Por que a ''confissão'' do pontífice é revolucionária

Mais Lidos

  • Banco Master: a reconstrução completa de como uma fraude capturou a República

    LER MAIS
  • Pesquisadora reconstrói a genealogia do ecofascismo e analisa as apropriações autoritárias do pensamento ambiental, desde o evolucionismo do século XIX e o imaginário “ecológico” nazista até suas mutações contemporâneas. Ela examina novas formas de “nacionalismo verde” e explica como a crise climática é instrumentalizada pela extrema-direita para legitimar exclusões, fronteiras e soluções antidemocráticas

    Ecofascistas: genealogias e ideias da extrema-direita "verde". Entrevista com Francesca Santolini

    LER MAIS
  • A guerra dos EUA e Israel com o Irã: informação, análise e guerra assimétrica. Artigo de Sérgio Botton Barcellos

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Setembro 2017

Há algo de revolucionário na confissão do Papa Francisco de ter feito análise, de ter se beneficiado com isso e de ter sido tratado por uma psicanalista. Desde o início do século XX, a Igreja sempre se opôs, com todos os meios, até mesmo “ilegais”, à psicanálise, percebida como perigosa concorrente, como “culpada” de ter quebrado o monopólio católico no confessionário e na introspecção das almas.

 A reportagem é de Fabio Martini, publicada por La Stampa, 01-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É claro, a acusação nunca foi declarada explicitamente, mas, durante pelo menos 50 anos, desenvolveu-se uma guerra sem fronteiras contra uma disciplina “herética” fundada pelo judeu Sigmund Freud.

A psicanálise foi uma disciplina, pelo menos na Itália, vivida como desestabilizadora por todos os poderes constituídos. Nas origens, ela foi contrastada não só pela Igreja, mas também pelo fascismo, pelo idealismo de Croce e, no segundo pós-guerra, pelo Partido Comunista Italiano de influência soviética.

De fato, no início dos anos 1930, os pioneiros [na Itália], não por acaso, foram dois judeus – Edoardo Weiss e Emilio Servadio – e dois antifascistas socialistas, Cesare Musatti e Nicola Perrotti.

O Vaticano foi hostil porque intuía na psicanálise uma perigosa concorrente. Ele denunciava o seu “pansexualismo” e “materialismo”, mas, daquelas teorias, o que inquietava ainda mais era a ambição “totalitária”, uma atitude que acabou retirando da Igreja o monopólio da alma e os tantos segredos pessoais até então guardados no confessionário.

E ruiu até mesmo o monopólio sobre a atividade onírica, em relação à qual a Igreja havia elaborado, bem antes de Freud, uma “Interpretação” própria, segundo a qual, através dos sonhos, é o diabo que quer capturar a alma.

É por isso que a Igreja, em 1934, pediu a Mussolini – e obteve – a supressão da “Revista Italiana de Psicanálise”, à qual se seguiria, cinco anos depois, a dissolução da, embora pequena, Sociedade Italiana de Psicanálise.

Sufocada desde o nascimento com o acordo do fascismo, a psicanálise italiana, no segundo pós-guerra, sofreu a retomada das hostilidades por parte Igreja, a tal ponto que, em 1952, no “Boletim do Clero Romano”, chegou-se até a qualificar como “pecado mortal” toda prática psicanalítica.

Uma excomunhão aparentemente sem recurso, mas que, nos anos posteriores, gradualmente se desfez graças a pequenas aberturas de papas como Paulo VI e João XXIII.

Agora, Francisco não apenas “liberou” a psicanálise, mas a elevou a “companheira” da alma humana.

Leia mais