perturbadores da ordem pública, ou propagadores de doenças, ou concorrentes no mercado de trabalho servil.

É a situação de não ter casa, ainda hoje enquanto procuramos alojamento em Marte, tal como aconteceu com o casal que encontrou abrigo em uma gruta para dar à luz a uma criança, antes de migrar como refugiado para um país distante.

É não ter terra para cultivar, não poder ser bíblicos "cuidadores de criação", porque a terra é queimada pelos pesticidas, pela mudança climática e pela violência predatória das grandes multinacionais.

É o não ter trabalho, ou ter um trabalho precário ou informal, sem renda digna, sem tutela sindical, sem respeito pela dignidade e pelo talento único de cada ser humano.

O quanto está distante esse “magistério do trabalho" do palavrório modernista sobre a flexibilidade que iria alimentar o desenvolvimento econômico, mas que, em vez disso, apenas curva e rompe a carne e o espírito do povo, que diferença com os anglicismos com que o trabalho é parcelado, humilhado, esvaziado de significado e reduzidos a mercadoria ou a restos ressequidos, que alteridade em comparação com o emergencialismo dos planos assistenciais que distribuem migalhas de trabalho que é sempre um grande esforço, mas nunca um verdadeiro trabalho, aquele que oferece a "verdadeira inclusão": "aquela que dá um trabalho digno, livre, criativo, solidário e participativo", como cadencia o Papa em um de seus mais belos discursos.

Nessa perspectiva, a "conversão ecológica" que anuncia Bergoglio – que escolheu se chamar não por acaso como o nome do Pobrezinho de Assis - é propedêutica para um modo de produção que tem a ambição de inverter a pirâmide social que nos esmaga: para que não se extraia riqueza da pobreza, ou seja, do empobrecimento da natureza, da cultura, da beleza, dos direitos, da vida e das suas prerrogativas.

Isso, para mim, parece ser a grande profecia de Bergoglio: não a fuga da história, mas a busca na história humana daquele fio que liga a dor à salvação, a desmistificação do mal e de sua banalidade, mas também a constante indicação da lacuna que permite um vislumbre da luz do bem.

Isso é o que fazem os profetas: dizem a verdade, gritam a verdade mesmo quando é inconveniente e arriscada, a representam diante do povo; não são Cassandras que levam à resignação ou à depressão, mas são testemunhas de uma verdade que exorta à ação, à aceitação de responsabilidade, para se tornar "semeadores de mudança".

E aqui os pobres não são apenas vítimas, mas são também os protagonistas do possível resgate de todos: porque podem nos ensinar a economia da reutilização e da reciclagem contra aquela do consumismo onívoros e dos desperdícios, porque os trabalhadores pobres, que são agricultores, artesãos, obreiros, pescadores, transportadores, ambulantes ou catadores, são portadores de uma necessidade universal de salvação do mundo, para ir além daquela ditadura do presente que coloniza os povos, atomiza os indivíduos, rompe os laços sociais, desobedece ao Deus que dança a vida, ao Deus que não nos pede para sermos recrutas do clericalismo, mas sentinelas que divisam a noite à espera de um novo amanhecer.

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